domingo, 8 de abril de 2012

CRISE, MINHA CRISE... MINHA TOTALMENTE CRISE...


Foram muitos dias de muitas emoções reprimidas vindo a tona de forma violenta. Foram dias de dor, alegria, choro, confusão e força. Saio daqui com uma percepção um pouco mais completa de mim mesma. Saio daqui com uma impressão um pouco mais precisa dos meus pontos mais escuros, tanto os objetivos quanto subjetivos...

Já fazem alguns anos (não muitos) que eu entrei em crise com a minha sexualidade. E essa crise, de alguma forma estranhamente familiar, parece só aumentar. Eu vinha num processo de achar que essa crise sem fim seria um problema exclusivamente meu, como se eu fosse a freak, a aberração, incapaz de lidar e entender meu corpo conectado a minha mente. Afinal, nos ensinam que crises tem de ser superadas, momentos de fraqueza e superação. Essa crise continuada, me parece agora, um estado pleno de construtividade da desconstrução.

Que eu não desejava “amar” da mesma forma que já “amei” (se é que aquilo que sentia era, de fato, amor) eu já sabia. Que eu desejava ampliar minha visão e entendimento sobre o que é, e como se faz sexo, eu também já sabia. Que eu desejava tocar e ser tocada, sentir pele, cheiros e fluidos de uma forma sexuadamente não-sexualizada eu também já sabia.

O que eu talvez não soubesse, talvez apenas desconfiasse de forma tímida e insegura, era que tudo isso brota de dentro de uma forma violenta, expontanea e doce ao mesmo tempo. Todas as minhas crises entraram em conjunção, num quase perfeito uníssono. E de repente, todo o barulho se tornou harmonioso... Não eram mais apenas gritos, eram gritos descontroladamente controlados, eram notas agressivamente carinhosas, era uma grande orquestra que tocava o hard core dentro de mim...

A crise não veio pra ser superada. A crise não tem finalidade externa, ela não serve pra ninguém mais além de mim mesma, ela não segue nenhum juízo moral alheio nem busca lógicas de honra e glória. A crise não me torna fraca, muito menos confusa. Ao contrário!

A crise me tornou uma mulher mais lúcida! Obrigada por estar ao meu lado, obrigada por dormir na minha cama, obrigada por me ensaboar quando tomo banho, obrigada por me cobrir quando saio na rua, obrigada por me desnudar mesmo quando ainda estou vestida, obrigada por me mostrar que o gozo escorre sem nunca ter feito sujeira nenhuma...

terça-feira, 27 de março de 2012

A quem interessar possa, a lista dos meus defeitos

Por favor não me sigam. Peçam-me conselhos, façam-me perguntas, tenham em mim um caminho, mas por favor, não tenham em mim qualquer destino.
Eu tenho cá, comigo, um mapa muito bom que – assim acredito – está me levando onde eu quero ir. E seria bom se você viesse comigo, pois caminho é coisa que se faz enquanto anda, do contrário, uma estrada é só uma linha no chão. O movimento é o que dá o tom da rota; o mundo gira, mas por si só, não constitui viagem. Então, venha comigo. Mas não me siga.
Meu feminismo não é uma caça às bruxas. Se transformarmos isso num clube de delações, estaremos todos cegos. Surpresa? Cai o pano: eu sou machista! E como não? Se fui criada e militarizada dentro de meu gênero tanto quanto você. E passo de perto tudo o que você sente.

Eu tenho ciúmes.

E tenho medo de morrer.

Não acredito em Deus, mas tenho medo de demônio.

De filme de terror.

Eu choro, às vezes, de noite.

E acendo uma vela: vai que... né?

                Já pedi por favor, não convém pedir desculpas. Não quero sentença, não quero perdão: não quero nenhuma saída cristã para os meus problemas. Talvez um pouco de dialética: se é pelos olhos da opressão que procuro esquadrinhar a saída, talvez não acabe levando algo dela, comigo? É possível. E a liberdade, onde fica? Isso eu não sei: virando uma esquina, depois de uma estrela, talvez...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dever de casa

Não existe arqueologia da mente. O melhor que pdoemos é olhar para o passado e ser francos sobre o fato de que toda memória é uma narrativa. Toda memória é um pouco inventada. Há grande delete, para muita gente que conheço, em se pensar como algo que se fez ao sabor da vida: a psiquê como algo que flana nas marés da cultura e nas narrativas que tanto nos atravessam quanto nos formatam, e essas narrativas como a conversa despretensiosa que se conta enquanto se descascam as batatas do purê. Aquela conversa de cozinha que vai da meteorologia à existência do divino escalando apenas em um "por favor, pega aquela panela para mim".

Para mim não há muito deleite nisso. Já vieram com a camisa de força discursiva, dizendo que eu tenho um transtorno qualquer de desafio às ordens. Eu tenho mais pé atrás com quem obedece do que com quem desafia, mas devaneios à parte, coisa que mudou minha vida foi Manuel Castells dizer para mim que as identidades são invenções. Desde as identidades nacionais, étnicas e culturais, quanto as individuais. Tente entender que ouvir isso aos 18 anos muda tudo: então eu posso ser o que eu quiser? Então eu posso definitivamente me sentar comigo mesma, no fundo de minha mente, sendo autora - ou ao menos narradora - dos processos que me configuram? Não estou, então, nas benfazejas mãos de uma cultura mãe, mas estou prensada nos dentes de uma cultura máquina? E com meu próprio ser, minha mera existência, já engastalha essas engrenagens todas? Quanto poder e quanta liberdade nessa descoberta.

Também quer dizer que, narradorxs que somos, ativamente, dos processos que nos constituem, não há descanso. Vem-me à cabeça nossa Bouvoir (não sei escrever o nome dela) dizendo que "não se nasce mulher, torna-se", e o fato de que o tornar-se é sempre inacabado. É um devir que, como diria Lacan, não cessa de não se inscrever. É mais constituído da falta do que do próprio constituinte. E quando eu decidi ser feminista, embora isso não tenha uma data que eu possa comemorar (eu faria festas incríveis), percebi que livros feministas não caíam do céu. E que era preciso me engajar no mais longo dever de casa da minha vida: tornar-me feminista, todos os dias, em todos os momentos, sob a pena de ser moída, digerida e eliminada pela máquina que está aí - ou aqui mesmo.

Ninguém disse que ia ser fácil. E desde que saí do armário com as minhas ideologias a me pavonear - porque meu feminismo é bapho, é diva! - todos os dias alguém me pergunta o que pode fazer para deixar de ser machista. Como já escrevi, um ano atrás, sobre o nosso cristianismo, escrevo com igual tranquilidade sobre o machismo: você vai morrer com o seu. Não concordo com quem diz que machismo se restringe apenas à ideia de que "homem>mulher" porque, veja bem, se todas as práticas de nossa cultura são estruturadas por esse pensamento, não basta mudar a ideia e aceitar no seu coração a oração de Saint Simone: o mero ser-quem-você-é e tudo que isso implica já é falocêntrico. Não é algo que habita nossa cabeça, mas algo que nos constitui, e nesse caso, repetindo a metáfora, seu machismo é um fungo, e fungo não tem cabeça. Ele não tem uma parte vital que, eliminada, faça o resto desaparecer. Ser-se é reproduzir a opressão e ponto: e só vai mudar se você, além de mudar de ideia, trabalhar a fundo para mudar as suas práticas.

