domingo, 28 de abril de 2013

Desabafo


“Este poder que a ciência ou a teoria tem de atuar materialmente sobre nossos corpos e mentes não tem nada de abstrato, ainda que o discurso que produzam o seja. É uma das formas de dominação, sua verdadeira expressão. Diria mais, um de seus exercícios. Todos os oprimidos conhecem-no e tiveram que lidar com esse poder que diz: você não tem direito de falar porque seu discurso não é científico ou teórico, você se equivoca no nível de análise, confunde discurso e realidade, possui um discurso ingênuo, desconhece essa ou aquela ciência.” (Monique Wittig)

Esse pensamento platônico exposto sempre como verdade absoluta já me soa tão cansado e ultrapassado que confesso ter até uma certa preguiça em explicar. Em certos momento, minha indignação é tanta que tenho vontade simplesmente de assumir que todo o resto do mundo já fez essas leituras básicas sobre as supostas minorias. Aí me lembro q eu vivo na minha alegre e colorida bolha.


Ali logo adiante, impera o saber da verdade absoluta, da razão ganhadora de todos os argumentos, da objetividade detentora de toda sabedoria. Ali logo adiante naquele olimpo fictício que nem um singelo tablado possui.


Eu abri com essa maravilhosa frase da Wittig porque nada, repito: nada expressa melhor meu atual estado físico, mental, psicológico e psicodélico que essa frase! Esses pseudo-deuses trabalham ativamente todos os dias pra silenciar pessoas como eu, domesticar pessoas como eu. E pra q eu passe a possuir o simples direito de fala, tenho q me submeter ao jogo sujo dele, e adquirir os títulos inventados por ele, que legitimem uma fala que desmantela o poder deles.


E lá vou eu, todos os dias, jogar o jogo dele, como uma Pollyanna vendida, fingindo que gosto de jogo do contente, esperando o momento em q minha paciência não mais permitirá. E esse momento parece ter se aproximado hoje!


Já não me interessa quem foi o professor q puxou esse gatilho, já não me interessa o q falaram de mim quando eu virei as costas, já não me importa o barulho q eu gerei, a fofoca q se criou ou a oportunidade q falsamente se abriu. Só importa q eu explodi!!


Explodi porque já não podia mais suportar o platonismo velado desse discurso acadêmico que nem tenta disfarçar. Porque já não posso mais suportar essa visão de mundo anacrônica do trono fálico dourado. Explodi porque já não posso mais suportar viver na sombra, invisibilizada, fingindo ser domesticada quando jamais me permitirei viver dessa forma.


Não importa se minha voz se ergue sozinha, se ela ecoa no microfone com ruídos de desprezo ao fundo. Não importa se eu preciso citar Wittig e Butler pra legitimar o meu “ataque histérico”. Nada disso importa porque eu não posso, não quero e não me proponho a ficar calada. Eu sei porque vim pra cá, eu sei onde pretendo chegar.


Depois de todo esse baphão, retorno a casa, tarde, louca, chapada, sozinha... escrevo pra organizar, pra extravasar. Eu ainda tenho muito o que me fuder... mas... o que é um peido pra quem tá cagado não é mesmo... se é pra morrer na guerra, que seja levando o maior numero de inimigos possíveis...


Agora dá licença, q eu vou chorar na cama... q é lugar quente...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

BUCETAS INSACIÁVEIS: de Sherazade a Valesca, mitos sobre a emancipação da mulher.



As mil e uma noites é um vasto livro que, através da biografia de Sherazade, que todos conhecemos, alinhava uma série de histórias tradicionais num fio contínuo que pretende, ainda que não explicitamente, remontar a fundação da sociedade sobre o controle repressivo de instintos como ganância e insaciabilidade sexual feminina. Dentre as muitas historietas, salta aos olhos a primeira, na qual Shahriar e Shezanã, dois ricos reis, descobrem ser traídos por suas incansáveis mulheres. Arrasados de ódio e humilhação, saem em viagem pelo deserto tentando buscar homem de pior sorte que a sua – isto é, saem em busca de algum que seja ainda mais atormentado pela natureza puramente sexual de sua concubina. Em dada altura, um gênio do mar, criatura maligna de imenso poder, aparece diante deles, que se escondem. À distância, todavia, observam que a criatura tem sob seu poder uma linda e rica caixa, onde guarda... UMA MULHER, sua concubina.
O gênio adormece, e a jovem, deslumbrante, convida-os a fazerem sexo com ela. Cumprida essa etapa, como troféu da sua conquista sexual, a mulher – que não tem nome – confisca um anel a cada príncipe, justificando da seguinte forma o confisco dos objetos:

São anéis de todos os homens a quem concedi meus favores, noventa e oito que conservo como lembrança. Pedi a vossos pela mesma razão, e para completar a centena. Eis, pois, cem amantes que tive desde o dia em que esse monstro me raptou, apesar da sua vigilância e das suas precauções. Pouco me importa que me encerre naquela caixa de vidro e me oculte no fundo do mar, porque nunca deixo de enganá-lo.

