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domingo, 14 de julho de 2013

Você não deve nada a seu agressor - abuso psicológico em relações heterossexuais*

*Depois de escrever este texto, conversei com algumas amigas para conferir se essa situação se restringia aos relacionamentos heterossexuais e concluí que não. Relacionamentos abusivos estão presentes entre gays, lésbicas, pessoas trans*, de forma que, mesmo que você não seja HT, muita coisa seja válida. Ainda assim, como não conversei com um número muito grande de pessoas, optei por deixar o texto como está.

Cerca de uma semana atrás, muita gente ficou chocada quando o desembargador Sidney Rosa da Silva declarou que o caso de violência de gênero de Luana Piovani e Dado Dolabella não poderia ser enquadrado na Lei Maria da Penha uma vez que a referida atriz teria condições materiais suficientes para não ser dependente de seu agressor. Sutilmente, como convém ao idioleto legislês, Sidney afirma que, para concluir que “é público e notório que a indicada vítima nunca foi uma mulher oprimida ou subjugada aos caprichos do homem", basta "uma simples análise dos personagens do processo", e fecha sua conclusão afirmando que a lei não pode proteger Luana uma vez que sua relação - de dois anos e quatro meses de namoro culminando em um noivado - com Dado não era estável. Ou seja: a justiça brasileira entende que a Lei Mari da Penha é a medida pela qual você premia uma mulher, de preferência morta, pela sua submissão. Tente andar na linha do patriarcado, ou quem vai ser julgada é você - ou só eu entendi que "uma simples análise dos personagens do processo" faz clara referência à vida amorosa pregressa da atriz?

Muita gente tem dificuldade de acreditar nessas situações. Ainda é muito difundida a ideia de que a única desigualdade que existe entre homens e mulheres é a econômica, e que uma vez esta superada, a sobrevivente é que é uma otária, que está tendo o que merece, ou na máxima Nelson-rodrigueana, "gosta de apanhar". Mas a gente sabe como nossas subjetividades são construídas, como somos representadas na cultura popular ou de massas: uma mulher, em termos de narrativas dominantes, só é completa na presença do Amor. Só somos seres plenos, nossas vidas só são válidas, se estivermos inseridas afetivamente num projeto de família burguesa que envolva a doação sem limites de nossos corpos e mentes para a empresa amorosa. Algo está dando errado? Você não está se empenhando. Você está apanhando? Dê a outra face. E nesse contexto misógino, nós somos as presas preferenciais de abusos psicológicos

Eu nunca vivi um relacionamento que tivesse violência física; mas passei por dois, um longo e um breve, que foram marcados por um abuso psicológico severo. Lendo outros relatos de pessoas em casos semelhantes aos meus, levantei algumas características que se apresentam no momento inicial da relação e que podem ser um bom alerta de que nós estamos caminhando para uma furada.

1. O cara sofrido que te conta a vida inteira no primeiro dia
Geralmente, isso nos comove. Quando se vive perto de narrativas como A Bela e a Fera, em que o poder na mulher é traduzido como o de mudar a vida de um homem, muitas pessoas se sentem empoderadas ao se pensarem como capazes de salvar uma vida. Então, o cara chega para você e conta de maneira detalhada e amplamente dramática como ele foi vítima das piores situações da vida: preconceito, pobreza, alguma grave desilusão amorosa, perda de pessoas queridas... O que importa nesta narrativa não é a veracidade dos fatos: tudo pode ser verdade. Mas a escolha dos eventos é sempre baseada num paradigma em que o homem é a vítima absoluta e inconsolável, e aquilo que o flagela, seja uma condição financeira, seja uma pessoa, está claramente errado. Isso coloca a virilidade dele aparentemente em xeque, e o fato de ele escolher você para se abrir tão completamente joga você em uma dívida que, pode acreditar, vai ser cobrada depois. Porque ele é muito sofrido e não pode sofrer mais; qualquer coisa que você faça de errado será a gota d'água, e essa história de sofrimento vai ser invocada muitas vezes para igualar você a todas aquelas coisas e pessoas que destruíram a vida dele.

