Este é um blog de duas pessoas apaixonadas por idéias. Este blog é sobre e para você que compactua com nosso plano mirabolante de mudar o mundo. Quem dorme na cama dos nossos ideais é nosso amante político. Junte-se a nós em nossa orgia ideológica! Nosso contato: coletivocaju@gmail.com
domingo, 5 de fevereiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
Boneco de pauzinho
Minha mãe sempre foi uma dessas mulheres arrojadas, pragmáticas e funcionais, que vivem sobretudo para o trabalho. Durante toda a minha infância só vi minha mãe de calças, que ela propagandeava (e eu discordo totalmente) como a roupa da praticidade. Quanto aos cabelos, sempre curtos, era também porque cabelos longos "só davam trabalho". Em suma, minha mãe e meu pai, ambos médicos, usavam ambos jalecos e calças, o que aprendi a ler imediatamente como "roupa de adulto", em contraposição aos vestidos e bermudas, "roupa de criança".
O resultado foi que, durante muito tempo, eu achava que os banheiros se dividiam não em masculino e feminino, mas em banheiro de adulto e banheiro de criança. Eu sabia que o meu era o da bonequinha de saia, e "o outro bonequinho", como eu passei a chamá-lo, era o banheiro dos adultos.
Até que um dia, no clube, fiquei com vontade de fazer xixi. A tentação de me aliviar na piscina, como as outras crianças, era muito grande; afinal de contas, ninguém ia saber mesmo... mas por algum motivo, naquele dia eu estava me sentindo uma boa menina e pedi ao garçom a informação. "Onde fica o banheiro das crianças?". Ele me olhou cheio de dúvidas e vazio de paciência. "Não tem disso aqui não, minha filha". Então eu entendi que as crianças faziam xixi na piscina porque afinal não tinha banheiro para nós.
Naquela mesma tarde eu pedi à minha mãe a mesma explicação, ao que ela respondeu também sem muita paciência que os banheiros do mundo se dividiam em "masculino" e "feminino". O feminino era o da bonequinha, que usava saia e tinha Às vezes cabelos longos, e o masculino era representado pelo "outro bonequinho". As dúvidas multiplicaram-se: mas por que o bonequinho é careca? O bonequinho está nu? Se o bonequinho está pelado, onde está o "piu-piu" dele? Minha mãe disse que era feio desenhar o "piu-piu" das pessoas e eu ganhei um sorvete.
Essa dúvida às vezes me visitava na escola. Por que o "bonequinho puro", o bonequinho não-assinalado, era o menino, e o bonequinho de saia era a menina? Tinha muitos problemas envolvidos aí: em primeiro lugar, minha mãe não era homem (ainda não é...), usava cabelo curto e calças, e mesmo assim era representada pelo "bonequinho de saia". Em segundo lugar, se o bonequinho não tinha "piu-piu" nem "pepeca", como a gente saberia em qual banheiro entrar? Um menino de saias podia entrar no banheiro feminino? Uma menina de calças podia entrar no banheiro masculino? Para que servia a divisão "biossexual" do banheiro, se na minha casa eu e meu irmão tomávamos banho na mesma banheira? Ao que tudo indicava, o único "piu-piu" que eu estava autorizada a ver era o do meu irmão...
Mulher é essa coisa na qual transformam a gente, que tem buceta. Mulher também pode ser alguma coisa na qual uma pessoa se transforma porque quer. Porém, a sociedade está cheia de dispositivos que não cessam de nos ensinar o que devemos fazer com o nosso corpo. Podem parecer coisas banais, como "pessoas com pênis, dirijam-se a este aposento para aliviar suas funções fisiológicas" - no caso do banheiro. A questão é que o processo nunca está acabado, e a sociedade permanece vigilante. Ser lembrado de qual é o seu banheiro também é ser lembrado de qual é o seu papel, não só por conta do anúncio na porta, mas por conta de toda uma "cultura do banheiro": lembro de suscitar muitas desconfianças no banheiro da escola, já adolescente. Enquanto todas as meninas se aproximavam do espelho para retocar a maquiagem, enquanto muitas iam ao banheiro para ter suas mais íntimas conversas - era o único ambiente 100% à prova de meninos - eu entrava, mijava, e saía de preferência correndo. Não sem antes receber um olhar duvidoso daquelas que apenas viam meu reflexo no espelho - será que ela é?
Até hoje me impressiona essa universalidade do banheiro. Em qualquer lugar do mundo ocidental você não precisa ter dúvidas do papel que reservam ao seu corpo mediante o seu órgão sexual. A identidade de gênero, ao que parece, é esse lugar imaginário onde sua alma está ancorada para sempre, como se você nascesse com um gênero ou como se, uma vez ele sendo adquirido, seja para a vida toda. Você não pode querer ser homem ou mulher, ou ser os dois, ou não ser coisa alguma. Eu gostaria de uma sociedade onde a identidade, em vez de destino, fosse um imenso jogo onde tivéssemos a autonomia de fluir de um banheiro para outro sem maiores explicações. Ou onde, melhor ainda!, os banheiros fossem assinalados por gosto musical, ou que os banheiros não fossem assinalados em absoluto. Claro que isso tudo está muito distante: por mim, me contentaria com um mundo em que o bonequinho "puro" suscitasse mais dúvidas do que certeza: quem é essa pessoa careca e pelada que, todavia, me impede de (ou me obriga a) passar por esta porta?