                A idéia de mulheres como seres psiquicamente achatados, movidos por uma lascívia exclusivamente heterossexual e simultaneamente invejosa e competitiva, está presente em toda a nossa cultura, moldando certamente a maneira como nos vemos individualmente, bem como a maneira como encaramos a sexualidade feminina. Isto é: a maior parte das narrativas que nos envolvem, que nos embebem, aborda a sexualidade não como um construto cultural regido por interesses políticos e relações de poder, mas como o controle ou administração de uma porção de desejo inata, dirigida para esta ou aquela manifestação sexual. Existe, portanto, uma equivalência entre uma determinada anatomia, uma identidade e um tipo de desejo; e nesta narrativa, a única liberdade possível é a liberdade sexual.
                Nossa grande liberdade: sair à caça. Vingar nossas vovozinhas reprimidas. Vamos armadas de minissaias e cílios postiços, pulando de cama em cama: quantidade se converte em sismógrafo da liberdade. Quantidade de homens: e o ballet da liberdade, tão mais bem executado quanto mais pirotécnica for nossa técnica orgástica. Precisamos desesperadamente deles: precisamos provar que nosso feminismo não é o paroxismo histérico freudiano, e para atender à inspeção masculinista que patologiza qualquer ato de rebeldia como falta de uma boa piroca, nós vamos a elas. É o nosso mantra: abrir a caixa de pandora e inundar o mundo com nossos fluidos corporais.
                Como se vê, o discurso sobre a liberdade sexual como algo que se restringe à variedade de parceiros, mantendo uma performance heteronormativa projetada para o olhar masculino, tem suas bases na antiguidade, e pode ser verificada em muitos outros mitos além de As mil e uma noites; porque o discurso patriarcal nos vê exatamente como essas criaturas cujo elemento é a pura luxúria. Aceitar isso como um dado e buscar liberdade sexual através dessa premissa não é contestar as relações de gênero como violentas, mas na verdade reforçá-las, reiterá-las, retificá-las.
                Quando, por essa semana, me veio aquela notícia já célebre da pós-graduanda que defendia os funks de Valesca Popozuda como feministas, não pude deixar de pensar todas essas coisas. Em primeiro lugar, porque é uma abordagem no mínimo anacrônica: dizer que, hoje em dia, falar de sexo ainda seja um tabu é um tanto deslocado da realidade. Vá às bancas de jornal, aos cinemas, no escritório do seu trabalho, na sala dos professores, é só do que se fala. Constantemente somos inspecionadas: o que, como, com quem estamos fazendo? Estamos tento suficientes orgasmos para validar nossa sanidade? Será que você não é feminista só porque é mal comida? Em segundo lugar: no primeiro volume de A história da sexualidade, Foucault já nos alertava para o fato de que, mesmo no passado, não havia uma proibição generalizada em relação a falar de sexo, mas uma regulação de como, com quem e onde falar dele; como, onde, com quem praticá-lo. Em terceiro lugar, as feministas radicais da década de 1970 (com seus prós e contras), já alertaram para o caráter institucional do ato sexual heterossexual como um lócus de poder, administração de identidade, e para o fato de que, quando procuramos sexo, não se trata da busca abstrata por uma sensação corpórea destituída de sentido mas, pelo contrário, da busca mesmo dos significados instituídos em torno de determinadas performances. E por falar em performance, Judith Butler e Beatriz Preciado já sublinharam o ato sexual como um ato performático, como a repetição reiterada e ritualizada, cristalizada em imagens e discursos, pelos quais determinadas práticas sexuais são construídas como naturais, e outras relegadas à abjeção.
                Digo tudo isso porque a diferença entre “Minha boceta é o poder” e o discurso milenar de As mil e uma noites é zero. A sexualidade é a forma de enganar homens para obter benefícios financeiros: onde está o feminismo? E a maneira de “fisgar” o macho se dá, simultaneamente, pela habilidade específica de fornecer prazer sexual ao homem, satisfazendo sua masculinidade predatória, e tornando-se bonita nos parâmetros racistas e machistas de nossa cultura, que incluem “Coloca silicone/ E faz lipoaspiração/ Implante no cabelo com rostinho de atriz”: isso é feminismo? Corroborar com uma cultura de adultério e medir o desempenho no ato sexual não pelo prazer obtido para si mesma, mas pelo quanto “eu esculacho a tua mina”: isso é feminismo? “Vou comer o seu marido” é questionar a monogamia? Porque me parece (e Beauvoir assina embaixo) que o adultério sempre foi uma parte institucional dos contratos monogâmicos através da história.
                E me parece que, num contexto mais amplo, produzir uma dissertação sobre como o funk de Valesca é feminista é reproduzir, no espaço acadêmico esse mesmo discurso: estou em dia com minha cota de orgasmos, meu pensamento já pode ser considerado ciência?

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A incrível necessidade de falar sobre o véu – notas sobre apropriações discursivas



Por que as pessoas ainda falam sobre o FEMEN me é um completo mistério. Um grupo que se diz feminista e homenageia Margareth Thatcher por suas políticas neoliberais, ou ainda Hugh Heffman, criador da revista playboy, como um ferrenho partidário da emancipação da mulher, já deveria ser visto como desconfiança. Aliás, grupos que falem indistintamente em “emancipação da mulher” como se se tratasse de um grupo política, étnica, cultural e economicamente homogêneo que tivesse no horizonte uma solução unívoca para os seus problemas, devem ser encarados com um pezinho atrás, SEMPRE. Por fim, estou até pasma pelo fato de haver ativistas gordinhas entre as “louraças” da organização, visto que até pouco tempo atrás, magreza, lourice e branquitude eram pré-requisitos sem os quais não se poderia aderir à organização. Enfim, como eu disse: procurar sentido no FEMEN é pra quem tem muito boa vontade ou muito tempo livre, e eu não disponho de uma ou outra coisa.

O que importa é que recentemente, a organização fez um protesto pela “liberação das mulheres muçulmanas”, criticando o véu entre outros aspectos da cultura islâmica – o que aliás, é uma grosseria teórica, visto que islamismo não é sinônimo de muçulmano, e por aí vai. Como é de praxe, o FEMEN gera muito mais impacto negativo que positivo, pipocando instantaneamente, e nos dias conseguintes, ferrenhas críticas à postura colonialista e racista das moças e apoios incondicionais ao uso do véu. Para tanto, gostaria de tecer algumas considerações.

Não sei muita coisa sobre o assunto “véu”. O único caso que conheço de país islâmico onde o véu é obrigatório é o Irã, caso que conheci por um único livro, o Persépolis. Trata-se de uma autobiografia de uma menina que, por volta dos 7 anos, encontra-se no país quando acontece a “revolução” islâmica que leva Aiatolá Khomeini ao poder, juntamente a um grupo religioso radical. Marjani, que era apenas uma criança, vivera até então da maneira como a maior parte de nós “ocidentais” vive: estudava numa escola mista, vestia-se com roupas como as nossas, até que, após a chegada dos religiosos ao poder, o uso do véu se torna obrigatório, homossexuais passam a ser perseguidos, e sob a pena de as “mulheres” serem taxadas de imorais e sofrerem perseguições por isso, os casamentos voltam a ser arranjados pela família e, se não me engano, o divórcio se torna ilegal (essa parte do livro eu não lembro, posso estar errada, confiram aí por mim!). O Irã era um país laico, portanto, até 1979, e o uso do véu como obrigação do Estado, antes disso, era impensável. Também o Afeganistão era um país laico até a chegada do grupo Talibã ao poder e, da mesma forma, só então o véu passa a ser uma obrigação legal. Quanto à Marjani, só pra constar, não vive mais no Irã.