2. A grande prostituta
É uma narrativa comum, mas não imprescindível: meus dois relacionamentos abusivos passaram por esse momento, então acho que vale a pena contar. Já ficou claro, naquele primeiro dia em que o cara contou sua sofrida história de paladino da justiça, que ele é uma jóia rara em meio a todos esses caras babacas que só querem usar você. Ele é diferente, sensível, seu coração um cristal que pode quebrar a qualquer momento e que agora está em suas mãos. Então ele vai, didaticamente, contar a você uma situação passada em que ele fez isso com outra mulher. Esta, por sua vez, só queria brincar com ele - porque, aparentemente, o mundo está cheio dessas bíblicas grandes-prostitutas que vivem sua vida em função da vida dos homens. Nossa função é roubar, matar e destruir corações de pobres cavalheiros... e você não quer ser como ela. Mais uma vez, o paradigma "eu não fiz nada de errado e fui vítima da mais completa injustiça" vai se repetir, e você vai receber o encargo de redimir o seu gênero demonstrando quão santa você é.

Essa narrativa geralmente é falsa. No meu caso, foi um caso típico de friendzone, isto é, o cara tratou uma garota como um ser humano e daí concluiu que toda a sua cortesia tinha se transformada numa dívida sexual. E quando ela simplesmente o via como ele se comportava, "como um amigo", o cara ficou decepcionado, saiu falando coisas sobre ela para todas as mulheres com quem ele passou a se relacionar depois.

3. Você também é uma grande prostituta, mas eu perdôo você
Este não é seu primeiro relacionamento; no meu caso, não apenas não era o meu, como eu vinha de uma experiência de relacionamentos abertos, múltiplos relacionamentos simultâneos ou relacionamentos monogâmicos de curtíssima duração. Meu agressor, num primeiro momento, não condenou frontalmente meu comportamento, mas declarou que não gostaria de estar num relacionamento aberto. Eu propus uma monogamia temporária (gente, isso nunca dá certo), e neste momento ele deu a entender que, como minha natureza não era monogâmica (wtf natureza, galera?), teria dificuldades em confiar em mim. Eu lhe dei um tempo para pensar, algo como uma semana, ao final da qual ele me perdoou. Eu achei, na época, estranha essa lógica do perdão, já que eu não tinha feito nada contra ele, nem nada de errado. E essa lógica do perdão entrega os pontos: o cara vê você como propriedade, estando apto a julgar seu comportamento como se você sempre tivesse pertencido a ele - como um senhor que, antes de comprar um escravo, pergunta sua história ao vendedor.

4. Declarações de amor viram megaeventos
Para essas pessoas, é muito importante fazer declarações públicas no local de trabalho, de estudo, no círculo familiar. Isso é tudo o que seus colegas e parentes vão ver, e que vai lhe render a reputação de "bom partido": assim, quando você por algum motivo quiser contar algo que ele tenha feito e te desagradado, você não vai obter confiança de pessoas que são especialmente próximas. Porque essas pessoas abusivas sabem que, para instalar uma situação difícil de se sair, vão precisar afastar você de círculos sociais que são importantes. Se o cara sente muita necessidade de transformar declarações de amor em megaeventos, desconfie.

5. Pequenos eventos viram megabrigas
Lembra daquela parte em que ele já sofreu demais nessa vida, e que não aguentava mais? Neste momento você descobre que aquilo era uma ameaça. Obviamente, quem vai definir os limites do que ele não vai mais aguentar é ele mesmo: mas a partir disso, qualquer coisa que o desagrade vai virar uma briga incontrolável e o assunto sempre vai chegar em um momento no qual ele vai levantar todo o histórico de dor e sofrimento da vida dele, e comparar ao seu histórico de grande prostituta que ele está fazendo o favor de perdoar. Ficando claro, também, que não tem perdão nenhum, porque o seu passado vai ser para sempre um trunfo e objeto de chantagem.