domingo, 22 de janeiro de 2012
FILOSOFIA DE BOTEQUIM
A vida moderna é mundialmente conhecida como uma máquina que ordenha tempo do rebanho humano. Quase tudo é absolvido sob a alegação de que “falta tempo”, inclusive, senão sobretudo, o pensamento. Sempre falta tempo para pensar, mas é impressionante como há tempo para novela, futebol, Crepúsculo e fofoca; alguns pensamentos foram relegados aos filósofos, às pessoas importantes e à academia, enquanto outros, “inofensivos”, “despretensiosos”, “menos complexos”, correm frouxos na língua do povo, sob a alcunha depreciativa de “filosofia de botequim”.
O problema dessa alcunha, para mim, é que não há nada “de botequim” no que se fala nos espaços informais da nossa sociedade. Quando você fala em “filosofia de botequim”, o que na verdade está dizendo é que sua ideia tem um raio de ação limitado, que ela não vai a lugar algum; não oferece perigo e pode ser dita livremente. Em última instância é uma espécie de piada que não teve (impressionante como nunca tem) intenção de ofender ou lesar ninguém, e se você se sente ofendido, pois bem, é provável que você seja uma dessas pessoas de esquerda radical, sem nenhum senso de humor.
Estou com o filósofo Foucault quando, na Ordem do Discurso, questiona o conceito de autoria. Ainda pensamos o indivíduo muito como ele foi pensado dos séculos XVIII e XIX: em primeiro lugar, pensamos nele no gênero masculino. Quando queremos discursar sobre a Humanidade como um conjunto, dizemos O Homem, e quando queremos reduzir a escala de nossa análise, dizemos O Indivíduo; diz-se A Pessoa, ou A Humanidade com muito menos frequência, e isso aponta para o fato triste, muito triste, de que o gênero masculino ainda é visto por nossa cultura como a única fração plenamente humana da humanidade.
Em segundo lugar, a ideia de que dentro de nós, em algum lugar, existe um “eu verdadeiro”, uma chama que brilha e nos torna quem “realmente somos”, um núcleo duro, uma essência imutável, continua amplamente acalentada pela nossa cultura, enquanto a profunda discussão que questiona esse paradigma é rotulada como “filosófica” e engavetada imediatamente. Gostaria de, de dentro das minhas possibilidades enquanto escritora, plantar dentro do leitor senão a dúvida quanto a essa essência tão sólida que mora, digamos, em nosso coração, pelo menos plantar o questionamento sobre por que essa premissa é tão sagrada, tão cara para tantos de nós.
Em terceiro lugar, e agora sim voltando à questão da autoria, queria apenas lembrar aos entusiastas da filosofia de botequim, pessoas geralmente do gênero masculino que têm o hábito de pensar que elaboraram muita coisa por conta própria absolutamente do nada: mesmo o pretensioso Deus cristão “no início era o verbo”. A língua não é uma ferramenta neutra, nem o conjunto de rótulos de coisas que estão ou acontecem fora dela: a língua é ideologicamente impregnada. Vejamos o caso do gênero: a língua portuguesa tem dois, e a maior parte esmagadora dos substantivos está em um ou outro. É-nos muito fácil, falantes de português, imaginar que a cadeira seja feminina e o ônibus masculino, quando para um anglófono, que possui o pronome a-generificado “it”, seja totalmente absurdo atribuir gênero a objetos inanimados fora de um contexto literário. Se pensarmos a língua como um acervo de conceitos que surgem e são lapidados no interior de uma cultura por práticas que acontecem ao longo da história, no interior de operações ideológicas complexas muitas vezes intencionais e politicamente orientadas, até que ponto somos donos ou autores do que pensamos e até que ponto, na realidade, fomos antes de tudo pensados dentro da língua?
Somos, não só atravessados, mas profundamente “formatados” pelos discursos que nos cercam. Contam-nos, por exemplo, se somos ou não homens, e em seguida nos dão tarefas específicas segundo a resposta. Contam-nos que somos brasileiros e contam-nos que gostamos, ou que deveríamos gostar, de futebol... Contam-nos que a luz branca é um feixe que pode ser dividido em espectros segundo a velocidade com que chegam em nossos olhos... Todo discurso que elaboramos, e que tão legitimamente sentimos e acreditamos vir de dentro de nós, de algum lugar íntimo, reservado, “só nosso”, apóia-se na verdade em um conjunto muito mais amplo de crenças, narrativas e práticas, que podemos grosseiramente chamar de cultura; que nos cerca, que nos precede, que se estende diante de nós depois de nossa morte, que nos abraça. Não conseguimos pensar sem ou fora dela, bem como não podemos NOS pensar sem ela.
O Botequim, pois, não é a ilha da revelação onde o álcool vem nos abençoar com conhecimentos que estão além da nossa imaginação. Muito pelo contrário, o botequim historicamente construído como lugar que fica “à margem”,é o lugar onde está socialmente autorizado um conjunto de práticas que, no cotidiano, são consideradas imorais. Não há, portanto, nada de profundamente questionador no botequim ou nos hábitos que são ali proporcionados mas, muito pelo contrário, é um nicho necessário à nossa sociedade para que ideologias profundamente conservadoras continuem a perpetuar-se sob o véu do humor, onde tudo é jocoso, onde nada é “de verdade”.