Isso serve para pensarmos a maneira como o ocidente pensa o “oriente”: é o que Edward Said chama de orientalismo, e que Stuart Hall aborda em Da diáspora e Identidades culturais na pós-modernidade. Em geral, o ocidente capitalista tende a tratar “O Oriente” como um grande ente exótico e homogêneo, culturalmente insular, tão externo e alheio a nós que caberia a nós, ocidentais, apenas a alteridade completa, a admiração. Daí surgem alguns fetichismos que resumem culturas diversas e complexas a um conjunto de signos convenientes à leitura ocidental, como reduzir a cultura islâmica ao véu, ou a cultura indiana ao politeísmo, como se as culturas não-ocidentais fossem um reservatório de tradição pura e sempre igual a si mesma ao longo do tempo, como se se pudesse traçar uma linha reta partindo do presente ao seu passado mais recôndito, como se as culturas não-ocidentais encontrassem-se todas em um estado original, cristalizado e puro. Isto se realiza, por exemplo, na leitura liberal do hinduísmo, que coloca este conjunto de crenças num estado de “verdade” e de “proximidade com Deus”, ou na leitura de que as tribos autóctones, por disporem de um modo de vida que agride menos o ambiente onde se encontram, quase não dispõem de cultura, vivendo num estado quase natural. Opondo-se a esse oriente místico, logo, temos um ocidente caótico marcado pela distância entre homem (sic) e natureza, tanto quanto pela distância entre homem (sic) e Deus, construindo-se duplamente um ocidente homogêneo, capitalista, marcado pelo desequilíbrio e relações de poder, em oposição a um Oriente pacífico, estável, e cujas culturas não apresentam tensões ou relações de poder em seu interior.

A utilidade dessas teorias, pois, não é pensar o Oriente, mas pensar como o Ocidente constrói o Oriente discursivamente a partir de relações de poder, quais são e para que servem essas apropriações discursivas, por parte do capitalismo. Por que é tão importante, para nós, falar do véu? Acredito que falar do véu tenha, em oposição ao que postula o senso comum, uma importância muito maior na veiculação de idéias às mulheres ocidentais do que propriamente um embate cultural com outros países.

Em primeiro lugar, em sua maioria, os discursos anti-femen e pró-véu trabalham com “mulheres” como uma categoria biológica. É muito precipitado dizer que há mulheres em outras culturas, exatamente porque a categoria mulher é uma assinalação biopolítica atribuída a um corpo que, a partir de uma série de dispositivos culturais de assujeitamento e subjetivação, têm como horizonte a produção de corpos dóceis capazes de se engajar em atividades sexuais, laborais, reprodutivas, estéticas, etc etc. A categoria mulher (cis, no caso), na acepção que luto para afirmar, é, pois, uma produção cultural muito específica, e que não necessariamente aparecerá em todos os arranjos sociais entre seres-humanos. Formular frases como “as mulheres dos países islâmicos” pode, pois, ter duas acepções possíveis: 1) que existam pessoas com vaginas nos países islâmicos, donde se conclui que sua concepção acerca de gênero está vinculada a um discurso médico profundamente reacionário que pressupõe a opressão de gênero como algo que tenha suas origens na biologia e, que como dado do Real, é imutável; 2) você concebe que, mesmo em outra cultura, ainda existe uma relação de poder tal que a sociedade seja radicalmente dividida entre os seres dotados de pênis e seres dotados de vaginas (intersexuais, por exemplo, estão automaticamente excluídxs), e que mediante seu papel reprodutor, laboral, sexual, estético, etc etc, os seres humanos desse lugar são subjetivados como mulheres. E nesse segundo caso, não há maneira de negar que homens e mulheres vivam numa situação de desigualdade e que o avesso desse binário sejam corpos condenados à abjeção.

Algo que Hall, negro e jamaicano, frisa sobre o exotismo atribuído pelo Ocidente ao resto do mundo, é o fato de que todas as culturas e tradições são frutos de tensões, de assimetrias no poder, de disputas políticas, de modo que não se pode falar em tradição como algo que remonta ao passado, retirando daí sua legitimidade, mas algo que diz respeito a um conjunto de narrativas sobre o passado, leituras, apropriações e deslocamentos de hábitos e costumes, que têm por meta tanto a coesão social de um grupo, como a manutenção (ou contestação, dependendo do caso) das relações estabelecidas no interior desse grupo. Defender o véu sob a premissa de que “é uma tradição” não tem por objetivo qualquer relação com o véu, mas defender que são as tradições, ou seja, a persistência no tempo, que levam um hábito a atingir o status de legítimo. Defender o véu, repito, é defender o discurso da tradição como aquilo que se perpetua no tempo por alguma espécie de utilidade, de legitimidade ou de força, e que o fato de um hábito ou objeto “atravessar o tempo” é motivo suficiente para que o deixemos como está.

Não existem, por isso, culturas puras, já que a cultura é sempre fruto de deslocamentos e negociações internas. Além disso, estamos falando de um capitalismo integrado por meios de comunicação de rede e de massa, pelo fluxo de mercadorias, pessoas e signos, de apropriações e ressignificações. Estamos falando de burkas fabricadas na China, de muçulmanos que comem hambúrguer e ouvem Britney Spears. Num contexto de tantas mudanças, por quê é o corpo da “mulher” o lócus tão privilegiado da manutenção das tradições? Por outro lado, por quê é o véu a tradição privilegiada da crítica liberal?

Quanto à primeira pergunta, cabe às mulheres de lá responder, e não a mim. Quanto à segunda, eu tenho um palpite. Num momento histórico em que há uma bancada religiosa que se coloca no Estado como representantes de suas crenças, e não como empregados da máquina estatal (não que eu concorde com a democracia burguesa, vejam bem), é muito importante veicular mensagens tais como “o uso de véus não é uma opressão”, ou “o apedrejamento de mulheres adúlteras e homossexuais não é um problema, mas outra cultura que devemos respeitar”, ou ainda “uma mulher que afirma ter sido estuprada deve levar 100 chibatadas e casar com seu estuprador”. Porque estamos falando de pessoas que defendem uma “jesuscracia” que adorariam ser vistos apenas como uma cultura, um inocente e trivial arranjo de seres-humanos que não se pauta em relações vívidas de poder mas em tradições puras, legítimas e cristalizadas, que não cabe criticar, mas admirar em sua plena “outridade”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Gillette: uma oportunidade de pensar


O carnaval passou, o papa renunciou e caiu na folia, foi fantasiado de Lord Sith para a Disney, e a questão da Gillette e seu polêmico “para me pegar, tem que raspar” caiu no esquecimento. Porque afinal de contas, essa é a função do carnaval, né galera?! À parte da alienação, a questão já foi respondida em outros blogs, como a Lola e o Machismo Chato de cada Dia. Embora eu ache as respostas complementares, gostaria de fazer aqui a síntese do que nós achamos, e nos aprofundarmos teoricamente no assunto.