Viajando nos tumblrs da vida, encontrei um material que pode ser um bom dever de casa para quem está nessa vibe de abandonar suas práticas opressivas. Como disse minha amiga no post anterior, de fato nós, ativistas, no maior das vezes nos dirigimos ao oprimido, mas pouco ao opressor. No meu caso, é um misto de despreparo e comodismo. Estou aqui sentadinha na poltrona do que "eu já sei fazer, e faço bem". E esse materialzinho gringo veio a calhar - não me lembro do nome do coletivo que produziu, o que é uma pena, mas veio do http://bigfatfeminist.tumblr.com/, tumblr que eu sigo e me diverte, além de me ajudar.

Então, vocês que se acham meninos, esse dever de casa é para vocês. É para imprimir e levar no bolso, colar no espelho do banheiro, e tudo mais.

Algumas dicas interessantes para homens desafiarem os privilégios de seu gênero.

1)     Reaja quando ouvir piadinhas sexistas, como piadas de loura-burra ou piadinhas sobre estupro.
2)     Evite palavras que tornem o gênero feminino algo negativo, como vadia, piranha, galinha, mulherzinha.
3)     Reconheça quando você “dá uma viajada” enquanto mulheres estão falando. Reconheça quando você dá mais valor à opinião de um homem meramente por ele ser homem. Reconheça que você consulta outros homens em momento de dúvida, e que nesses momentos você poderia consultar uma mulher, e simplesmente não o faz.
4)     Reconheça os momentos em que você “dá uma viajada” enquanto ouve uma mulher por estar sexualizando seu corpo.
5)     Em atividades de grupo (seminários, plenárias), tome para si tarefas tais como xerocar, tomar anotações, fazer ligações telefônicas, providenciar creche; engaje-se em atividades tipicamente atribuídas à mulher. Encoraje mulheres a tomarem posições geralmente ocupadas por homens, tais como liderar encontros e atividades, atuar como figura pública.
6)     Procure usar palavras neutras em gênero (criança, pessoa, gente) ou incluir todos os gêneros em seu discurso – ou pelo menos dois, “trabalhadores e trabalhadoras”, por exemplo.
7)     Não diga a uma mulher como ela deve entender, expressar ou conceituar experiências de discriminação e sexismo.
8)     Se uma mulher se ofender com alguma de suas atitudes ou palavras, não argumente de imediato: ouça-a. Se ela não aceitar suas desculpas, reconheça que ela não te deve desculpas. Ela não te deve nada.
9)     Cheque regularmente com sua parceira se ela está confortável, realizada e empoderada em sua intimidade.
10)  Não faça piadinhas sexistas sobre como ela te arrasta para atividades de mulherzinha, te força a sair e fazer compras, ou está irritável por conta da menstruação e/ou TPM. Confronte quem faz essas piadas. Não faça o papel do “cavalheiro sacrificado que pacientemente agüenta as frivolidades de carregar as compras da companheira”.
11)  Seja educado, atencioso e dedicado para com mulheres, não porque sejam frágeis, débeis e incompletas, mas, pelo contrário, porque são seres humanos inteiros, plenos e capazes, que merecem tanto respeito quanto qualquer outro.
12)  Quando uma mulher estiver executando uma tarefa, evite abordá-la e “ensiná-la a fazer o seu trabalho”. Claro que, se ela solicitar sua ajuda, você pode (e deve) interferir. Do contrário, simplesmente observe e aprenda que mulheres são tão perfeitamente capazes quanto você.
13)  Desculpe-se assim que perceber que ofendeu alguém, quer a pessoa expresse isso, quer não. Diga com franqueza: “desculpas por ter dito isso, reconheço que eu estava errado e vou tentar não fazer isso daqui por diante”.
14)  Não use expressões tais como “aja como um homem”, “crie colhões”, “homem de verdade” ou “pare de ser uma mulherzinha”.
15)  Rejeite ou critique mídia e entretenimento que promovam sexismo. Não seja complacente com sexismo e discriminação só porque “ah, mas no final o filme foi bom”.
16)   Não se ofenda caso uma mulher recuse sua ajuda. Ainda que você tenha genuinamente tentado ser um cara legal, se oferecendo para carregar objetos pesados ou segurando uma porta para ela passar, aceite que talvez ela não esteja precisando da sua ajuda. Procure não achá-la metida, convencida, arrogante: pense nela como alguém independente e corajosa.
17)   Reconheça: pode até haver mulheres que odeiam homens (misândricas), o que é uma discriminação. Porém, são casos isolados, enquanto o sexismo contra mulheres é forjado por séculos de literatura, discurso científico, poder/conhecimento, filosofia, representações midiáticas, senso comum, etc.
18)  Reconheça que certas representações da mulher que você pode achar positivas ou justas podem não estar nos ajudando. Observe que a maior parte dessas representações positivas são altamente sexualizadas, para poder apelar ao público masculino. (Exemplo clássico: super-heroínas).
19)   Entenda que certas conquistas supostamente definitivas do nosso gênero (termos uma opinião, podermos falar de nossos pensamentos livremente, que podemos estar em qualquer espaço que desejarmos, de que podemos nos tornar aquilo que sonharmos) são conquistas duras e diárias para milhares de mulheres, e não concessões amplas ao nosso gênero.
20)  Não fique se explicando com frases tais como “eu não estava querendo dizer nada com isso”, “foi só uma piada, você está exagerando”, “eu não sou sexista, sou amigo de várias mulheres”. Se você ofendeu uma mulher, ouça com atenção e aprenda com essa experiência.
21)  Não policie o corpo de uma mulher, dizendo “você não deveria usar tal ou tal maquiagem”, “essa calça faz você parecer cagada”, “você está vestida como uma piranha,será tratada como uma”.

domingo, 18 de março de 2012

Reflexões buscando um pouco mais de estratégia...

Eu venho, nesses meus caminhos de militância, buscando criar estrategias que me pareçam além de adequadas, eficazes para chegar onde eu desejo: um mundo livre de opressões! Um mundo livre de TODOS os tipos, formas e qualidades de opressões.