Falo isso porque, na minha vida de universitária, já bebi muito em botequim. Com amigos, com estranhos. A TV sempre ligada no futebol, algumas pessoas vociferando nos fliperamas, o som das vozes formando uma massa compacta e difícil de distinguir. Ficava impressionada com como as mesas sempre acabavam organizadas de maneira bastante uniforme e ordeira em torno de uma figura masculina, que volta e meia é engraçada e carismática, mas sempre tem alguma coisa a dizer. A figura que causa silêncio quando abre a boca, a figura de quem se espera que, por sob as piadinhas, haja um pedaço de filosofia com o qual sonharemos brevemente antes de dormir e acordar amnésicos no dia seguinte. E sempre que isso acontece, sempre que surge o clima “sermão da montanha” na mesa, eu aproveito para dar uma mijada porque, sinceramente, não tenho paciência. Sério, não tenho.
E nessa longa estrada de botequim, a gente se acostuma com a condição miserável que é o banheiro feminino. A gente dá graças a Deus e acha super legal se tem papel, quando o papel é a condição mínima para a nossa higiene, especialmente em uma situação etílica, que implica muito xixi. No início da minha vida alcoólica havia uma sensação gostosa de ser a estrangeira num lugar marginal que aparentemente não era feito para mim; havia algo de questionador, de transgressor, e o banheiro fétido compunha todo um panorama de marginalidade no qual eu achava estar muito inserida. Porém o tempo foi passando, e fui começando a achar profundamente desrespeitoso, comigo e com as outras meninas, que eu tivesse que urinar e me higienizar em semelhantes condições. E num belo dia de TPM, em que qualquer insatisfação parece fardo por demais pesado e precisa ser compartilhado com imediatez, eu fui num bar tão ruim, mas tão ruim, que uma menina em desespero tinha defecado na lixeira. O banheiro fedia demais e, ainda por cima, para coroar a situação de descaso, não havia papel.
Aquilo era mais do que eu podia suportar; fui ao balcão e pedi para falar diretamente com o dono do bar, pessoa que eu conhecia havia 3 ou 4 anos. Reclamei. Ele não moveu um músculo, do corpo ou da face, em solidariedade à minha causa. Concluiu friamente: bar não é lugar de mulher.
Machismo: filosofia de botequim...
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
BBB12, natureza humana e cultura do estupro
Durante muitos anos, a natureza humana foi uma preocupação central da filosofia ocidental. Parecia uma obviedade ululante de que existia; não se sabia se era boa ou ruim, se dizia respeito a nossas necessidades animais por sobrevivência ou se era fruto de uma força imaterial, maior e desconhecida – alma, espírito, vontade divina. Era consenso, também, que o Homem era, dentro da espécie, aquele que melhor a representava: as mulheres e crianças eram por demais aparentadas com o mundo animal, e não serviam de parâmetro para tais julgamentos. E, acreditasse alguém na maldade intrínseca, acreditasse na intrínseca bondade, parecia consensual que a vida em sociedade, com suas regras e moral, jamais seria o ambiente em que veríamos aflorar no Homem a sua natureza mais pura, mais selvagem.
Sejamos francos, o debate nunca foi de todo abandonado, mas desde o século XIX a idéia de uma natureza, boa ou ruim, ficou um tanto quanto descreditada. Foram grandes contribuintes para isso as idéias de Freud, a hipótese de um inconsciente que se constrói na interação com o ambiente, e não um núcleo puro e essencial que viria conosco do nascimento; as idéias de Marx, que enfatizava o ser humano como uma construção histórica... mas nada foi mais contundente do que a antropologia, aliada à arqueologia. Da combinação das duas vimos que nossa espécie nem sempre foi como está: já comemos outras coisas; já moramos em casas diferentes, e inclusive houve épocas em que sequer moramos em casas; já nos estratificamos em diferentes hierarquias e já vivemos livres delas. E entre as culturas existentes tal é a variedade que eu, se advogasse da tese da “natureza humana”, teria tremendo constrangimento em me expressar sobre ela.
O programa Big Brother, franquia internacional, é o laboratório antropológico da mídia. Partindo da tese de que a natureza humana existe e aflora longe das patrulhas morais, o “show” confina pouco mais que uma dezena de participantes em uma casa suntuosa, longe de jornais, revistas e TV, cercados por câmeras, e espera que a natureza emerja dos prisioneiros. O programa promete verdade, realidade e “animalidade". Para mim, as pessoas ali apenas simbolizam, por meio de estereótipos, aquilo que aprenderam, durante suas vidas, em nossa cultura.
E a nossa, é uma cultura do estupro.