Primeiro, é necessário dizer de onde estamos partindo. Estamos partindo de dois livrinhos básicos e necessários para sobrevivência das subjetividades-mulheres nesse patriarcado que já vai longe. O primeiro é o Problemas de Gênero, da Butler, porque ele é a ampliação necessária de todos os livros que caem na armadilha (esse blog aqui mesmo já caiu várias vezes) de igualar mulher-cis a mulher, pasteurizando os matizes de identidades que surgem dentro dessa ampla subjetivação. Butler parte daquele ponto em que o feminismo cis estancou: se para Beauvoir o gênero (ela não usa essa palavra, usa apenas “mulher”) é cultural, o sexo é um atributo inegável do corpo. Ela opõe mulher(cultura) e fêmea(natureza), para concluir que as identidades femininas são fruto de uma cultura que tem dominadores e dominadxs, que nada têm a ver com o corpo – mas o corpo está lá. Butler, pós-estruturalista e muito baseada (me parece) nos estudos culturais, afirmará bombasticamente:

Se o caráter imutável do sexo é contestável, talvez o próprio construto chamado “sexo” seja tão cultural-mente construído quanto o gênero; a rigor, talvez o sexo sempre tenha sido gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma.

O segundo livro, O mito da beleza, é um livro que deve ser lido fazendo-se as devidas observações sobre o fato de que trata a subjetividade “mulher” sem ampliar muito o escopo da palavra. Mulheres negras, lésbicas, trans, talvez não se sintam tão contempladas com os exemplos dados no livro quanto eu, que sou branca, mas acho que a tese central do livro é bastante válida e de longo alcance: “o padrão de beleza é um padrão de comportamento”.

Muito se tem problematizado sobre a serventia do padrão de beleza. Algumas dizem que se trata apenas de uma maneira a mais que a burguesia inventou de ganhar dinheiro. Essa reflexão é importante porque adiciona o fator “classe” à questão de gênero, fator este que Butler e a teoria queer em geral não têm problema em sublinhar. Questionar quem se beneficia ou mesmo cria os padrões é necessário, mas não é suficiente. A grosso modo, a beleza como um fazer que demanda a identificação visual de um indivíduo com um padrão inteligível culturalmente, pode ser qualquer coisa: poderíamos ter um padrão segundo o qual a gordura fosse considerada bela, ou lindos cabelos roxos com purpurina, ou cabelos no peito, cabeças raspadas, etc etc. Então, por que o padrão de beleza é tão exato e tão estreito: brancura, lisura nos cabelos, magreza e pele sem pelos? O que estou propondo é que a própria estética tem uma função – e Naomi Wolf, autora do Mito da Beleza, concorda comigo.

Segundo ela, o padrão de beleza com o qual nos deparamos é um backlash, isto é, é uma reação programada e pensada pelas tradicionais instituições do patriarcado para solidificar ou restabelecer poderes que estavam ameaçados pelo avanço feminista. Para Wolf, quanto mais avançamos nas nossas conquistas, mais o padrão foi se tornando impossível de ser atingido. “As qualidades que um determinado período considera belas nas mulheres são apenas símbolos do comportamento feminino que aquele período julga ser desejável”, diz ela; e se tomarmos por exemplo o nosso padrão, que inclui fome para atingir a magreza, depilação para atingir a pele “macia e lisinha” que teoricamente é natural àquelas que temos vagina, esticar-puxar-tingir-alisar-queimar­ os cabelos para que fiquem louros e lisos (e reparem que hoje em dia nenhum cabelo é suficientemente liso, e mesmo que você seja japonesa corre o risco de te oferecerem uma chapinha, só para controlar o frizz que você não tem), o resultado dessa somatória infinita, aqui reduzida, é transformar o corpo, potência de prazer, em um conjunto de territórios legíveis em termos de gênero e identidade, lócus de dor. Toda a potência que temos de gozar do nosso próprio corpo nos é tirada quando aprendemos que a dor é necessária e desejável, pois nossos corpos não têm outro valor senão na medida em que correspondem a esse padrão. Por último, e aqui fica a observação terceiro-ondista da coisa: esses não são elementos que oprimem as mulheres, são algo mais profundo ainda. Esses elementos nos criam enquanto subjetividades-mulheres que assimilam que seu corpo é um lugar de dor, vergonha, sujeira (pelos), doença (gordura, a cada dia mais patologizada) e feiúra (envelhecimento), e que nós temos que nos contentar com qualquer coisa que queira transar conosco, porque nós não somos perfeitas. Não à toa, a mesma cultura que produz um padrão de beleza assim, produz pessoas como Rafinha Bastos, que professam por aí que, se nós formos estupradas, é melhor aproveitarmos, pois é a nossa única chance de sermos vistas como corpos aprazíveis.

É aqui que eu queria conversar com os meninos que se sentiram ofendidos com o anúncio da Gillette. Esqueçam esse comercial: ele certamente não fala por nenhuma feminista. Nós, que conhecemos de perto a rotina de vergonha, medo e dor compreendida no ritual dos pelos, no infinito ritual de lutar contra o próprio corpo para atingir um padrão sobre o qual nosso poder de intervenção é diminuto (mas ainda um poder! Exerçamos!), não desejamos isso a ninguém. Por nós, aquele comercial nunca teria existido: todavia, agora que ele existe, partamos dele para uma reflexão. Agora que seus corpos foram colocados no lugar de abjeção, feiúra e sujeira onde os corpos de bilhões de mulheres sempre estiveram, pensem em todas as vezes que vocês teceram comentários maldosos ou sentiram repulsa de corpos assinalados como mulheres que não correspondiam a esse padrão corpo-sarado-pele-lisinha que vocês se acostumaram a chamar de belos. Rapazes, acabou a desculpa, não há motivo para desejar que suas namoradas raspem as axilas, as pernas, ou qualquer outra parte do corpo, se vocês não estão dispostos a fazê-lo. Agora que compreendemos que o próprio corpo é um investimento simbólico de estéticas que assinalam os comportamentos de gênero que nos são impostos por uma sociedade patriarcal, agora que sabemos que o padrão Gillette macia-e-lisinha tem uma função política na aceitação das mulheres de que vieram a este mundo sofrer e servir, joguem na lixeira, junto com a Gillette, esse hábito de impor aos corpos bio-politicamente assinalados como mulheres um padrão que agora vocês entendem.

Como íamos dizendo, o padrão de beleza é um padrão de comportamento. Aproveite o espaço aberto à reflexão para pensar: até que ponto, também, os homens incomodados não se sentem assim por conta de uma inversão (que se prova falsa no final) de papéis, ou pela assunção de um papel presumidamente feminino? Quero dizer: numa cultura que tradicionalmente territorializa os pelos como “masculinos” e a falta deles como “femininos”, será que isso não os incomoda por impor um comportamento que vocês vêem como pejorativo? Ou ainda, os sujeitos que narram o comercial são mulheres-cis consideradas lindíssimas: será que o fato de elas recusarem os corpos dos homens, ou se colocarem numa posição em que podem escolher entre ficar ou não com vocês, não fere a noção tipicamente masculina de que toda mulher está a priori à disposição do seu desejo?