Bom, todxs sabem que a fórmula básica para que uma opressão ocorra é aquela em que tem alguém oprimindo, e tirando vantagem dessa opressão (seja qual for o tipo de vantagem tirado), e alguém que é oprimido e, portanto prejudicado (seja qual for o tipo de prejuízo) ao sofrer essa opressão. Ok. Aí começam alguns problemas. Colocar todas as formas de opressão assim num mesmo saco é dizer que elas são iguais e equivalentes entre si, o que, ao meu ver, não é verdade. Eu consigo entender que elas tem todas a mesma estrutura tipológica e sejam “validadas” pelos mesmos princípios culturais, mas são bastante diferentes em suas subjetividades, e colocá-las num mesmo saco seria ignorar essas subjetividades.

Sempre me incomodou um pouco (e de uns tempos pra cá tem me incomodado muito) o fato dos movimentos sociais como um todo trabalharem basicamente voltados para xs oprimidxs, dialogando quase que exclusivamente com xs oprimidxs. Eles entoam discursos de união, de fortalecimento, de entendimento da própria opressão. Não que eu considere isso ruim ou inútil. De forma alguma, acho inclusive muito importante! Principalmente porque grandes partes das opressões que vemos e vivemos hoje em dia, são veladas. O capitalismo com sua retórica do marketing andou se apropriando e desvirtuando a porra toda. Instrumentos de tortura e opressão são vendidos em todas as esquinas e as pessoas compram e aplicam em si mesmas, achando que tudo aquilo é lindo e maravilhoso. Então é CLARO, ÓBVIO E NOTÓRIO que é importante o trabalho de CONSCIENTIZAÇÃO dxs oprimidxs frente a essa condição.

No entanto, algo que eu observo é que a reação imediata de qualquer pessoa que sofre uma opressão e a entende como tal é a de oprimir o primeiro ser “mais fraco” que surgir a sua frente. E aí reside o ponto exato onde eu queria chegar.

Em algum momento, é preciso exterminar a cultura de opressão como um todo. E isso vai muito além de simplesmente convencer x oprimidx a lutar contra sua opressão. Isso passa também em convencer x opressor de sua prática opressiva e do caráter vil, monstruoso (não encontro um adjetivo decente!!) de tal prática. E quando eu digo “convencer x opressor” eu também incluo xs oprimidxs que almejam ser opressorxs.

Se não formos, em momento nenhum, capazes de acabar com essa cultura de opressão como um todo, me parece impossível um mundo livre de fato de tais práticas. Afinal, terá sempre alguém almejando subir novamente ao trono.

Um exemplo bom pra ilustrar creio que seja referente ao especismo. É simplesmente impossível convencer os animais não-humanos de sua exploração. Ninguém vai invadir uma fazenda, chegar pra uma vaquinha que lá é explorada e dizer “ô Mimosa, tu tá sendo explorada... acho melhor você reagir... junta a galera e faz uma greve aí, parem de dar leite... sei lá”. Tanto que um jargão comum entre os que defendem direitos dos animais é “ser a voz daqueles que não tem voz”. O nosso papel é justamente fazer as pessoas entenderem o caráter opressor delas em relação aos não-humanos, e a libertação deles depende única e exclusivamente das pessoas se entenderem enquanto opressores!

E é esse conceito que eu desejo ardentemente expandir! A reflexão diária não pode parar no “aqui eu sou oprimidx, parem de me oprimir!”. Ela tem que ir além, ela tem que passar pelo questionamento “será que eu também não estou explorando e oprimindo?”.

E aí, todx vegetarianx que se preza já ouvir aquela frase “que coisa chata... se você não quer comer carne tudo bem, mas respeita quem quer”. E quem vai respeitar o animal que jaz morto no seu prato? Quando ouço isso tenho vontade de responder “se você não gosta de estuprar tudo bem, mas deixa quem gosta estuprar em paz!”.

É muito fácil se rebelar contra aquela opressão que a gente sente na pele, afinal ela tá ali te atacando diariamente, te machucando e te incomodando. O difícil é abrir mão dos privilégios e prazeres que ser opressor traz. Essa reflexão é difícil tanto sob esse aspecto, de abrir não de privilégios e prazeres quanto pelo aspecto de entender a subjetividade do outro.

Um dia deses, numa conversa com minha companheira de blog, ela falou algo relacionando a luta pelos direitos animais e feminismos que me chamou atenção. Ela disse justamente o que parece óbvio, os animais não respondem. Nós, humanos, pensamos a opressão deles, a entendemos enquanto tal e criamos estratégias para libertá-los. Mas tudo isso obviamente é criação nossa. Talvez eles achassem que deveria ser tomado um caminho diferente. Infelizmente isso nós nunca saberemos de fato. Já no caso das mulheres não, elas respondem. Então quando os homens dizem que entendem a opressão feminina e buscam criar mecanismos para supostamente libertá-las, pode alguma descabelada gritar lá no meio da multidão “ô cara, isso aí não me contempla não!”...

Pra se entender como opressor de verdade, é preciso se colocar no lugar do outro de forma muito mais intensa do que sonha a nossa vã filosofia. É preciso entrar na subjetividade do outro!

Cada indivíduo é único, teve vivências e experiências que são únicas e, portanto cada visão de mundo é única, é subjetiva e é parcial. Pra entender como eu me sinto oprimida pelo machismo, é preciso entrar na minha subjetividade, é preciso conhecer minhas história de vida, minhas vivências e experiências. A forma como eu me sinto, claro, encontra eco em muitas outras formas de sentir. Mas ela é única.

O que eu gostaria de encontrar mais pelo mundo é justamente esse tipo de exercício de reflexão. Quando alguém lhe aponta o dedo na cara e diz que essa sua prática é opressiva, ao invés de entrar na defensiva e assumir que tudo o que vem daquele ser que lhe aponta o dedo é lixo, pare um pouco, escute... escute com atenção! Saia da sua zona de conforto. Aprenda a sentir o sentimento que existe por traz daquele dedo e daquelas palavras.

Eu tô cansada de revoluções feitas com gritos e armas. Eu já fiquei rouca e já cansei de ser engolida por pessoas trocando tiros a esmo pra ocupar o trono que ficou vazio. Eu quero quebrar aquela cadeira dourada de uma vez por todas, e eu quero a ajuda de todxs pra fazer isso.

Oprimir é ruim simplesmente porque ninguém gosta de se sentir oprimido, não importa a opressão que seja, ela é sempre ruim. Sinceramente, não acho que seja assim tão difícil de entender isso...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Aborto para quem precisa. E quem precisa?