Falando assim, muita gente acha que “cultura do estupro” quer dizer que, a cada esquina, há um homem com sérias perturbações de ordem psiquiátrica, pronto para atacar. E aqui já fica evidente o trabalho que a mídia faz: ao construir esse estereótipo de estuprador, cria a ilusão de que o estupro é um problema individual de cada criminoso, comportamento descolado da realidade sócio-cultural de onde vive o sujeito. Porém, a realidade é que vivemos numa cultura que nos diz que a mulher está a serviço do homem, instrumentalmente: devemos estar belas para que nos vejam, cheirosas para que nos cheirem, e gostosas, ora pois!, para que nos comam. Simples assim. E o Big Brother entra nessa lógica provendo um harém de mulheres desejáveis que podem ser livremente olhadas; que estão ali para isso, e nada mais; que são incentivadas a se perceberem e se comportarem como objetos de desejo e não como seres plenos em suas capacidades de pensar, desejar, amar e escolher com quem fazer sexo.
Todo mundo já sabe o que aconteceu com Monique, e não vou me repetir aqui. O mais impressionante, aquilo que estou achando realmente digno de nota, é a repercussão, especialmente online, que o caso tem tido, e o fato de que há pessoas que ainda acham plausível culpar a vítima. Conheço inúmeros homens que bebem até cair, regularmente; ao final da noite, são socorridos por seus amigos ou por suas companheiras; recebem cuidado, carinho, têm suas roupas trocadas e seus corpos lavados sem que ninguém sequer imagine violar seu corpo e sua integridade. Mas uma mulher desacordada, ao que parece, perde o direito sobre seu próprio corpo e se torna subitamente objeto (objeto!) de desfrute de quem quiser “passar a régua”.
Daí entra a natureza humana em jogo: homem é assim mesmo! Se prestarmos real atenção, sempre perceberemos que discursos sobre a mitológica natureza do homem são o porto seguro do senso comum quando o homem faz merda, isto é, para quando um indivíduo do sexo masculino transgride a moral vigente de uma sociedade, geralmente em crimes que ofendem os oprimidos: mulheres, negros, homossexuais, índios, e por aí vai. E as mulheres, que foram educadas a servir, muitas vezes nem se dão conta de que estão sendo abusadas por esse discurso. Quando um homem na internet diz que a mulher mereceu ser estuprada porque “deu mole” o que ele esta dizendo é que você está propensa ao mesmo risco. O estupro é uma espécie de sórdida lição: não seja uma puta, não beba. De preferência, não se divirta, e aliás, se possível, não saia de casa e fique na cozinha (ou na cama) que é o seu lugar.
Digo e repito: o programa Big Brother é um programa que cultiva a mentalidade do estupro: que mulheres servem para ser olhadas, tocadas, violadas, usufruídas e que servem, também, para prestar serviços que otimizem a vida e o conforto do homem. E os homens que assistem, não me venham com aquela baboseira de que estão “vendo o jogo”: o Big Brother Brasil é o horário nacional e unificado da masturbação, quando milhares de televisores são ligados para ver bundas e peitos destituídos de qualquer humanidade. Quanto ao Daniel, é um estuprador, criminoso, e enquanto tal deve ser preso; contudo, o problema não é só o Daniel. O problema não é só o bbb12, nem o BB Brasil, mas um formato de programa que endossa a cultura do estupro. Que, aliás, faz com que pessoas pensem que um estupro não é um ato de violência, mas um triunfo da razão, na qual um “homem espert”o tira proveito de “uma garota burra” que “mereceu”. Sério, pensem nisso.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Onde elas estão?
Desde o começo desse ano, tenho tido com os marxistas uma relação... dialética. Se, por um lado, aprendo, troco muito com eles, por outro eles me deixam uma porção de pulgas atrás da orelha que acho válido de comentar (vou ser sucintx, juro).
Todo marxista sabe que as ciências de que dispomos são burguesas: pensadas por e para uma classe a fim de atender seus interesses específicos. Essa classe, por sua vez, não é um mero conjunto de corpos genéricos que internamente se organizam de maneira horizontal, justa e autogerida, mas que a burguesia tem uma cultura, uma raça, um gênero, uma orientação sexual, e por aí vai. No entanto, tem hora que muito marxista faz ouvido de mercador, e lança mão exatamente das ciências burguesas para validar seus argumentos – e, ao que parece, a História é a menina dos olhos.
Desde março ou abril que não me sai da cabeça aquela oração “a história do Homem é a história da luta de classes”. Do homem, pode até ser: dx negrx, da mulher, ou seja, a história “dos outros” (como o cara pálida tem nos chamado) é uma outra história... Gente, POR FAVOR, chega de confundir HISTÓRIA com PASSADO. Enquanto ciência, a história NARRA o passado, e o faz elencando como protagonistas aqueles que politicamente são eleitos enquanto tal. Igualzinho às fábulas de Esopo, minha gente, a História é só uma narrativa pensada como meio de justificar uma moral.
Da maneira como a história tem sido contada, a mulher só entra em cena quando se envolve em algum evento da luta de classes. Tirando isso, reina um silêncio sepulcral: parece que elas não fizeram nada de interessante nesses anos todos. Que não pensaram, que mal viveram, e que não contribuíram, em absoluto, para que o mundo seja o que é hoje. Parece que fomos, menos que coadjuvantes, o cenário do Épico do Pau.
A lição número um do feminismo é saber que histórias são contadas por pessoas com interesses específicos: esse ponto, aliás, acho que está mais do que batido. Porém, a pergunta que vem a seguir é: o que essas mulheres estavam fazendo, e onde, e como?