Calma, gente, estamos chegando ao final. Uma das coisas importantes é relembrar que essa inversão de papéis é falsa. Para isso, basta analisar o desfecho da peça. “Pra me pegar, quero ver raspar”, isto é: as lindas mulheres cis ainda são apresentadas na qualidade de propriedade privada que os homens podem obter mediante um comportamento X qualquer. Então, a inversão de valores estabelecida ao longo da narrativa termina, e a raspagem dos pelos do peito sai do campo semântico da feminilidade e ingressa no da masculinidade na medida em que os corpos femininos são assegurados àqueles que abraçarem o tal comportamento. Outra comparação válida é procurar o argumento usado para vender aos homens (depile-se e ganhe esta linda mulher) e o que se usa para nos vender os mesmos produtos ou semelhantes. Enquanto para os homens a “peito liso” vira sinônimo de “mulher troféu”, os comerciais de cera, lâminas e antitranspirantes nos dizem que o uso desses produtos é o que regula nosso direito de ir e vir, como no comercial abaixo: até um desodorante manda no meu corpo!



Enfim, rapazes, fico por aqui. Com um convite: abandonem a hipocrisia e venham para o lado feminista da força. Acho que a Gillette já deixou claro que essa também é uma luta de vocês (embora não da mesma forma, sem homexplicanismo e sem colocar no mesmo patamar o nosso sofrimento e o de vocês, pfvr!).

domingo, 27 de janeiro de 2013

Será que seu discurso está ajudando alguém?

Era uma vez Eu, aos 12 anos, descendo uma rua de Pendotiba. Este bairro, onde ainda moro, é ainda composto hoje de grandes casas de classe média, interrompidas por longos terrenos baldios, ruas sem asfalto ou iluminação pública. Eu estava a caminho da casa de minha amiga Julia, a dois quarteirões da minha: quinze minutos de caminhada serena, de uma solidão quase ininterrupta. Cabelos cacheados ao vento, fazendo um mafuá (como diria minha mãe), um short jeans curto, uma camiseta. Tênis, e nada mais.

Um homem veio subindo a rua, empurrando a bicicleta. Short, um sorriso, um banco que eu nunca vou esquecer, com escudo do flamengo e umas franjinhas vermelhas. Ele me disse Boa Tarde, sorrindo, e eu respondi, sorrindo. Ele me disse que eu era linda. E eu, que vivia sofrendo na escola por ter "cabelo de preto", por ser gordinha, por ser sardenta, sorri sem pensar. E agradeci. Ele perguntou: posso chegar perto de você? Pra conversar... e eu deixei.

Ele segurou meu braço. Ele me olhou nos olhos, eu percebi o que ele ia fazer, porque aquele short que parecia mais uma cueca samba-canção era a única coisa que o vestia. Seu corpo reagiu ao meu. Não era só uma conversa. Ao nosso lado, um terreno baldio. Só.

Eu gritei e chorei. Disse que minha amiga sabia onde eu estava, e estava me esperando. Que se ele fizesse alguma coisa, meu pai ia saber; que a mãe da minha amiga estava vindo me buscar, bem naquela esquina ali na frente. Que se ele fizesse alguma coisa, todo mundo ia ficar sabendo; ele soltou meu braço e eu corri, como nunca. Fisicamente ilesa, mas psicologicamente transformada. Isso aconteceu quando eu tinha 12 anos; eu levei outros 14 para finalmente acreditar que a culpa não era minha.

Sim, faço minhas análises a partir de minha vivência individual porque, como já vaticinou nossa Carol Hanisch,  "o pessoal é político". Posso tranquilamente analisar, daqui do meu lugar de fala, todo o patriarcado, porque não há nada, nada mesmo, de pessoal na minha história: ela se repete todos os dias, agora mesmo enquanto falamos, com milhares de garotas, de novinhas ao redor do mundo, que não sabem o quanto seus corpos são sexualizados. Que não se dão conta de que vivem no mesmo mundo onde livros como Lolita são lançados todos os dias, reforçando o estereótipo de que meninas de 12 anos, como eu, que brincam de boneca escondidas, como eu brincava, têm perfeita noção do quão sensualizadas são em seus corpos imaturos, de que meninas de 12 anos têm perfeita noção do mundo e dos valores que as cercam, e "brincam" com isso, que seduzem. Eu contei a história para poucas pessoas, poucas mesmo, e na época a recepção foi a mesma que milhares de garotas têm, diariamente, ao redor do mundo: "por que você se vestiu assim?", "por que você estava sozinha?", como se meu corpo não fosse meu, e eu pudesse perder o direito à minha integridade física e psíquica à proporção de um mau comportamento. E quem o definiu como mau?

Digo isso porque, recentemente (mais uma vez... será que eu não aprendo?) tive uma conversa desagradável com uma feminista que repercutiu a seguinte mensagem:


Trata-se de mais uma dessas críticas "bem-humoradas" e cheias de boas intenções que procuram orientar as meninas sobre os conteúdos machistas das músicas que consomem ou dos comportamentos que reproduzem. Só que não tem nada de novo no enunciado acima, nem de diferente do discurso patriarcal, segundo o qual "se você está ouvindo Mr. Catra, então você está querendo", como se as meninas que ouvem e o Mr. Catra protagonizassem em pé de igualdade, horizontalmente, a produção do discurso misógino de suas músicas. O discurso acima, como muitos outros que têm circulado livremente, aclamados no FaceBook e outras mídias, não problematiza a desinformação das meninas, a mídia que as coloca reiteradamente como pedaços de carne, a agressão simbólica que resulta da quantidade de corpos "femininos" despidos, em contraste com os corpos "masculinos" que não precisam tirar a roupa para se legitimarem ou valorizarem.

A minha opositora reclama que estou chamando as meninas de burras. Não estou: estou dizendo que são desinformadas. Que enquanto elas lêem Crepúsculo, aprendem a se casar virgens, aprendem que amor é para sempre, eles assistem filmes pornográficos altamente violentos, não raro com meninas menores de idade sendo literalmente comidas por homens adultos. Estou dizendo que, enquanto os filmes de aventura são protagonizados por homens sempre escolhidos para grandes missões que não raro incluem salvar o mundo (Matrix, Star Wars, sem falar em todos os super-heróis), a indústria cinematográfica reserva a nós, possuidoras de buceta, os famosos filmes água-com-açúcar, comédias românticas cuja saga épica consiste na missão de malabarizar emprego, filhos e amor. Nada de salvar o mundo, para nós: nossa maior aventura é conquistar o vestido branco, e qualquer violência que soframos no caminho é nossa culpa.