              Antes de tudo, eu fiz um aborto. Digo antes porque, para mim, antes de tomar para mim mesma o feminismo como uma tarefa, minha vida me parecia um grande preâmbulo. E não por acaso.
              Há um sexólogo (acho que ele é...) chamado John Gagnon. Pouco conhecido, o sujeito, ele acabou mudando a minha vida ao final de 2010. Não era uma grande novidade, o que ele dizia: as práticas sexuais são culturalmente conotadas. Trocando em miúdos, a gente aprende a trepar. Com os filmes pornô, certamente, mas também com novelas, filmes, revistas e outras mídias, que não necessariamente explicitam sexo, mas que são extremamente (senão mais) pedagógicas ao sugeri-lo, insinuá-lo. Outra coisa dita por ele é que o processo que desenvolve cultural e historicamente as performances sexuais foram histórica e culturalmente dirigidas pelo nosso querido grande falo – dourado, grande e voador – com quem já estamos mais que familiarizadxs. O que resulta disso é que muitas mulheres, e não só as heterossexuais, digo logo, experimentam sua própria sexualidade, seu próprio desejo, através de um olhar masculino.
            Ter meus seios tocados dá prazer a mim ou a ele? Ou a quem assiste? Será que eu realmente prefiro sexo oral sem camisinha, ou alguém me disse e eu acabei, inadvertidamente, abraçando essa causa? E, quando a gente não gosta de uma coisinha ou outra, acaba desenvolvendo escapismos, como “vai ver o problema é comigo”. Porque, afinal, se todo o mundo gosta, você é um inteiro, complexo freakshow. E você simplesmente não quer ser um freakshow.
             E era assim que eu vivia a minha vida sexual: inquestionável. As angústias, as ideologias, eu trancava do lado de fora do quarto. Afinal, na cama vale tudo – não é o que nos dizem? Vamos tentar fazer sem camisinha hoje, afinal, se eu não tenho o prazer que gostaria de ter, que ele tenha, ao menos! Porque – bem lembrado! – havia um Ele em torno de quem minha vida gravitava. Porque eu, Eva que era, via-me pedaço deslocado de um ente mágico e difícil de encontrar, a quem costumamos chamar “meu grande amor”. E eu, tão pequena, feia e gorda, deveria sorver o esperma como a unção sagrada de um verdadeiro milagre: eu o encontrara! Ele estava ali, comigo, em minha cama, ofertando-me seu sexo. Inegável oferenda.
              Acredito, em primeiro lugar, que nenhuma mulher tenha o aborto como perspectiva de vida, como método contraceptivo. Não concebo, por não achar possível, alguém dizer “tudo bem, amor, qualquer coisa a gente aborta”. Não há nenhum motivo para eu escrever meu relato: catarse, já a fiz, e quanto a assustar as mulheres, não é necessário. Eu sobrevivi porque paguei. Diga-se de passagem, paguei mais com meu corpo do que com aqueles 800 reais, dados na mão de uma secretária que sorria. “Tudo bem?”, ela perguntou, anotando meus dados com certa distração. “Seu nome se escreve com S ou com Z?”, e continuava escrevendo. Foram muitas salas e antessalas, câmaras e antecâmaras, até acordar com muito frio em uma maca. A enfermeira disse que eu estava bem, eu saí andando com minhas próprias pernas, fui para casa de ônibus. O dia seguinte era 07 de setembro.
                Não doeu. Desde então, contudo, palmilhando o solo de um feminismo muito embrionário e confuso, eu comecei, apenas comecei, a pensar sobre o que estava fazendo com meu corpo. Quantas pessoas ainda atravessariam meu interior como completos estrangeiros a passar férias em um país tropical. Extraindo de mim seu prazer, meu dinheiro, perscrutando meu interior, e abandonando seu lixo dentro de mim. Fazendo da minha paixão, ou da minha lascívia, motivo para dizer “tem como ser sem camisinha, só hoje?”. E eu me dei conta, tristemente, de que para nós, mulheres, o aborto se configura como a saída de emergência para um prédio em chamas: dependendo do andar, muitas de nós acabamos nos jogando pela janela. Mas para os homens, para muitos deles, o aborto figura em um horizonte muito próximo. Porque afinal, ela também não queria a camisinha. Porque no final, “ela gostou”.
                Cada um de nós, creio eu, coleciona seus próprios medos. E faz deles os mais incríveis e prodigiosos usos: nunca conheci alguém que não se apegasse aos seus. Alguns, sob a alegação de que superá-los adicionaria algo a seus caráteres: o desafio, a superação, a conquista, a força... Outros, para obter atenção, desbragadamente: pessoas que cuidam e envernizam seus medos como uma fonte preciosa de afeto. Quanto a mim, sou parte dessa cultura, dessa sociedade, deste mundo. Acho que compreendê-los faz parte de compreender a todas as estruturas que fazem de mim quem eu sou. Três frases hoje são as que me liquefazem de medo: “ela deixou”, “ela gostou”, “ela queria”. Fico pensando em todos os parceiros graduados em Nelson Rodrigues e Chico Buarque, que, sob essas alegações, me machu-caram. Não eram machucados no meu corpo, mas eram abertos atentados contra o meu gênero, contra o gênero em que eles me queriam ou faziam estar. Falar em “ela queria” pressupõe um desejo original, de um indivíduo intocado pela cultura, pela sociedade, pelo capitalismo. Falar em “ela queria” é supor uma mulher cujo único prazer é dar prazer ao homem. Falar em “ela queria”, em suma, é falar: “eu quis”.
                Ainda assim, defendo a legalização do aborto. Porém, a quem perguntar o que eu desejo, eu posso responder: um mundo em que nenhuma de nós tenha de abortar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Consentir a enfrentar o machismo nosso de cada dia

Essa coisa de consentimento é realmente tensa. Na minha vida pelo menos, sempre foi. Eu, como a maioria dos seres q veio ao mundo com vagina, útero e ovários, fui educada a sempre consentir. Acho q dispensa maiores explicações. Mas acho q sempre tive uma veia na discórdia. Nunca aceitei engolir coisas q me desagradavam. Me lembro aos 15 anos, um namoradinho de escola me recriminando um dia pq coloquei uma saia curta, disse q eu não iria sair com ele se não trocasse de roupa, ao q eu prontamente assumi q significada sair sem ele... Saí andando e o deixei parado no portão com cara de taxo, ele demorou um pouco pra entender... Sempre fui mto de falar, de deixar tudo mto claro. Quem me conhece sabe q transparência é uma marca minha.

Nesse meus caminhos por feminismos e afins já andei remexendo mta coisa lá no fundo de mim mesma. Mas algumas coisas ainda são meio obscuras, me parecem ainda meio sem resposta... Eu olho e me sinto meio perdida. Como vou lidar com isso agora? E essa do consentimento é uma delas. Eu gosto de me relacionar sexualmente com homens. Não q eu não me sinta atraída por outras formas e outros corpos, veja bem. Mas eu tb gosto de homens, e isso, em mtos momentos me é bastante problemático. Pq essa coisa de homem feminista... olha... sinceramente... eu tô colocando no rol dos seres mitológicos... junto com unicórnios, sereias, centauros, duendes, deuses e diabos... Já andei rodando entre homens anarquistas, veganos, e com mais uma meia duzia de rótulos q faz tudo parecer bonitinho... Ele começa a citar Emma Goldman e eu fico lá achando q talvez ele tenha o discurso da boca pra dentro tb.

