domingo, 27 de janeiro de 2013

Será que seu discurso está ajudando alguém?

Era uma vez Eu, aos 12 anos, descendo uma rua de Pendotiba. Este bairro, onde ainda moro, é ainda composto hoje de grandes casas de classe média, interrompidas por longos terrenos baldios, ruas sem asfalto ou iluminação pública. Eu estava a caminho da casa de minha amiga Julia, a dois quarteirões da minha: quinze minutos de caminhada serena, de uma solidão quase ininterrupta. Cabelos cacheados ao vento, fazendo um mafuá (como diria minha mãe), um short jeans curto, uma camiseta. Tênis, e nada mais.

Um homem veio subindo a rua, empurrando a bicicleta. Short, um sorriso, um banco que eu nunca vou esquecer, com escudo do flamengo e umas franjinhas vermelhas. Ele me disse Boa Tarde, sorrindo, e eu respondi, sorrindo. Ele me disse que eu era linda. E eu, que vivia sofrendo na escola por ter "cabelo de preto", por ser gordinha, por ser sardenta, sorri sem pensar. E agradeci. Ele perguntou: posso chegar perto de você? Pra conversar... e eu deixei.

Ele segurou meu braço. Ele me olhou nos olhos, eu percebi o que ele ia fazer, porque aquele short que parecia mais uma cueca samba-canção era a única coisa que o vestia. Seu corpo reagiu ao meu. Não era só uma conversa. Ao nosso lado, um terreno baldio. Só.

Eu gritei e chorei. Disse que minha amiga sabia onde eu estava, e estava me esperando. Que se ele fizesse alguma coisa, meu pai ia saber; que a mãe da minha amiga estava vindo me buscar, bem naquela esquina ali na frente. Que se ele fizesse alguma coisa, todo mundo ia ficar sabendo; ele soltou meu braço e eu corri, como nunca. Fisicamente ilesa, mas psicologicamente transformada. Isso aconteceu quando eu tinha 12 anos; eu levei outros 14 para finalmente acreditar que a culpa não era minha.

Sim, faço minhas análises a partir de minha vivência individual porque, como já vaticinou nossa Carol Hanisch,  "o pessoal é político". Posso tranquilamente analisar, daqui do meu lugar de fala, todo o patriarcado, porque não há nada, nada mesmo, de pessoal na minha história: ela se repete todos os dias, agora mesmo enquanto falamos, com milhares de garotas, de novinhas ao redor do mundo, que não sabem o quanto seus corpos são sexualizados. Que não se dão conta de que vivem no mesmo mundo onde livros como Lolita são lançados todos os dias, reforçando o estereótipo de que meninas de 12 anos, como eu, que brincam de boneca escondidas, como eu brincava, têm perfeita noção do quão sensualizadas são em seus corpos imaturos, de que meninas de 12 anos têm perfeita noção do mundo e dos valores que as cercam, e "brincam" com isso, que seduzem. Eu contei a história para poucas pessoas, poucas mesmo, e na época a recepção foi a mesma que milhares de garotas têm, diariamente, ao redor do mundo: "por que você se vestiu assim?", "por que você estava sozinha?", como se meu corpo não fosse meu, e eu pudesse perder o direito à minha integridade física e psíquica à proporção de um mau comportamento. E quem o definiu como mau?

Digo isso porque, recentemente (mais uma vez... será que eu não aprendo?) tive uma conversa desagradável com uma feminista que repercutiu a seguinte mensagem:


Trata-se de mais uma dessas críticas "bem-humoradas" e cheias de boas intenções que procuram orientar as meninas sobre os conteúdos machistas das músicas que consomem ou dos comportamentos que reproduzem. Só que não tem nada de novo no enunciado acima, nem de diferente do discurso patriarcal, segundo o qual "se você está ouvindo Mr. Catra, então você está querendo", como se as meninas que ouvem e o Mr. Catra protagonizassem em pé de igualdade, horizontalmente, a produção do discurso misógino de suas músicas. O discurso acima, como muitos outros que têm circulado livremente, aclamados no FaceBook e outras mídias, não problematiza a desinformação das meninas, a mídia que as coloca reiteradamente como pedaços de carne, a agressão simbólica que resulta da quantidade de corpos "femininos" despidos, em contraste com os corpos "masculinos" que não precisam tirar a roupa para se legitimarem ou valorizarem.