O sistema falocrático não diz respeito só à economia, e a prova disso é o silêncio sobre a produção cultural feminina. Artistas talentosas, pensadoras argutas, escritoras férteis de obras profusas... obras que certamente eram “vendáveis” foram engavetadas pelos engravatados críticos e editores: o critério da “qualidade” nunca foi o que regeu a entrada da mulher no mundo das artes ou do pensamento, como querem de nós que acreditemos.
Nesses dias de TPM tenho feito muitos quadrinhos para extravasar. Porque, afinal de contas, o que se passa no mundo mágico do meu útero nada tem a ver com meus amigos e companheiros. Enquanto ninguém provar que folha de papel tem sentimento, e que fica magoada por eu descontar nela todas as minhas angústias, muitos caderninhos inocentes serão torturados. Lá pelo meio dos meus rabiscos, surgiu a pergunta: onde estão AS cartunistas? Decerto existem. Mas ONDE ELAS ESTÃO?
Como diria o ditado, “que las hay, las hay”, e fui com tudo – via tumblr, Google, Wikipédia – atrás delas. E encontrei! A maior parte restrita à produção alternativa, zineira – como moizinha. Algumas com um acúmulo de anos, obras publicadas, personagens... enfim. Inspiração para quem precisa!
Suzy-X (http://seesuzysketch. blogspot.com/) é bem atual, retrata problemas do cotidiano de feminista. Na mesma temática, tem a zineira http://www.juliedoucet.net/. Alison Bechdel escreve quadrinhos protagonizados por dykes, numa tirinha que foi publicada durante anos em diversos jornais, e neste site (http://dykestowatchoutfor. com/) muito simpático encontra-se alguma de sua produção. Também foi publicada em português, http://www.universohq.com/ quadrinhos/2007/n10102007_10. cfm.
Elas estão por aí...
domingo, 11 de dezembro de 2011
Para imprimir, para distribuir, para refletir...
O texto não está, assim, um primor. Na verdade, se comparado a outros aqui do blog, está mesmo ruim. Mas se eu aprendi uma coisa nesta vida de vegan e feminist, é que a atenção de gente intolerante é rara, e quando a há, é curta. Muitas vezes, quando a pessoa se depara com um texto grande demais e que, logo de início, tende a destruir tudo em que acredita, rejeita-o quase imediatamente. Esse zine (ou flyer, ou whatever...) é uma tentativa de contornar o problema: entregar um zine na mão de alguém, com um texto sucinto, figuras "bonitas" (mas essa é uma questão para depois), às vezes é mais eficiente do que a estratégias tradicionais do bate-boca ou testamento.
Estamos tentando de tudo; estamos fazendo todas as experiências possíveis e necessárias. Não somos dones da verdade, mas onde chegarmos com ela, faremos de tudo para denunciar a falácia histórica de que a única história possível é essa que se vem contando, impondo e destruindo... E contamos com a SUA ajuda ^^
P.S.: Se alguém quiser as imagens em resolução e tamanho próprios para imprimir, basta mandar e-mail para coletivocaju@gmail.com ou (espero que funcione, não estou muito íntimx com isso aqui)
Boa semana!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Um dia normal: entre a mitologia e o gardenal
Hoje eu tive um excelente dia! Sim, pros padrões da normalidade corriqueira eu tive um excelente dia. Acordei de bom humor, depois de uma ótima noite de sono, e fui logo saudada por aquele ser peludo e de rabinho abanando que dorme no meu quarto. A manhã estava agradável, o ônibus não veio lotado, e eu fui sentada confortavelmente até meu destino, lendo meu livrinho que hoje me pareceu mais interessante do que nos outros dias. O dia de trabalho transcorreu com facilidade, fiz mais vendas do que num dia comum, o que significa mais comissão. O pagamento também foi feito hoje, apesar do 5º dia útil ser somente amanha. Mas eu dei a sorte de ter uma patroa legal. É, ela é legal, compreensiva, se preocupa com seus funcionários, sabe... Voltei pra casa pra encontrar novamente aquele serzinho que sempre me espera na porta já com o rabinho em frenesi, pronto pra colocar seu brinquedo preferido aos meus pés e pedir um pouco de atenção.
Sim, hoje foi um ótimo dia. E no entanto a revolta ainda é latente dentro de mim. Revolta no sentido revolucionário mesmo, não que eu esteja de mal humor agora. É que revolta olhar pra esse dia supostamente bom e satisfatório e concluir que ele, na verdade, é uma bosta. Como posso me sentir feliz por ser explorada? Como alguém pode se sentir feliz sabendo que sua mais valia serve pra comprar carros com banco de couro prx patrxo legal e preocupadx? Como posso ficar feliz acordando na selva de pedra e vendo que estre ser tão carinhoso, que lambe minha mão pela manhã, dorme na gaveta de concreto que o aprisiona? Como alguém pode se sentir feliz domesticado e escravizado?
As chateações de verdade do dia perfeito (que obviamente não podia ser 100%, porque isso é vida real, né minha gente) vieram na hora do almoço. Primeiro o momento marmita... Mas esse momento já estou até excluindo da chateação diária, porque a gente se habitua com as desgraças. É uma triste acomodação. Durante o almoço minha marmita é sempre um evento, porque apesar de eu já estar dividindo aquele espaço de trabalho há alguns meses com as mesmas pessoas, é incrível a capacidade que elas tem de continuar chocadas com o fato de eu não ingerir cadáveres. Elas deveria é ficar chocadas com o fato delas ainda ingerirem cadáveres... ora...