"Encare o fato de frente", eu tenho repetido a mim mesma. O mundo é machista! Ponto. Eu sou machista. Todo mundo é machista. O fato é q a grande maioria de nós avança, desconstrói um tanto de coisas, mas ninguém é capaz de fazer tudo... de modificar tudo... e eu fico ali, olhando pros meus escombros, tentando entender o q levantar no lugar. E me lembro de uma frase de uma prof feminista certa vez, q ouvi através de uma prima e amiga q era sua estagiaria. Ela dizia "onde vc guarda o seu machismo?". Nunca me esqueço. É isso mesmo. Temos q encarar q somos todos machistas e seguir na luta pra desconstruir o q ainda resta pra podermos erguer coisas novas no lugar. E eu ando chegando a conclusão mto séria, q esses homens, seres fálicos, penianos, guardam seus machismo no ato sexual!

Já andei tento algumas experiência controversas com esses moçoilos. Mas recentemente teve um q me deixou bolada. Bolada de verdade. Eu conheço o cara faz alguns meses, nos conhecemos aí pelos movimentos sociais da vida. Esse mesmo padrão: anarquista, fala de teoria queer com desenvoltura... a coisa foi se desenvolvendo naturalmente, ninguém precisou apertar nenhum botão pra q um dia a gente chegasse a conclusão de q ia rolar sexo. Logo de cara ele tentou colocar o dedo no meu cu.

NOTA: eu não curto coisas no meu cu! Esse assunto já andou rolando por aqui. Para relembrar vejam: http://coletivocaju.blogspot.com/2011/08/cocozinho.html

Bom, eu deixei claro pra ele q não estava gostando. Ele fez uma cara de quem está levemente desapontado, mas parou e nós seguimos em frente. Ok. Num outro encontro lá vem ele novamente. Eu, naquele momento, parei e disse com todas as letras q não gostava e não queria q ele fizesse novamente. Ele riu meio com ar de quem pede desculpas, eu fiquei levemente bolada, mas acabei deixando passar. E assim começaram pequenas investidas da parte dele, todas em tom de brincadeira... até q um dia, umas 2 semanas depois da gente ter começado a se envolver, lá vai ele novamente com seu dedo. Foi demais. Parei tudo, já puta da vida, e falei "qual foi a parte do eu não gosto disse q vc ainda não entendeu?". Ele me olhou meio sério e perguntou "pq? doeu?"
Eu: não doeu, não sinto dor, simplesmente não tenho prazer
Ele: vc está insegura?
Eu: eu já te expliquei q não me sinto insegura, q só não curto. O q q ta difícil de entender?
Ele: eu acho q vc ta insegura
Eu: vc ta dentro do meu corpo ou da minha cabeça pra saber como eu me sinto?
Ele: não
Eu: então! A única forma q vc tem de saber como eu me sinto é através do q eu te digo q sinto, e eu estou sendo bem clara
Ele: mas é q isso é algo q me da prazer, em mim, no meu cu
Eu: e o seu corpo funciona igual ao meu?
Ele: não
Eu: então pronto! Acho q vc já tem sua resposta, né… ou eu ainda preciso explicar?

Nessa hora ele ficou meio puto e disse q talvez isso inviabilizasse a gente de ficar junto. E eu questionei "o fato de eu não gostar de dar o cu inviabiliza a gente ficar?". Ele disse "talvez". Eu fiquei puta. Aí eu falei q se tinha tanta necessidade de comer cu q o mundo ta cheio de cus q gostam de ser comidos. Pq o meu???

Nessa hora eu entro no retrospecto da minha vida sexual e conto nos dedos de uma mão, e não preenchem todos os dedos, os homens com quem me relacionei q não fizeram pressão pra comer meu cu, mesmo eu já havendo deixado bem claro q NÃO GOSTO!!

E aí entra a nóia de quem foi educada para consentir. A pressão é tão grande q eu acabo entrando numa vibe de me questionar se eu não estou errada de alguma forma. Mas não naquele dia, não depois de tanto q já avancei aqui com as minhas desconstruções. Talvez no passado, talvez com outros caras. Tive um namorado certa vez q TODA vez q tínhamos relação ele insistia, pedia, quase implorava. Certo dia eu bebi demais e lá foi ele. Eu, meio alterada, na hora não contestei, lembro de pensar "sei lá... vai q hj é diferente". Mas não demorou pra voltar aquela sensação de cagar... Eu fiquei ali alguns minutos me convencendo de q eu não estava cagando, não ia sair merda... Até q não deu e pedi pra parar... Mas naquele dia eu já sabia a resposta, já sabia q não era eu quem estava errada, já sabia pra onde ele, pseudo-libertário, tinha varrido seu machismo.

Naquele dia fui dormir puta. No dia seguinte conversamos. Eu disse "vc quer uma coisa q TE dá prazer e eu TENHO q aceitar? pq? pq vc é o homem e seu prazer vale mais?" e ele ficou calado e por fim disse q talvez eu tivesse razão e q ninguém nunca apresentou as coisas pra ele assim. Naquela hora cheguei a ficar sem reação. Como assim ninguém nunca te apresentou as coisas dessa forma?? Como assim vc anda por aí com esse cabelo desgrenhado e essas camisetas com frase de efeito, lendo livros subversivos, e é incapaz de subverter suas próprias relações? Com que tipo de pessoa vc se relacionou até hoje?

Mas a verdade é q eu fui incapaz de fazer todas essas perguntas naquele momento. Essa conversa voltou a tona em outros momentos. E eu cheguei a dizer a ele, com todas as letras, q o q ele estava fazendo chama-se ESTUPRO!! "Não consigo entender como vc é capaz de sentir prazer sabendo q a outra pessoa não está, sabendo q a outra pessoa está bastante desconfortável com a situação. Essa É a lógica do estuprador!!"

Sim! Essa é a lógica do estuprador! Eu repito!

Não estou aqui, de forma alguma, dizendo q mulheres não sejam capaz de abusar. Mas minhas experiencias com mulheres, pelo menos até hoje, sempre foram muito diferentes. Elas parecem mais atentas, mais preocupadas. Não posso falar por todxs, mas eu, pelo menos, não consigo pedir a alguém para fazer algo, mesmo q seja algo q eu goste mto, se sei q a pessoa estará em profundo desagrado. Acho q sou incapaz de sentir prazer nesse tipo de situação.

Uma coisa é você dizer que, mesmo que algumas práticas não se configurem como suas preferidas, elas são válidas para satisfazer x parceirx. Outra é exigir q x parceirx se engaje numa atividade da qual não só não goza como repudia.

É, com algumas pessoas, certas posições e práticas não vão rolar. Não, isso não é um problema. Fique atento: a mídia vende para nós a ideia de liberdade sexual como algo que pode ser medido, tanto pela quantidade de sexo, quanto pela de parceiros ou pelo número de práticas que você topa. Isso não é liberdade, pelo menos não como eu entendo...