6. Ninguém vai te amar como eu te amei
E essas brigas vão acabar em lágrimas (muitas dele...), e com o relacionamento terminando. Ele vai pedir para voltar muitas vezes, senão na maioria. As brigas vão, ciclicamente, ficar mais e mais violentas, mas os retornos vão ficar cada vez mais épicos, grandiloquentes, cheios de promessas, e um discurso sempre muito articulado demonstrando quase cientificamente que ele entendeu o problema e é um novo homem. E você vai ouvir frases parecidas com as que eu ouvi. Frases aparentemente líricas, mas que não têm nada de legal. Eu ouvi muitas vezes "Ninguém vai te amar como eu te amei". Para uma moça que está acostumada a pensar que o grande objetivo de sua vida é ingressar no paraíso do Grande Amor, essa frase é uma profecia assustadora. Nessa frase está subentendido, de fato, que esse cara é perfeito; que tudo o que ele fez foi certo, foi lindo, e se por acaso ele errou alguma vez, foi um acidente; sobretudo, essa frase quer dizer que você não presta - seja porque é promíscua, "gorda" (o que é "ser gorda" senão o que o patriarcado diz que é?), "feia" (idem do adjetivo anterior), porque você é uma péssima mãe, amiga, namorada, seja lá o que for... E que ele é a sua tábua de salvação, sem a qual você vai acabar sozinha e seca para todo o sempre.

Se você tem uma amiga que desapareceu assim que começou a namorar; se você vê o namorado dela sempre fazendo peripécias grandiosas para demonstrar seu grande amor; se todas as brigas dela terminam com o relacionamento desmanchado, fique alerta e dê um toque. Falo dela em terceira pessoa porque, assim como eu, ela não deve achar que esse relacionamento é abusivo. Porque não, não é fácil saber: quando você está isolada das amigas, da família, e quando toda uma cultura enaltece o sacrifício amoroso como o único valor que a mente e o corpo de uma mulher pode obter, fica-se confusa, alienada, triste, e pouco apta a tomar decisões. Eu precisei de muita ajuda; durante meses eu não conseguia fazer certas coisas sozinha. Eu demorei a recobrar a confiança em quaisquer pessoas, inclusive aquelas que estavam me ajudando. 

No meu caso, o ciclo não chegou à violência física, mas pode chegar. E nesses casos, não importa o quanto a mulher receba de salário, porque a dependência e a opressão aqui envolvem as instâncias psicológica e sociais. Sim, essas pessoas precisam de ajuda - não reforce a ideia de que elas estão em dívida com seus agressores. Elas não estão. Você não está.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Homens, saiam da minha teoria


Um update pessoal...

Para ser sincera, eu sou uma pessoa desinformada: isso não é nada bom. Por saber que a mídia burguesa é, como qualquer conglomerado empresarial, um cartel de entidades político-econômicas comprometidas com o lucro via entretenimento alienado e alienante, poupo-me de ver televisão e não leio revistas ou jornais de grande circulação. É um misto de comodismo com um esforço sincero de não ser agredida em meus ideais sexo-políticos – do ponto de vista simbólico, qualquer emissora que veicule comerciais de produtos de limpeza abusa profundamente da minha assignação bio-política, e acaba por me agredir. Mas não, não está certo, embora, por hoje, seja o que está dentro das minhas capacidades.

Acabo me atualizando por outros blogs e por outras feministas. A quem pense que “assim você já está recebendo a notícia pelo viés político”, a “forma notícia” também não é uma forma de pensar politicamente um acontecimento? Na medida em que o recorte primeiro desta forma de narrar é “deixai à porta da mídia todas as marcas discursivas de sua opinião”, a notícia não é o mecanismo pelo qual uma visão política se traveste de evidência? Para mim, assim o é, de forma que receber as notícias por um olhar feminista muito me agrada.

Para me atualizar, o blog que leio é o da Lola. Com todas as críticas que se fazem dela, uma coisa é certa: o fato de postar todos os dias faz com que seja um método eficiente para me manter atualizada. E o contato com feministas de outras partes do mundo dá uma dimensão importante na luta contra o machismo, no sentido de termos noção das especificidades das lutas pelo mundo afora. Enfim, o post que eu gostaria de comentar é o bom e velho post sobre “homexplicar”: embora a maior parte de mis amigues já tenha lido sobre o assunto, do blog da Lola ou de fontes outras, acho que eu preciso ver essas palavras saindo de mim mesma, como a mais ateia e desiludida das preces. Para entender, preciso fazer essas palavras passarem pelas minhas vísceras neurais, torná-las parte do meu corpo e da minha identidade. E eu o faço através da escrita.