E o segundo momento veio quando uma colega anuncia que talvez tenha que pedir as contas porque o marido anda chateado porque ela trabalha aos sábados, “dona de casa não trabalha aos sábados”, disse o pirocudo. Coitada, depois de parir 6 filhos pro filho da puta, finalmente encontrou um emprego que ela gosta e o babaca vem com essa. Nessas horas o machismo puxa nosso tapete, queria dizer pra ela gritar, se revoltar, largar o cara... queria dizer muitas coisas, disse algumas, outras seriam inúteis porque ela não entenderia mesmo... No fim fiquei pensando em todas nós, mulheres, e nas vacas leiteiras. Somos iguais! Eles pensam e agem como se nossos úteros estivessem a serviço deles. Perguntei por que ela teve 6 filhos, e ela me respondeu que o marido queria uma menina, então ela teve 5 meninos e parou quando veio a menina.
Se eu fosse dessas que leva mitologia a serio eu levantaria os braços e perguntaria “Por que Deus? Por quê?”. Mas como eu sou dessas que acha mitologia interessante mas não a leva a serio eu apenas ouço a resposta que não vem do além “Porque o kapital está a serviço do grande falo, minha filha... você ainda não sabia?”... É... eu sabia sim voz...
Eu comecei a desenhar esse texto na minha mente, dentro do ônibus voltando pra casa. E naquele momento fiquei pensando em frases tentando criar um titulo... E foi quase inevitável lembrar daquele jargão idiota que diz que “a ignorância é uma benção”. A ignorância é a chave mestra que mantem as engrenagens do mundo de opressão funcionando. O grande problema nisso tudo não está no fato de SER ignorante, mas de QUERER PERMANECER ignorante. Ignorar o problema, fingir que ele não existe, não o faz desaparecer, mas em muitos casos o afasta da nossa visão.
O que estou tentando dizer com esse texto é que considero realmente impossível ser feliz quando se decide seguir pelos caminhos de luta. Não dá pra sentir felicidade tendo consciência da sua opressão diária, da opressão das pessoas e dos seres a sua volta, da natureza... Estamos todxs enjauladxs, acorrentadxs, amordaçadxs, sendo diariamente estrupradxs, tendo nossxs úteros usados pra finalidades sujas. Nossas crianças já nascem marcadas a ferro, são arrancadas de nós e já estão condenadas... Somos todxs condenadxs.
É preciso deslocar o eixo de lugar, quebrar esse velho relógio. A felicidade jaz na luta voraz pela mudança. Olhar-se no espelho e constatar a beleza que é trazer um pouco de sangue nos olhos... Desejo e esperança... esse é o eixo...
E a voz mitológica que não vem do além insiste mais um pouco: “Não se preocupe não minha filha... O que Eles querem é isso mesmo, querem que todos vocês, ovelinhas, acreditem que a felicidade lhes pertencem. Porque só assim é possível etiquetá-la. Você não sabia? Em última análise toma aquele remedinho tarja preta... custa caro, viu... Mas promete felicidade!”
Foi mal aí dona voz... Mas eu prefiro manter a mente limpa e os olhos abertos. Ambos sedentos... sempre!
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Desaparecidxs
Vamos tentar ser humanxs hoje. For a change.
Meu companheiro foi embora hoje. É, ele é um daqueles homens com coisas entre as pernas e que se pensam homens. Estou explicando - e ele está entendendo - que as coisas não são tão preto-no-branco, que ele não é tão homem quanto pensa, e que não ser homem é ótimo! E que se ele se acha heterossexual, bem, temos um problema: se eu não sou mulher, ele não é tão hetero assim...
Deixou já um incômodo, ele ter ido embora. Não é bem saudade-carrapato-melacueca, mas uma coisa muito simples, muito direta: é bom estar lado a lado com um militante tantas horas seguidas!!! Acordar do lado de uma pessoa para quem você não tem que explicar tudo-de-novo, do zero, todos os dias... que não acha um absurdo que eu fale, com todas as letrinhas, que o mundo humano gira em torno de grandes caralhos dourados e voadores, e nós, não homens, somos os alvos desses mísseis de porra. (Adorei essa história de mísseis de porra, gente, que máximo!). Não só isso, mas uma pessoa que aprende. Aprende todos os dias um pouco mais, cheio de dúvidas, dificuldades, mas cheio de vontade de passar por cima disso tudo. Aham, demora pra entender. Nunca estive nesse lugar de fala, mas quando se é branco, com pênis, heterossexual, deve ser difícil entender um bocado de coisas. Mas até agora tudo vale a pena, tudo.