O que acontece nessas situações é muito simples: homens brancos revoltados com a perda de um de seus maiores privilégios, que é dispor dos corpos e dos "corações" (por falta de palavra melhor) das mulheres. É muito fácil para o homem se rebelar contra o que quer que seja: o sistema inteiro está dizendo que o mundo é de vocês por direito! Seja o Deus cristão, seja a biologia positivista, vocês estão acostumados a discursos que lhes delegam não só o poder sobre o planeta como sobre a maior parte da espécie humana - tudo que não seja branco, homem e heterossexual é de vocês para dominar, segundo nossa sociedade. Então, esse homem a quem tudo foi legado se vê, por exemplo, numa sociedade de classes em que outros homens (burgueses, por exemplo) lhes negam poder, e então se revoltam contra seus opressores. Fácil se rebelar.

O difícil é superar o paradigma iluminista que estabelece a SUA subjetividade como o parâmetro da razão. Difícil é perceber que SIM, VOCÊS SÃO OPRESSORES. Sua mera existência está implicada em relações de poder: o fato de você poder andar na rua 2 da manhã sem se perguntar se vai ser hoje que você vai ser estuprado e morto já torna a sua visão de mundo radicalmente diferente da minha. NÃO, CARA, VOCÊ NÃO ME ENTENDE. Quer as boas notícias? Para me entender, você vai ter que negar a lógica de poder que te beneficia. Quer a boa notícia? Para você me entender, entender minha opressão, entender minha vida, entender meu corpo, você só tem uma coisinha a fazer: ME OUVIR. Ouvir com alteridade, ouvir com a compreensão de que a sua visão de mundo não é pura nem universal, mas subjetiva e pessoal, e que você tem que ouvir mulheres, gays, lésbicas, trans, negrxs, e outros, para entendê-los.

Negar a lógica do poder, construir um consentimento verdadeiro é OUVIR SEM LANÇAR SOBRE O OUTRO O SEU OLHAR COMO SE FOSSE ISENTO E UNIVERSAL.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sexo biocentrado y otras cositas más

Como muitas reflexões na minha vida, esta começou na cama. Aliás, naquilo que elogiosamente chamávamos de cama, mas não passava de um colchão de casal largado no chão do quarto. Maravilhoso e fedido colchão, brindado de suor, umidade e, quando em vez, água da chuva, posto que tínhamos por companhia uma goteira que minava no exato centro do quarto - o acaso também tem seus caprichos geométricos. A reflexão começou motivada pelo meu ex-namorado F. (quem conhece sabe), com quem eu tinha um sexo genial.

Com ele comecei a achar o sexo algo tosco. Vejam bem, sem a conotação negativa, eu achava sexo algo rudimentar. Achava que não estava explorando todos os recursos e sensações do corpo, ou mesmo que havia outros prazeres mais interessantes no mundo. Sobretudo, comecei a desconfiar dessa definição de sexo como ato, ou atuação, do corpo, ou das genitálias. Beijo não é sexo? Masturbação É sexo? Estupro é sexo? Visita ginecológica é sexo? Por que sim, por que não, por aí vai.

O sexo era bom, bom de verdade. Fazia uma sujeira e tanto, uma bagunça de porra, suor e, às vezes, sangue. Numa noite qualquer, antes de partirmos para a barbárie (o canto indisciplinado dos pássaros) ele me faz a pergunta: "você já fez amor?". Muito prosaica, de uma humildade envergonhada, eu respondi que não - verdade. Em seguida, F. apagou as luzes, lentamente tirou minhas pulseiras, anéis, brincos, um por um. Lentamente. Em dirigível cruzava minha mente carregando uma imensa faixa, na qual se lia "que porra é essa?". Depois de totalmente despida, ele, que não estava totalmente despido, me deitou, e começamos a transar de vagar. O que era uma experiência nova, agradável, mas que eu não conseguia associar com o amor. À qual eu não consegui e não consigo agregar nenhum significado além de "transar de vagar".

Comecei a entender o sexo como performance nesse dia. Comecei a entender que, durante o sexo, não se abrem comportas para acessar nosso lado animalesco, tampouco portas da percepção que coloquem os espíritos em comunhão profunda e maravilhosa. A coreografia do sexo - movimentos, gemidos, maneiras de se tirar a roupa - é tão culturalmente inventada quanto o ballet, embora não pelos mesmos métodos. Assim como recorremos a determinada entonação para implicar um significado a um enunciado qualquer, no sexo quesitos como velocidade, intensidade, força, gemidos, são signos filiados a mensagens; um sem-número de mensagens customizáveis e criativas, mas ainda assim, mensagens.

Pensei nisso tudo outra vez quando vi o filme Crash, do David Cronemberg, neste fim de semana. Rapidinha sobre o filme: após um acidente de carro, James Ballard tem sua perna severamente danificada, e passa algumas semanas em um hospital. Sua perna comprometida passa esse tempo cravejada de pinos a parafusos que mantém os ossos no lugar durante a cicatrização. Neste mesmo período, conhece Dra Helen, em cujo carro batera, e também o exótico Vaughan - disparado, o melhor personagem do filme. Vaughan tem profunda atração sexual por pessoas acidentadas, pinos, parafusos, cicatrizes, bem como pelos próprios carros, pelas batidas em si. James, o protagonista, entra em uma espécie de submundo sexual de pessoas com preferências muito parecidas, e que envolvem sempre corpos humanos modificados pelos acidentes.

Digo modificados não por eufemismo, mas por conta das minhas reflexões. Em primeiro lugar, somos todos corpos modificados, aqui. Somos todos corpos antropomorfizados naquilo que o ocidente concebe como humano: cortamos as unhas e os cabelos, tingimo-los, depilamos nosso púbis em formas geométricas aleatórias (não é?)... Tatuagens, piercings, silicone e botox são apenas aqueles que nossa sociedade elencou como "modificações" no intuito de encobrir que, na real, o corpo reivindicado pela nossa biologia positivista também é um investimento cultural. E os corpos acidentados, a quem "faltam" uma perna, um braço, um determinado movimento, ou que "portam" cicatrizes, não são incompletos, aleijados, nem em nenhum grau menos humanos que os demais.

Vaughan, o tarado (no melhor sentido!) em acidentes, afirma que vê os acidentes de carro como atos sexuais nos quais não só os envolvidos, mas toda a espécie humana está sendo modificada. Estamos sendo transformados pelas máquinas, ele diz, e acho que não poderia haver uma iconoclastia maior ao sexo bio-centrado. As máquinas não são o suporte do sexo (o carro como motel ambulante) tampouco são coisas "envolvidas no sexo",mas são partes ativas de um corpo humano que sempre foi tecno-simbolicamente investido. Acho que a cena mais famosa (inclusive citada por esse site como uma das mais broxantes da história) acontece quando Gabrielle, uma pessoa severamente modificada por um acidente de carro, seduz James, o protagonista. Fica claro que os aparelhos que usa na locomoção são parte da sedução, bem como as cicatrizes, que geralmente fazem parte do léxico do grotesco, são turn ons para o ato sexual. Os utensílios e as cicatrizes participam do sexo, porque não se tratam de "coisas que pertencem a Gabrielle", mas "coisas que compõem, que são a própria Gabrielle".