Nenhuma de nós nasceu feminista. Nosso caminho é longo, árduo, pavimentado ora com leitura, ora com discussões como esta, ora com experiências dolorosas que, não raro, preferiríamos não passar. Não parta do princípio de que o patriarcado é tosco e auto-evidente: se assim o fosse, as pessoas naturalmente descobririam seus problemas, sem o auxílio de feministas ou de quem quer que seja. Dizer que "as mulheres não são totalmente inocentes, elas sabem o que estão fazendo", e dizer que o patriarcado as protege de alguma forma, oferece-lhes ainda alguma vantagem, e que nós nos beneficiamos ao reproduzi-lo - coisas que em definitivo não são verdadeiras. Dizer que estamos levando vantagem é fazer coro com aqueles pseudo-cavalheiros que beatificamente vivem dizendo "quer ser independente, mas quer que paguemos a conta", ou (mais ridículo, mas juto que ouvi) "é feminista, mas tem medo de barata". Será que seu discurso está ajudando alguém? De que lado você fica?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"São Pedro é do babado", afirma MCB

Tenho para mim que o jornalismo já deu. Aquela época oitocentista em que era possível pensar um discurso emanando de si mesmo em perfeita conformidade com o Real, uma objetividade cirúrgica capaz de recortar o registro linguístico das condições objetivas que o causam e determinam, limando o Sujeito da enunciação e deixando apenas um enunciado que fosse pura Verdade, acho que tudo isso está um pouco abalado. Acho que já ficou claro que a sensação de que estávamos diante de um discurso não-assinalado, portanto direto, específico, objetivo e universal, era a consequência política de esse discurso ser produzido por um conjunto restrito de indivíduos que assinalaram a si próprios como não-assinalados e universais. Preciso explicar que este sujeito é homem, branco e heterossexual? Acho que não.

Mas fico também pensando que esses consensos acadêmicos, que já me são tão enfadonhos de repetir, conservam algo de inovador para a maior parte da população do nosso país. Um país que recebeu a segunda onda feminista em plena ditadura militar, cujas políticas anti-racistas estão tão atreladas ao governo (e qualquer ativista do movimento sabe que essa é uma faca de dois gumes, embora traga benefícios inegáveis, e que não cabem a mim, branca, decidir), não foi um amplo palco de discussões acaloradas sobre a impossibilidade da objetividade do discurso. Aliás, muita gente deve se perguntar (nossxs leitores não, eu acho): mas o que é discurso, o que você quer dizer com sujeito, do que é que você está falando...?

Ao ponto: estava eu, feliz e contente informando-me sobre o mundo-cão que nos cerca, quando me deparo com essa notícia "engraçadinha" no jornal:


Diante do que, imagino, foi uma incrível falta de pautas relevantes... aliás, o que é pauta? Pauta é o que um bando de homens burgueses, brancos e heterossexuais, sentados em torno de uma mesa, decidem que nós, a massa trabalhadora falida e fodida, tem que engolir junto com o pão-com-manteiga (vegana, claro) antes de sair para matar mais um leão (coitado). É o que os editores de um jornal recortam, a partir de seu próprio olhar, como relevante acerca dos acontecimentos do mundo, preservando seus próprios privilégios. Porque, se houvesse uma agência feminista de notícias, não falta pauta: são umas dez por dia, mortas por namorados, esposos, "amigos", "admiradores", 6 estupradas por minuto, é a bancada religiosa aprovando dia de lutar contra o aborto. Mas isso não é pauta, não é notícia, não para esses homens: pra eles, notícia é a orientação sexual do Santo Meteorológico. 

Tive que fazer uma postagem sobre isso, que não poderia ser um exemplo mais emblemático de "violência simbólica". Toda violência simbólica, isto é, aquela da ordem da linguagem e de suas estruturas (Saussure mandando um alô pra galera), é aquilo que não só acontece nos/através dos signos, como é aquilo que se inscreve em estruturas consolidadas de poder para enfim ocultar os interesses implicados no texto. A matéria de jornal, como qualquer texto, não é um circuito interpretativo fechado, mas apenas um patch na colcha, na infinita colcha de retalhos da cultura. Assim, a palavra também não é um universo fechado de significações, mas é aquilo que coloca em movimento a teia paradoxal dos sentidos instituídos e daqueles que ainda estão por vir. De tal forma que, não é ultra-interpretativo supor que o excerto de jornal supracitado seja homofóbico: ele é, pois se inscreve num mundo no qual o arco-íris é um símbolo de uma luta, e "indecisão" é a maneira cotidiana como a nossa subjetividade é relegada à invisibilidade, á patologia, e à morte por assassinato em becos escuros e ruas desertas.



domingo, 20 de janeiro de 2013

Mark: Posso falar com vc?
Jenny: Sim...
Mark: Queria tanto que tivesse algo que eu pudesse fazer...
Jenny: Não acho que tenha nada que vc possa fazer. Acho que vc já fez!
Mark: Quando eu me mudei pra cá, eu era o tipo de cara capaz de fazer coisas assim, mas não sou mais esse cara! Sei que já falei antes, mas vc e a Shane me tornaram um homem melhor.
Jenny: Foda-se Mark! Não é minha obrigação te tornar um homem melhor! E eu tô cagando se te tornei um homem melhor! Não é a porra da obrigação de uma mulher ser consumida, invadida e cuspida pra que um merda de um homem evolua!
Mark: Não foi o que eu quis dizer.
Jenny: Então que porra vc tá falando, Mark? Me dê um motivo pra vc achar que eu deveria te perdoar.
Mark: Porque eu cometi um grande erro, Jenny! Mas desse erro eu aprendi como é difícil ser uma mulher!
Jenny: Faça-me o favor...
Mark: Espere... Jenny... Hey... Olha isso... 
(Mark tira a roupa)
Jenny: O que vc está fazendo?
Mark: É isso q vc queria?
Jenny: Não... O que eu quero é que vc escreva "Me fode" no seu peito! Escreva! Faça isso! Depois eu quero que vc saia por aquela porta e ande pela rua... E se qualquer pessoa quiser te fuder, vc diz "claro", "claro", "sem problema". E quando eles te fuderem, vc tem que dizer "muito obrigado"! E não se esqueça de ter um sorriso no rosto. Aí, seu covarde estúpido de merda, vc saberá como é ser uma mulher!