Não posso falar pelas duas pessoas desse blog, e como não tem essa de quem-é-quem... enfim, tenho entrado de cabeça no feminismo. Escrito muito coisas que não sei bem onde enfiar, o que fazer com elas... resolvi sair do armário e entrar no meu lugar de fala. Isso aí. Fiz uma opção política, acadêmica, e um projeto de vida que eu deveria ter feito muitos anos atrás: ver o mundo através da minha opressão. Largar dessa porra de tentar ver pelos olhos dos outros, da teoria dos outros, da opressão dos outros. Cansei. Não vou dizer aqui que meu lugar de fala é a coisa mais constante do mundo. Posso largar tudo e virar freira. Em 10 minutos. Ordem das carmelitas descalças. Não garanto muita coisa do meu futuro, mas garanto que, a partir da minha escolha, ficou tudo bastante claro. Agora uso a teoria que convém para os fins políticos que escolhi: e jogo fora o que não presta, o que não me interessa. Sou feminista, até onde sei, e isso me deixa muito feliz.
Só que me deixa muito solitária. E ser feminista é lidar com coisas muito sérias. O mundo é hostil e não foi feito para nós não-homens. Esse Homem, por sua vez, é uma fatia muito fina do bolo da humanidade: os brancos, heterossexuais, de direita, enfim... Vejam bem, era para ser o contrário! Se o homem, essa coisa aí que eu acho bom de ser combatida, é a menor fatia, eu deveria estar feliz! O resto do bolo inteirinho me pertence... né? E nós somos a maioria, então é só a gente se juntar, colocar ordem na casa e viver feliz para sempre, num paraíso vegan-queer... né?
Não é... é tanta coisa pra explicar, pra desconstruir... Ouvir diariamente que "vocês mulheres/negrxs/minorias-em-geral já têm tudo, o que MAIS vocês querem?"... Ou, pior ainda, falar com as mulheres (elas não têm culpa, eu sei) que dizem "mas eu GOSTO de me sentir bonita, ninguém está me obrigando"... Mostrar diariamente para as pessoas, como uma mãe a uma criança, que a arquitetura, que a tecnologia, que toda a produção humana tem um discurso simples: "Pertence ao caralho". O caralho dourado, voador, grandão, viril, branco, europeu/estadunidense e assim por diante.
Pura coincidência que 10 mulheres morram por dia assassinadas por seus maridos, que 2 sejam agredidas por minuto, que o Brasil seja responsável por quase 50% das mortes de transsexuais no mundo... E é como eu sempre digo, o mais difícil é explicar as coisas fáceis. Essas é que dão trabalho. Essas é que dão uma puta canseira, e eu estou cansada, triste, desgastada, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.
Tenho uns planos delinquentes, delirantes, de que as coisas que ando escrevendo aqui no conforto ronronante do meu PC ajudem pessoas a não sofrerem tanto por causa dessa merda de falocentrismo. Elas virão à tona, tudo em tempo; mas por enquanto, estou aproveitando as férias que me dei do querido-blog. Quem milita conhece o desgaste, espero estar perdoadx no coração dos escassos leitores.
Não sei quando volto, mas espero voltar. Enquanto isso, boa noite a todxs!
Meu companheiro foi embora hoje. É, ele é um daqueles homens com coisas entre as pernas e que se pensam homens. Estou explicando - e ele está entendendo - que as coisas não são tão preto-no-branco, que ele não é tão homem quanto pensa, e que não ser homem é ótimo! E que se ele se acha heterossexual, bem, temos um problema: se eu não sou mulher, ele não é tão hetero assim...
Deixou já um incômodo, ele ter ido embora. Não é bem saudade-carrapato-melacueca, mas uma coisa muito simples, muito direta: é bom estar lado a lado com um militante tantas horas seguidas!!! Acordar do lado de uma pessoa para quem você não tem que explicar tudo-de-novo, do zero, todos os dias... que não acha um absurdo que eu fale, com todas as letrinhas, que o mundo humano gira em torno de grandes caralhos dourados e voadores, e nós, não homens, somos os alvos desses mísseis de porra. (Adorei essa história de mísseis de porra, gente, que máximo!). Não só isso, mas uma pessoa que aprende. Aprende todos os dias um pouco mais, cheio de dúvidas, dificuldades, mas cheio de vontade de passar por cima disso tudo. Aham, demora pra entender. Nunca estive nesse lugar de fala, mas quando se é branco, com pênis, heterossexual, deve ser difícil entender um bocado de coisas. Mas até agora tudo vale a pena, tudo.
Não posso falar pelas duas pessoas desse blog, e como não tem essa de quem-é-quem... enfim, tenho entrado de cabeça no feminismo. Escrito muito coisas que não sei bem onde enfiar, o que fazer com elas... resolvi sair do armário e entrar no meu lugar de fala. Isso aí. Fiz uma opção política, acadêmica, e um projeto de vida que eu deveria ter feito muitos anos atrás: ver o mundo através da minha opressão. Largar dessa porra de tentar ver pelos olhos dos outros, da teoria dos outros, da opressão dos outros. Cansei. Não vou dizer aqui que meu lugar de fala é a coisa mais constante do mundo. Posso largar tudo e virar freira. Em 10 minutos. Ordem das carmelitas descalças. Não garanto muita coisa do meu futuro, mas garanto que, a partir da minha escolha, ficou tudo bastante claro. Agora uso a teoria que convém para os fins políticos que escolhi: e jogo fora o que não presta, o que não me interessa. Sou feminista, até onde sei, e isso me deixa muito feliz.