O sexo biocentrado tem uma função importante na fabricação do gênero; visto que a identidade não é categoria, mas devir, visto a identidade não como particularidade emanativa, mas atividade na qual um ser-humano se engaja (conscientemente ou não, o que já é outra história), apagar a fronteira bio-cêntrica do corpo é mexer diretamente com a dicotomia homem/mulher. Em um exemplo 100% hipotético: se eu nasci com útero, vagina e ovários, mas me identifico como homem, e se me sinto bem usando um dildo durante o sexo, então meu dildo de plástico, fabricado em série, é meu pênis. Organicamente pode ser que ele não participe do meu corpo; porém, subjetivamente, ele me integra. Percebo-o como parte de mim, ao menos no sexo. O que, diga-se de passagem, ainda é levemente bio-centrado, já que o dildo imita a forma do bio-pênis. Mas digamos que, por algum motivo esdrúxulo, eu só consiga transar de luvas... ou melhor ainda, se eu só consigo transar virtualmente, isto é, se só consigo manter relações via internet nas quais os corpos não se tocam. Isso ainda é sexo? Estou fazendo sexo com a outra pessoa ou estou sozinha? Ou estou trepando com o computador?

Por fim, assim como a coreografia sexual é simbolicamente investida, conotada, as modificações corporais também são. Relembrando a polêmica dos pêlos, todas as modificações corporais nada mais são que a adição de signos ao corpo: signos de gênero, de classe, de orientação sexual, de raça, etc. Ausência de pêlos, no momento, é signo de feminilidade, bem como envernizar as unhas com cores aberrantes, ou redesenhar os lábios com tinta oleosa. E todas são modificações tecnológicas, por mais simples que essas tecnologias nos pareçam. Acho que muita gente que se incomoda com travestis e transexuais está, na real, abalada em sua fé em um corpo natural, "biológico", na medida em que são confrontadas com a possibilidade de fabricar corpos masculinos ou femininos a partir de corpos a que, culturalmente, esses gêneros não são atribuídos. As mesmas tecnologias que (hoje) me tornam mulher estão ao alcance de uma pessoa XY, com um pênis e uma bolsa escrotal "saudáveis".

Mas aí eu acho melhor parar... e quem sabe chamar a Dorothy para dar uns pitacos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pentelhos para quem precisa...

Postar imagens é apostar em uma nova maneira de usar o blog. Francamente, ao postar a imagem abaixo, eu não esperava nenhuma grande repercussão... e qual não foi a minha surpresa diante da polêmica gerada, não aqui, mas no facebook, onde o link foi divulgado. Então, aproveitando esse novo "formato", organizei este post em imagens que, acreditem, deu muito MUITO trabalho.

Em primeiro lugar, recadinho aos moços que se manifestaram: muito me surpreende que os senhores, ao "prestarem contas" do que fazem com seus pentelhos (são pentelhos, não são?), se coloquem em pé de igualdade com as mulheres, como se sofressem as mesmas pressões em nossa sociedade. Novidade para vocês: mulheres (pessoas com útero, ovários, ou com XX em seus cromossomos) são 50% da população, 70% da classe trabalhadora e, ainda assim, detêm apenas 1% da riqueza do mundo. Nós somos mais estupradas, nós somos, em alguns lugares do globo, trocadas por vacas e cabras, o tráfico de seres humanos trafica principalmente corpos como os nossos e gira em torno da exploração sexual desses corpos. Nós, mulheres, ainda temos dificuldade em chegar a cargos de chefia, somos mais de 50% das pessoas ao ingressar na graduação e bem menos de 50% a realizarem mestrados, doutorados e outros estudos especializados. Portanto, amigos, não venham falar dos seus pêlos, ou do que quer que seja, como se vocês estivessem sofrendo uma pressão sequer parecida com a que sofremos. Sério, parem com isso.

Esta foi a imagem da polêmica. A maior parte dos comentários girava em torno da questão da higiene: que pêlos suam, acumulam sujeira e seriam, de alguma forma, uma ameaça à saúde. Duas coisinhas: 1) Eu tenho pêlos nas axilas e até agora não passei por nenhuma doença ocasionada pela sua presença; 2) Nunca ouvi ninguém alegando que cabelos na cabeça são anti-higiênicos...

Bom, comecei a pensar, muito em virtude dos comentários masculinos, o que os homens são orientados a fazer com os seus. Fui Às revistas masculinas do meu irmão (Alfa, Playboy, Sexy) e, em mais de 30 revistas, não encontrei NENHUMA axila, NENHUMA orientação quanto ao que vocês, mocinhos, devem ou não fazer com elas... E sabem por que, rapazes? Mui simples: as axilas de vocês são assunto DE VOCÊS, da ordem privada e pessoal. Não, a nossa cultura não está interessada na administração dos SEUS pêlos. Deal with it, meus queridos, a opressão que nós sofremos, muitas vezes por pressões estéticas (sim) de VOCÊS, não tem mão dupla NÃO.

E veio aquela dúvida: então, como é que as pessoas vendem desodorante para homens? Como são as axilas dos homens dos anúncios impressos (foi onde pesquisei)? Simples: comerciais de desodorantes masculinos NÃO TÊM HOMENS!!! Vejam só:


Neste anúncio de Axe, o produto usa como suporte de vendas a imagem da mulher. Se você feder a Axe, prometemos a você que será capaz de comer esta linda mulher, quer você, homem, tenha pêlos nas axilas, quer não.

Agora, que tal darmos uma olhadinha em um anúncio de antitranspirante para mulheres?


Quanto à mulher, o anti-transpirante precisa DEIXAR que saiamos de casa. Veja bem, até um produto de "higiene" tem o poder de legislar e decidir por nós. E qual é a condição para podermos sair de casa? Temos que estar assim:

Axilas maravilhosas = axilas nuas. Aliás, reflitamos um pouquinho de nada sobre a frase "axilas maravilhosas mesmo após a depilação"; quem se depila ou depilou SABE que é um processo doloroso e violento, seguido de vermelhidão, irritação, e sabe-se mais o que. Mas, UFA, Dove está aqui para resolver esse problema.