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

POR QUE MULHERES CASADAS NÃO ESCREVEM DIÁRIOS , uma conversa com Julio Cortázar


Tirar manchas de bolor em banheiro: Em um balde, misture uma colher de sopa de detergente, um quarto de produto alvejante (água sanitária) ou anti-séptico e três quartos de água.Aplique a mistura diretamente nas paredes, teto, cortinas ou outras partes afetadas e deixe agir por 5 a 10 minutos.
Vista luvas nas mãos e esfregue a área com uma esponja molhada em um pouco de água. Se precisar limpar as arestas entre os azulejos, use uma escova de dente velha. Enxágüe bem e passe um bactericida ou fungicida na área, deixe agir por 5 a 10 minutos para "matar" o que sobrou dos fungos
Enxágüe bem e abra as janelas e portas para arejar o ambiente e secar.
Para evitar que o mofo volte a aparecer, é preciso arejar o ambiente, já que a umidade é o principal fator facilitador para a propagação dos fungos, que causam o mofo. Por isso, abra as janelas do banheiro diariamente, principalmente as do box (chuveiro).
Atenção: Não deixe que a mistura usada para retirar o mofo entre em contato com tecidos ou carpete. Limpe os sapatos que você estiver usando, antes de sair do banheiro e pisar em outro ambiente da casa.
                                                           
                                                           “Olhar pro sol, só ver janela e cortina”
- Nando Reis


Há pessoas que olham para além das coisas. Todos nós temos a capacidade, especialmente na infância, de relaxar os olhos e passar da parede opaca, do objeto que se coloca ao nosso olhar, para algo distante, atrás da imagem física que reflete a luz captada pela retina. E nesse momento, sem saber, ou às vezes sabendo, nós despencamos no Ser e ali nadamos, vagamos pelas memórias, ou antes as memórias passam por nós, como o RNA passa pelo ribossoma, essa entidade passiva leitora que decodifica e decodifica, sem interpretar, sem alterar a obra do código genético.

Donas de casa não fazem isso.

Olhava para o azulejo ao seu lado, perplexa. Sentada sobre a tampa da privada, pois sob o pretexto das funções fisiológicas, o banheiro é o último lugar em que a dona de casa pode se olhar em todas as qualidades de espelhos, físicos, psíquicos. Quanta brancura!, pensava deslumbrada, aquela superfície de porcelana tão homogênea, milagrosamente homogênea, que parecia ter despencado do mundo dos sonhos de todas as donas de casa, mediado pelas mãos de um arquiteto demiurgo, para materializar-se assim à sua volta, tão límpida, pura e branca. Quanta sinceridade naqueles azulejos, que limpava um a um com Veja Desinfetante, em movimentos lentos, circulares, o paninho cheiroso, a superfície reflexiva que, bem de pertinho, refletia o seu sorriso. Era alguma coisa divina. Contemplava assim, primeiro o conjunto da parede, depois individualmente os quadrados brancos, e deleitava-se com o fato de não haver individualidade. Fora marxista, ela, lembrava-se agora de Trotsky a dizer, acerca da dialética, que não existem dois objetos iguais, que nenhum objeto é inteiramente igual a si mesmo, mas Trotsky, pensou ela agora dando-se um luxo de filósofa, Trotsky não era dona de casa! E olhava, conferindo um a um, a maravilha da produção em escala industrial, aqueles objetos idênticos a si próprios e aos azulejos adjacentes. Aquelas coisas mortas, imóveis, previsíveis, maravilhosas. A imagem do equilíbrio.

O rejunte... que beleza, o rejunte! Feito de massa corrida bem branquinha, a equipe do engenheiro que executara a obra trabalhando sob o chicote do seu olhar. Entrava assim mesmo, de avental e luvas de borracha na obra, bobs no cabelo, e dizia sem se fazer de entendida, “quero tudo direitinho”. Traiçoeira escolha, a massa branca rapidamente mofa sob a umidade elemental do banheiro, e depois de muito testar diferentes produtos achou na internet uma receita infalível. Imprimiu, guardou numa gaveta sobre artigos feministas e livros de teoria econômica, pois lhe pareceu que nunca antes na história da humanidade o bolor havia sido vencido de forma tão definitiva, triunfal! Observava o triunfo do rejunte perfeitamente branco, que lhe custara dias de vapores tóxicos e uma pequena escova de dentes. Trabalho milimétrico, admirava o rejunte como largas estradas onde seu olhar voluptuoso deslizava. Nas grandes retas, deixava o olhar escorregar, pegando velocidade, sentia o vento de alvejante nas narinas, o cabelo bater-lhe no rosto. Ao sentir a aproximação de curva fechada, toda prudente, tinha o prazer de passar a marcha, sem esquecer da embreagem, desembestava-se por uma nova reta, paralela ao chão, onde não se pegava tanta velocidade assim. Um vale entre dois penhascos de louça branca. No horizonte, um blindex.

Ergueu a mão, o fino dedo. As substâncias de limpeza haviam lhe comido, primeiro, o esmalte. Em seguida, mesmo sob a luva, as impressões digitais. Ergueu a mão, o fino dedo, e com muita ousadia, colocando em jogo a impecabilidade da limpeza, quis percorrer com o tato aquela linha branca tão perfeita. Foi até a quina da parede e, com o dedo, escolheu um dos sulcos entre duas fileiras de azulejos. Gostou do toque, frio nas bordas, mas no centro um pouco mais morno. O rejunte não acumulava o frio. E foi assim, um pouco temerosa a princípio, apreciando o toque, para despencar no amor à velocidade. O banheiro, um borrão à sua volta, e um baque: no auge da ousadia, esborrachou-se contra o blindex.

domingo, 23 de setembro de 2012

Cacos de vidro vermelho

Eu queria fazer um verso pra você musicar
eu queria fazer um verso pra eu cantar
eu queria que você tivesse lá pra me ouvir
eu queria que você fosse o primeiro a me aplaudir
eu queria jogar fora o rosto de boneca que você tentou me vestir
eu queria me transformar naquilo que me agrada
naquilo que me faça rir
mas foi impossível
foi impossível
foi impossível
foi impossível

a rima ficou perdida
o falsete se perdeu no ar
as notas da minha voz se perderam em alguma vida passada
alguma vida de merda talvez tão merda quanto essa
o grito rouco e desafinado nunca me pareceu tão melódico
porque é isso o que eu escuto
só isso o que eu escuto
um estrondo rouco, desafinado, melódico
o som, aquele som
aquele som

você nunca tentou compreender
achou que era tudo pessoal
(risos)
talvez fosse mesmo
o que não é pessoal?
se eu tô aqui vivendo, é porque se tornou pessoal
sempre foi pessoal
nós é que levamos tempo demais pra perceber
levamos tempo demais pra entender

eu queria crescer e me transformar em tudo aquilo que você me fazia temer
eu queria crescer pra jogar meu molotov naquele corpo que você me fez usar
eu queria crescer pra lamber o veneno que escorria daquela ferida aberta
eu queria crescer pra quebrar aquele copo vermelho
copo vermelho
copo comprido, vermelho