A minha opositora reclama que estou chamando as meninas de burras. Não estou: estou dizendo que são desinformadas. Que enquanto elas lêem Crepúsculo, aprendem a se casar virgens, aprendem que amor é para sempre, eles assistem filmes pornográficos altamente violentos, não raro com meninas menores de idade sendo literalmente comidas por homens adultos. Estou dizendo que, enquanto os filmes de aventura são protagonizados por homens sempre escolhidos para grandes missões que não raro incluem salvar o mundo (Matrix, Star Wars, sem falar em todos os super-heróis), a indústria cinematográfica reserva a nós, possuidoras de buceta, os famosos filmes água-com-açúcar, comédias românticas cuja saga épica consiste na missão de malabarizar emprego, filhos e amor. Nada de salvar o mundo, para nós: nossa maior aventura é conquistar o vestido branco, e qualquer violência que soframos no caminho é nossa culpa.

Nenhuma de nós nasceu feminista. Nosso caminho é longo, árduo, pavimentado ora com leitura, ora com discussões como esta, ora com experiências dolorosas que, não raro, preferiríamos não passar. Não parta do princípio de que o patriarcado é tosco e auto-evidente: se assim o fosse, as pessoas naturalmente descobririam seus problemas, sem o auxílio de feministas ou de quem quer que seja. Dizer que "as mulheres não são totalmente inocentes, elas sabem o que estão fazendo", e dizer que o patriarcado as protege de alguma forma, oferece-lhes ainda alguma vantagem, e que nós nos beneficiamos ao reproduzi-lo - coisas que em definitivo não são verdadeiras. Dizer que estamos levando vantagem é fazer coro com aqueles pseudo-cavalheiros que beatificamente vivem dizendo "quer ser independente, mas quer que paguemos a conta", ou (mais ridículo, mas juto que ouvi) "é feminista, mas tem medo de barata". Será que seu discurso está ajudando alguém? De que lado você fica?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"São Pedro é do babado", afirma MCB

Tenho para mim que o jornalismo já deu. Aquela época oitocentista em que era possível pensar um discurso emanando de si mesmo em perfeita conformidade com o Real, uma objetividade cirúrgica capaz de recortar o registro linguístico das condições objetivas que o causam e determinam, limando o Sujeito da enunciação e deixando apenas um enunciado que fosse pura Verdade, acho que tudo isso está um pouco abalado. Acho que já ficou claro que a sensação de que estávamos diante de um discurso não-assinalado, portanto direto, específico, objetivo e universal, era a consequência política de esse discurso ser produzido por um conjunto restrito de indivíduos que assinalaram a si próprios como não-assinalados e universais. Preciso explicar que este sujeito é homem, branco e heterossexual? Acho que não.

Mas fico também pensando que esses consensos acadêmicos, que já me são tão enfadonhos de repetir, conservam algo de inovador para a maior parte da população do nosso país. Um país que recebeu a segunda onda feminista em plena ditadura militar, cujas políticas anti-racistas estão tão atreladas ao governo (e qualquer ativista do movimento sabe que essa é uma faca de dois gumes, embora traga benefícios inegáveis, e que não cabem a mim, branca, decidir), não foi um amplo palco de discussões acaloradas sobre a impossibilidade da objetividade do discurso. Aliás, muita gente deve se perguntar (nossxs leitores não, eu acho): mas o que é discurso, o que você quer dizer com sujeito, do que é que você está falando...?

Ao ponto: estava eu, feliz e contente informando-me sobre o mundo-cão que nos cerca, quando me deparo com essa notícia "engraçadinha" no jornal:


Diante do que, imagino, foi uma incrível falta de pautas relevantes... aliás, o que é pauta? Pauta é o que um bando de homens burgueses, brancos e heterossexuais, sentados em torno de uma mesa, decidem que nós, a massa trabalhadora falida e fodida, tem que engolir junto com o pão-com-manteiga (vegana, claro) antes de sair para matar mais um leão (coitado). É o que os editores de um jornal recortam, a partir de seu próprio olhar, como relevante acerca dos acontecimentos do mundo, preservando seus próprios privilégios. Porque, se houvesse uma agência feminista de notícias, não falta pauta: são umas dez por dia, mortas por namorados, esposos, "amigos", "admiradores", 6 estupradas por minuto, é a bancada religiosa aprovando dia de lutar contra o aborto. Mas isso não é pauta, não é notícia, não para esses homens: pra eles, notícia é a orientação sexual do Santo Meteorológico. 