Só que me deixa muito solitária. E ser feminista é lidar com coisas muito sérias. O mundo é hostil e não foi feito para nós não-homens. Esse Homem, por sua vez, é uma fatia muito fina do bolo da humanidade: os brancos, heterossexuais, de direita, enfim... Vejam bem, era para ser o contrário! Se o homem, essa coisa aí que eu acho bom de ser combatida, é a menor fatia, eu deveria estar feliz! O resto do bolo inteirinho me pertence... né? E nós somos a maioria, então é só a gente se juntar, colocar ordem na casa e viver feliz para sempre, num paraíso vegan-queer... né?
Não é... é tanta coisa pra explicar, pra desconstruir... Ouvir diariamente que "vocês mulheres/negrxs/minorias-em-geral já têm tudo, o que MAIS vocês querem?"... Ou, pior ainda, falar com as mulheres (elas não têm culpa, eu sei) que dizem "mas eu GOSTO de me sentir bonita, ninguém está me obrigando"... Mostrar diariamente para as pessoas, como uma mãe a uma criança, que a arquitetura, que a tecnologia, que toda a produção humana tem um discurso simples: "Pertence ao caralho". O caralho dourado, voador, grandão, viril, branco, europeu/estadunidense e assim por diante.
Pura coincidência que 10 mulheres morram por dia assassinadas por seus maridos, que 2 sejam agredidas por minuto, que o Brasil seja responsável por quase 50% das mortes de transsexuais no mundo... E é como eu sempre digo, o mais difícil é explicar as coisas fáceis. Essas é que dão trabalho. Essas é que dão uma puta canseira, e eu estou cansada, triste, desgastada, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.
Tenho uns planos delinquentes, delirantes, de que as coisas que ando escrevendo aqui no conforto ronronante do meu PC ajudem pessoas a não sofrerem tanto por causa dessa merda de falocentrismo. Elas virão à tona, tudo em tempo; mas por enquanto, estou aproveitando as férias que me dei do querido-blog. Quem milita conhece o desgaste, espero estar perdoadx no coração dos escassos leitores.
Não sei quando volto, mas espero voltar. Enquanto isso, boa noite a todxs!
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Cansadxs e sem tempo, mas ainda respirando...
Umas coisas pra pensar:
FEMINAZI: porque exigir que seu gênero seja tratado com dignidade é a mesma coisa que invadir a Polônia...
Hum, interessante! Deixe-me registrar isso na minha listinha de "coisas para as quais estou pouco me fodendo".
Você tem o direito de ter sua opinião e eu tenho o direito de dizer quão idiota ela é!

Comece uma revolução, pare de odiar o seu corpo.
FEMINAZI: porque exigir que seu gênero seja tratado com dignidade é a mesma coisa que invadir a Polônia...
Hum, interessante! Deixe-me registrar isso na minha listinha de "coisas para as quais estou pouco me fodendo".

Comece uma revolução, pare de odiar o seu corpo.
domingo, 4 de setembro de 2011
Utópico
COMO eu queria um mundo sem machismo, sem especismo, em que eu não tivesse que militar.
em que eu pudesse só escutar as minhas músicas preferidas e andar a esmo, sem nenhum compromisso de chegar a algum lugar, dizer onde estive, sem nenhum risco de me estuprarem, sem risco de me roubarem. um mundo em que cada casa pudesse servir de abrigo, em que cada pessoa fosse anfitriã, onde não fosse necessário documento, em que as pessoas fossem ingênuas e virgens e não conseguissem sequer
imaginar o que significa "medo".
um mundo em que eu me vestisse só pra espantar o mosquito e o frio.
em que eu tivesse que correr só pra me divertir.
em que eu tivesse que escrever só pra me lembrar do que é bom.
em que eu não tivesse que ler o rótulo pra saber se o produto é feito à custa da exploração de um outro ser vivo.
aliás, um mundo sem embalagens. onde eu pudesse ver através dos rostos.
um mundo com um balanço pendurado em uma arvore, pra balançar a tarde toda tentando ver o outro lado do horizonte.
um mundo cheio de pássaros debandando para o sul.
Um mundo tão perfeito quanto uma música mal executada ao piano. Onde os erros, acidentais, não ferem os ouvidos. Antes, o erro fortuito de um dedo brincalhão adverte-nos para o fato de que a música nunca se repete: cada execução é única, e é única em suas imperfeições, em seus erros.
Um mundo onde eu não tenha que lutar, em que eu viva apenas e apenas para mim mesma. E assim, sem dever nada ao mundo, que eu finalmente me conheça. Onde meu desejo não seja moldado nas formas da opressão que eu vivi. Que meu desejo não seja podado pelas lâminas da violência simbólica.
Um mundo em que, todos iguais, fossem todos igualmente amigos. Iguais, igualmente amantes. Iguais, igualmente irmãos. Iguais, pouco importaria se hoje é a última vez que nos vemos na vida: seu rosto refletir-se-ia em todos os demais, e meus braços, iguais a todos os outros, nunca deixariam saudades. E cada vez que você a alguém abraçasse, humano ou não humano, eu sentiria na brisa a carícia da sua lembrança. Simples assim. Na brisa do balanço que sobe e desce, enquanto procuro perscrutar o horizonte.
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