E vamos ao que interessa

Parafraseando uma blogueira estadunidense (aconselho que vocês leiam o post da Lola também), a autora diz:

 “Homexplicanismo não é apenas o ato de um macho se explicar; muitos homens conseguem explicar coisas todos os dias sem serem minimamente ofensivos a suas interlocutoras. Homexplicanismo é quando um cara explica a você, mulher, como fazer algo que você já sabe fazer, ou como você está errada a respeito de algo que você de fato está certa, ou apresentar 'fatos' variados e incorretos sobre algo que você conhece muito melhor que ele. Pontos extras se ele te explicar como você está errada sobre algo ser sexista!”

No caso da Lola, ela está visivelmente preocupada com o average man, a pessoa comum, o que, tendo em vista estarmos numa sociedade hetero-capitalista, acaba resultando no indivíduo com inclinações políticas liberais. Minha preocupação, contudo, é outra. Meu buraco é mais à esquerda.

Vivo, atualmente, cercada de pessoas que assim se reivindicam. Isso é excelente! Vivo em contato intenso com marxistas, anarquistas, enfim, pessoas comprometidas com o fim do capitalismo, cada uma a seu jeito, e que parecem entender perfeitamente o problema da opressão à mulher. São pessoas que, pelo menos em suas performances narrativas, se mostram não só simpáticas (hoje acredito que toda forma de simpatia é na verdade uma maneira disfarçada de apatia), mas solidárias, e sobretudo engajadas. Não se tratam de pessoas limitadas àquele tapinha nas costas, àquele go girl, ou à máxima “o mundo precisa de pessoas como você”. São pessoas que lêem, que estão do seu lado no dia-a-dia, que são o ombro no qual você chora ao final daquela discussão que você teve com a pessoa mais machista do mundo. Pessoas que citam trechos inteiros de uma Butler (uma? Será mulher?), Beauvoir ou Kollontai, que em assembléias e plenárias pegam do microfone para defender você com unhas e dentes.

E no entanto, se você pergunta para eles (sim, homens), onde está o problema, o problema está em todo lugar: é o capitalismo, é o machismo, é a exterioridade absoluta que nunca tem nada a ver com suas identidades. E aí você pega a galera na curva da contradição: são homens, isto é, corpos bio-politicamente assinalados a uma identidade de gênero relacionada com uma estrutura que os empodera, mas que em hipótese alguma consideram que a relação de poder passe por suas identidades, ainda que não parta delas individualmente. Pessoas que se comprometem a relações monogâmicas sem a menor pretensão de cumpri-las, enredando suas parceiras em relações instrumentais das quais visam a obter apenas uma confortável e perene fonte de sexo e afeto. Homens que gritam GOL e afirmam que estamos numa pátria de chuteiras, diante de uma indústria pseudo-esportiva que vive de alimentar (e ser alimentada) por um modelo violento de masculinidade (aliás, existe modelo não-violento de masculinidade?).

E o que acontece quando você coloca os machos na parede e cobra respostas coerentes sobre o disparate deste comportamento é o mais fenomenal homexplicanismo: eles vêm com o caminhãozinho das mais diversas citações feministas e jogam na sua cabeça fazendo tudo soar com um incrível ineditismo! Eles se apropriam daquelas que são as suas armas para lutar contra a opressão à qual desde a ultrassonografia você está assinalada, usando este arsenal teórico, que é seu, contra você. Para manter todos os privilégios relacionados à sorte cósmica de terem nascido geneticamente com um cromossomo Y.

A esses homens, peço que me dêem licença e saiam da minha teoria. Ou antes, talvez esteja mais do que na hora de repensarmos esta miscelânia de gente que é a esquerda: que ela deixe de ser o signo da luta do homem branco pela liberdade de sua etnia, sua orientação sexual e sua identidade de gênero, e passe a ser o signo da luta contra toda e qualquer opressão. Para mim, se você não é feminista, simplesmente não é de esquerda. Fim de papo.