Tive que fazer uma postagem sobre isso, que não poderia ser um exemplo mais emblemático de "violência simbólica". Toda violência simbólica, isto é, aquela da ordem da linguagem e de suas estruturas (Saussure mandando um alô pra galera), é aquilo que não só acontece nos/através dos signos, como é aquilo que se inscreve em estruturas consolidadas de poder para enfim ocultar os interesses implicados no texto. A matéria de jornal, como qualquer texto, não é um circuito interpretativo fechado, mas apenas um patch na colcha, na infinita colcha de retalhos da cultura. Assim, a palavra também não é um universo fechado de significações, mas é aquilo que coloca em movimento a teia paradoxal dos sentidos instituídos e daqueles que ainda estão por vir. De tal forma que, não é ultra-interpretativo supor que o excerto de jornal supracitado seja homofóbico: ele é, pois se inscreve num mundo no qual o arco-íris é um símbolo de uma luta, e "indecisão" é a maneira cotidiana como a nossa subjetividade é relegada à invisibilidade, á patologia, e à morte por assassinato em becos escuros e ruas desertas.



domingo, 20 de janeiro de 2013

Mark: Posso falar com vc?
Jenny: Sim...
Mark: Queria tanto que tivesse algo que eu pudesse fazer...
Jenny: Não acho que tenha nada que vc possa fazer. Acho que vc já fez!
Mark: Quando eu me mudei pra cá, eu era o tipo de cara capaz de fazer coisas assim, mas não sou mais esse cara! Sei que já falei antes, mas vc e a Shane me tornaram um homem melhor.
Jenny: Foda-se Mark! Não é minha obrigação te tornar um homem melhor! E eu tô cagando se te tornei um homem melhor! Não é a porra da obrigação de uma mulher ser consumida, invadida e cuspida pra que um merda de um homem evolua!
Mark: Não foi o que eu quis dizer.
Jenny: Então que porra vc tá falando, Mark? Me dê um motivo pra vc achar que eu deveria te perdoar.
Mark: Porque eu cometi um grande erro, Jenny! Mas desse erro eu aprendi como é difícil ser uma mulher!
Jenny: Faça-me o favor...
Mark: Espere... Jenny... Hey... Olha isso... 
(Mark tira a roupa)
Jenny: O que vc está fazendo?
Mark: É isso q vc queria?
Jenny: Não... O que eu quero é que vc escreva "Me fode" no seu peito! Escreva! Faça isso! Depois eu quero que vc saia por aquela porta e ande pela rua... E se qualquer pessoa quiser te fuder, vc diz "claro", "claro", "sem problema". E quando eles te fuderem, vc tem que dizer "muito obrigado"! E não se esqueça de ter um sorriso no rosto. Aí, seu covarde estúpido de merda, vc saberá como é ser uma mulher!



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

POR QUE MULHERES CASADAS NÃO ESCREVEM DIÁRIOS , uma conversa com Julio Cortázar


Tirar manchas de bolor em banheiro: Em um balde, misture uma colher de sopa de detergente, um quarto de produto alvejante (água sanitária) ou anti-séptico e três quartos de água.Aplique a mistura diretamente nas paredes, teto, cortinas ou outras partes afetadas e deixe agir por 5 a 10 minutos.
Vista luvas nas mãos e esfregue a área com uma esponja molhada em um pouco de água. Se precisar limpar as arestas entre os azulejos, use uma escova de dente velha. Enxágüe bem e passe um bactericida ou fungicida na área, deixe agir por 5 a 10 minutos para "matar" o que sobrou dos fungos
Enxágüe bem e abra as janelas e portas para arejar o ambiente e secar.
Para evitar que o mofo volte a aparecer, é preciso arejar o ambiente, já que a umidade é o principal fator facilitador para a propagação dos fungos, que causam o mofo. Por isso, abra as janelas do banheiro diariamente, principalmente as do box (chuveiro).
Atenção: Não deixe que a mistura usada para retirar o mofo entre em contato com tecidos ou carpete. Limpe os sapatos que você estiver usando, antes de sair do banheiro e pisar em outro ambiente da casa.
                                                           