é que você não entende
não entende a nota que eu canto
não entende o falsete na minha voz
não entende o rasgado nas minhas roupas
não entende a calcinha velha e manchada de menstruação
não entende os óculos sujos e velhos
(risos)
não serei eu a te explicar nada agora

agora tudo ficou pra trás
toda a vontade, todo o desejo
tudo virou raiva
todo o desejo de um dia ver você na primeira fila
se tornou ódio e vontade de te chutar pra fora daqui
vontade de gritar e fazer o amplificador explodir
é que de repente eu entendi
eu entendi que jamais fui daqui
todo o pensamento macabro
toda vontade de suicídio
todo sangue que tive vontade de ver escorrer
todo grito sufocado
todo gozo escondido
tudo legítimo!
Violentamente reprimido!
Violento é você
violento era o rosto de boneca que você queria que usasse
violento era o batom fálico que você queria manchar meus lábios
violento é o corpo enquadrado que você ainda quer que eu vista
violento é essa merda que você chama de amor

eu quero gritar do jeito que eu quiser
quero dizer que já cresci
cresci e me tornei tudo aquilo que você me fazia temer
cresci e jogo um molotov por dia nesse corpo que você queria que eu usasse
cresci e uso minha língua pra lamber
lamber gozos que escorrem de fendas abertas em corpos
corpos bem diferentes daqueles que você queria pra mim
(risos)
minha vida são cacos de vidro vermelhos...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Era uma manhã de sábado, perdida em um março do tempo.


Sobretudo, despedia-me de seu corpo. Daquelas ondas castanhas que se derramavam sobre os ombros, dos olhos verdes que expressavam sua amável burrice. Seus lábios finos e suas mãos delicadas desenhavam no ar palavras e gestos inúteis que me pediam para ficar, para continuar, para lhe dar uma nova chance. A. erguia-se diante de mim como uma dupla criatura: sua personalidade odiosa, sua teima em que deveria domar-me e conquistar-me, sua certeza inabalável de que seu corpo deveria ser o primeiro e o último de minha vida. Esta era a Letra A. que eu queria matar, a dentadas, cravando garras e dentes em seu frágil pescoço. MAS aqui entrava a segunda letra A., aquela fragilidade tão linda, ossos que eu podia enrolar com o fechar de uma mão, aquela língua com a qual a minha já tanto dançara e tanto mais gostaria de dançar. Porém, era impossível estar com aquele corpo A sem que a pessoa A fizesse parte de minha vida; e entre ser infeliz ao lado de um belo corpo, e tentar a sorte da felicidade na obscura senda da solidão, disse-lhe adeus pelas grades, abraçando o desconhecido. Não tornaria a vê-lA por anos depois deste evento.
Era estranho como seu corpo continuava a habitar notas de música, pedaços de papel. Olhava, encostado à parede, um velho disco de vinil que comprara naquela estranha semana em que nos conhecêramos. Os beijos dados no sábado alimentaram-me até a quarta-feira, e como uma máquina movida a um novo combustível, eu vivia de suspiros, caminhando apenas com os dedos dos pés sobre a freqüência imaterial da paixão. A melhor semana de nosso namoro havia sido aquela primeira, quando A não passava do conjunto das lembranças de uma noite selvagem, quando eu podia sonhar que A era o ente imaginário ao lado do qual eu poderia passar, descansada, o resto de meus dias, sem fazer qualquer esforço para ser feliz. Percebia, olhando o velho vinil um pouco entediado, que a letra A de quem eu sentia tanta falta era aquela que havia, durante oito dias, vivido em minha imaginação, correndo solta pelas páginas dos diários, aquela letra A que eu desenhara, tão sonhadora, no quadro da sala de aula.
Era uma manhã estúpida de sábado, em um março hoje perdido. O Yes desenhava sua psicodelia arco-íris berrante em minha sala, e dos escombros de uma relação que nascera falida brotava, paradoxal, a flor da felicidade. Observava o quintal de maneira desinteressada quando a beleza do mundo me arrebatou, sacudindo-me pelos ombros: a grama era verde, o céu era azul, o cachorro negro e a borboleta amarela. Todas as cores redescobertas dançavam ao vento o som de um rock esquecido; meu rosto, pousado sobre as mãos na janela, olhava imóvel, enquanto meus quadris – independentes! – desenhavam lenta e persistentemente o infinito no ar. Contra todas as hipóteses. Contra tudo o que me disseram. A felicidade forçava sua entrada trazendo pela mão a companhia de todas a mais inusitada: a Solidão. De todos e todas as criaturas do mundo, aquela cuja companhia havia sido terrivelmente amaldiçoada pela Tristeza e pela Loucura, ela se tornara subitamente a mais macia e agradável.
Não fazia muitos dias, comprara um livro de Bakunin. O Anarquismo entrava, brilhante, em minha vida. Não havia um método, não havia um caminho; a liberdade era uma certeza para a qual nossos pés deveriam caminhar com debilidade, debilidade e dor, mas se se conservasse como princípio a premissa de que qualquer poder era abominável, só poderia dar certo. Só se poderia, irremediavelmente, chegar “lá”. Embora Baku não trouxesse em suas linhas qualquer nota sobre feminismo, não me seria difícil diagnosticar o que havia de tão odioso em A: sua vontade de dominar-me, fazendo do amor um cativeiro ideológico, aprisionando meu corpo aos seus desejos. E então, pela primeira vez em 18 anos, pensei e senti coisas que poderiam muito bem não terem sido sentidas e pensadas, se não fosse o acidente cósmico de em minha vida terem entrado um livro, uma música e uma pessoa. Do alto de meu ateísmo, nunca antes mais forte, percebia que meus pensamentos não eram o resultado imediato da leitura de umas 15 páginas, mas a fermentação última de uma reação que começara em minha infância, mas que acontecera dia a dia em minha vida. Manhã após manhã, secretamente, crescera em mim uma estrela, e essa estrela era a certeza brutal de que a felicidade não estava no casamento – fosse com um homem, com uma mulher, com um objeto, com um animal. Eu tentava recobrar exatamente quem e quando me havia dito que eu era apenas a desgarrada contraparte de outro humano; quem me orientara a vagar, a errar em busca de outro, ao lado de quem minha vida poderia ser considerada finda; essa pessoa estava errada.
Começaria aí uma saga. Não sem volta, tampouco certa e linear como parecem os caminhos espirituais que lemos ou que imaginamos, acerca dos santos e dos sábios. Isto, porque não se tratava de um caminho espiritual, mas eu diria que se tratou exatamente do contrário: assim começou meu caminho político. Ele era, ainda é, indiscernível de minha vida pessoal, dos meus amores, dos meus dissabores; eu não poderia ter-me tornado anarquista sem, simultaneamente, tornar-me descrente no amor; nem poderia amar a mim mesma, se naquele momento não tocasse aquela música. A vida é um acidente: se tragédia ou aventura, não se trata da qualidade dos acontecimentos, mas da qualidade de nosso olhar.
Era uma manhã de sábado, perdida em um março do tempo.