A questão dos pêlos, pelo que estou entendendo, está diretamente relacionada ao trânsito do corpo "feminino" no espaço público. Ao que parece, o avanço da mulher em campos histórica e culturalmente assinalados como masculinos faz com que tenhamos que fabricar a diferença dos gêneros sobre os nossos corpos, reafirmando a fronteira "homem/mulher". O que nos leva à reflexão: se nós somos naturalmente lisinhas e macias, por que existe uma bilhonária indústria cosmética que manipula nosso corpo para que sejamos assim? Até que ponto existem sexos como definidos na biologia, e até que ponto nós fabricamos, nós "sexuamos" esses corpos?

Muito bem, para quem está cansado de falar de sovaco: eu estou também! Falemos de pernas, então:


Nunca ouvi falar de homem raspando a perna, e muito menos que pernas cabeludas são anti-higiênicas (vale o comentário, as minhas são muito limpinhas). Neste anúncio lemos "do banho para a festa", ou seja: a condição para ir a público é ter pernas bem macias e lisinhas, à custa de um instrumento cortante.

Muita gente já notou que lâminas cortam, machucam, pinicam, enfim, que lâminas agridem o nosso corpo. Boas notícias, galera: os empresários notaram também. E sabe qual é a solução? CERA! CERA NAS MENINAS!



"Se lâmina fosse uma coisa delicada, os homens não usariam para fazer a barba"... hum, e cera é uma coisa, assim, MUITO delicada, né? Então, a agressão no corpo do homem é um signo de virilidade enquanto, no corpo da mulher é um agente feminilizante? Eita, cultura coerente!

Os anúncios são abundantes, esse post ficaria maior ainda se eu colocasse todos aqui. Então vou encurtar a conversa logo para os finalmentes: você pode estar pensando em argumentar que essas mulheres só estão lindas e depiladas porque são anúncios de produtos voltados para esse fim. Mas eu desafio você a encontrar um anúncio de WHATEVER em que uma mulher esteja com seus pêlos no lugar.

Enquanto isso, no mundo mágico e maravilhoso dos homens, o que nós vemos é:


Tirei essa foto de uma CARAS... um socialite exibindo pêlos na cara, pêlos nos braços, e grandes e grossas pernas cabeludas bem em primeiro plano! Agora vai lá, e procura se aquelas moças cheias de botox e silicone têm ALGUM pêlo na superfície corporal, além é claro de grandessíssimos, alisadíssimos e louríssimos cabelos no alto da cabeça.

E vem falar pra mim que a opressão é igual? AFFFFFF

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sonhos infantis

“Aquela menina
tão pequenina
quer ser bailarina [...]”

Quando foi que começaram a me moldar mesmo? Não consigo mais recordar quando eu era ainda forma e quando já tinha barro, quando secou... nem sei dizer se cheguei a ir ao forno por assim dizer. De repente me deparei com essa escultura já meio pronta, sem saber direito em qual prateleira caber.

Quando forço um pouco lembro dos flashs de tinta fresca dando os retoques finais. Que cores eu queria ser? Que brilho eu queria ter? Acho que ainda mal havia entendido que podia ser pintada quando já me haviam coberto toda a superfícies com traços que nunca foram meus.

Mas eram esses traços, essas cores, essa forma que me definiam, não é mesmo. Afinal, era minha imagem, era quem eu era, era como todos me viam. E eu seguia caminhando pela prateleira meio apertada, apinhada, seguia me perguntando por que me sentia tão mal acabada? De quem teriam sido as mãos que me fizeram? De onde viera sua inspiração?

Eu já não queria mais somente existir para o deleite alheio. Deleite mais estranho esse o de possuir. Mais estranho ainda acho que só mesmo esse de achar que seres animados são inanimados quando assim o convém. Eu já não queria mais a prateleira, mas insistiam que era ali o meu lugar, afinal era pra isso que havia sido moldada.

É estranho olhar pra trás e constatar o quanto de fato me esforcei para desejar estar na prateleira, o quanto me esforcei para desejar ser a escultura mais bonita de todas, o quanto me esforcei para desejar ser possuída por aquele mestre mais importante de todos e ser seu mais caprichoso deleite. É estranho olhar pra trás e constatar o quanto desejei me tornar inanimadamente animada, um fantoche a ser possuídos por mãos que eu nunca seria capaz de enxergar.

As vezes acho que esse mundo feito de prateleiras e esculturas é essencialmente parnasiano. Afinal, por que haveriam de ter tantas esculturas? Será que não podemos compor outras formas, ou outras não-formas? Talvez eu quisesse ser uma música ou uma ferramenta útil. Talvez eu quisesse ser algo impossível de se possuir... como uma brisa fresca num fim de tarde quente!

Isso! Eu queria ser essa brisa! Essa brisa que tanto deleite provoca, mas um deleite desprendido, desses que só são capazes de surgir no momento inesperado. Uma brisa que vem acariciar seu rosto e bagunçar seus cabelos, dessas que faz uma cócega meio corrida no pescoço e vai embora só pra voltar daqui a pouco.

Eu não queria essa beleza parnasiana, essa beleza de forma industrial. Essa beleza nunca foi bela. Como pode haver beleza na produção em série? Todas as esculturas iguais, feitas da mesma forma, encaixadas na mesma prateleira, disputando a possessão que as algemas. Eu queria ser a beleza que não se vê. Eu queria ser uma dança, dessas que te dão vontade de gargalhar. Não consegues ver tamanha beleza no som dessa gargalhada?

Eu queria ser o meu deleite! Queria provocar deleite e que me provocassem também. Mas não essa coisa equivocada e parnasiana. Queria que você voltasse porque assim o deseja, e queria eu também voltar desejando. E quando deixassemos de desejar voltar, não haveria problema, bastaria seguir em frente.

Tudo isso foi ficando claro como água na fonte. Mas o espelho continuava mostrando a forma saída de uma forma industrial de produção em série. Eu tinha que quebrar a escultura!

Foram muitos gritos apavorados. Muitos tinham medo, alguns até pena... veja só... O mais difícil acho que foi constatar que enquanto eu passei grande parte da existência desejando desejar ser aquela forma, a maioria a minha volta simplesmente desejava. E quando você cai intencionalmente da prateleira, quando ouve o trincar da sua escultura, e quando constata que nada disso nunca foi real, você ainda ouve as pessoas repetindo que aquele desejo é real... talvez o seja... vai saber...

Do alto da prateleira eu ouvia a caixinha de musica, alguém a observava tão intensamente. Mas aqui de baixo é possível ver a bailarina que vive lá dentro. Ela roda roda sem nunca sair do lugar, ela roda roda na ponta de um pé só, ela roda roda sem parar. Ela era tão pequenina e, por isso a fizeram crer que era tão frágil e indefesa. Será que ela também deseja ter uma forma? Será que já contaram a ela que aqueles dedos que se sustentam no ar nunca foram frágeis? Será que ela sofre por ser um deleite inanimado?

Eu sigo achando que é um deleite muito estranho esse o de possuir... acho que mais estranho ainda só mesmo o deleite de ser possuído...