                                                           “Olhar pro sol, só ver janela e cortina”
- Nando Reis


Há pessoas que olham para além das coisas. Todos nós temos a capacidade, especialmente na infância, de relaxar os olhos e passar da parede opaca, do objeto que se coloca ao nosso olhar, para algo distante, atrás da imagem física que reflete a luz captada pela retina. E nesse momento, sem saber, ou às vezes sabendo, nós despencamos no Ser e ali nadamos, vagamos pelas memórias, ou antes as memórias passam por nós, como o RNA passa pelo ribossoma, essa entidade passiva leitora que decodifica e decodifica, sem interpretar, sem alterar a obra do código genético.

Donas de casa não fazem isso.

Olhava para o azulejo ao seu lado, perplexa. Sentada sobre a tampa da privada, pois sob o pretexto das funções fisiológicas, o banheiro é o último lugar em que a dona de casa pode se olhar em todas as qualidades de espelhos, físicos, psíquicos. Quanta brancura!, pensava deslumbrada, aquela superfície de porcelana tão homogênea, milagrosamente homogênea, que parecia ter despencado do mundo dos sonhos de todas as donas de casa, mediado pelas mãos de um arquiteto demiurgo, para materializar-se assim à sua volta, tão límpida, pura e branca. Quanta sinceridade naqueles azulejos, que limpava um a um com Veja Desinfetante, em movimentos lentos, circulares, o paninho cheiroso, a superfície reflexiva que, bem de pertinho, refletia o seu sorriso. Era alguma coisa divina. Contemplava assim, primeiro o conjunto da parede, depois individualmente os quadrados brancos, e deleitava-se com o fato de não haver individualidade. Fora marxista, ela, lembrava-se agora de Trotsky a dizer, acerca da dialética, que não existem dois objetos iguais, que nenhum objeto é inteiramente igual a si mesmo, mas Trotsky, pensou ela agora dando-se um luxo de filósofa, Trotsky não era dona de casa! E olhava, conferindo um a um, a maravilha da produção em escala industrial, aqueles objetos idênticos a si próprios e aos azulejos adjacentes. Aquelas coisas mortas, imóveis, previsíveis, maravilhosas. A imagem do equilíbrio.

O rejunte... que beleza, o rejunte! Feito de massa corrida bem branquinha, a equipe do engenheiro que executara a obra trabalhando sob o chicote do seu olhar. Entrava assim mesmo, de avental e luvas de borracha na obra, bobs no cabelo, e dizia sem se fazer de entendida, “quero tudo direitinho”. Traiçoeira escolha, a massa branca rapidamente mofa sob a umidade elemental do banheiro, e depois de muito testar diferentes produtos achou na internet uma receita infalível. Imprimiu, guardou numa gaveta sobre artigos feministas e livros de teoria econômica, pois lhe pareceu que nunca antes na história da humanidade o bolor havia sido vencido de forma tão definitiva, triunfal! Observava o triunfo do rejunte perfeitamente branco, que lhe custara dias de vapores tóxicos e uma pequena escova de dentes. Trabalho milimétrico, admirava o rejunte como largas estradas onde seu olhar voluptuoso deslizava. Nas grandes retas, deixava o olhar escorregar, pegando velocidade, sentia o vento de alvejante nas narinas, o cabelo bater-lhe no rosto. Ao sentir a aproximação de curva fechada, toda prudente, tinha o prazer de passar a marcha, sem esquecer da embreagem, desembestava-se por uma nova reta, paralela ao chão, onde não se pegava tanta velocidade assim. Um vale entre dois penhascos de louça branca. No horizonte, um blindex.

Ergueu a mão, o fino dedo. As substâncias de limpeza haviam lhe comido, primeiro, o esmalte. Em seguida, mesmo sob a luva, as impressões digitais. Ergueu a mão, o fino dedo, e com muita ousadia, colocando em jogo a impecabilidade da limpeza, quis percorrer com o tato aquela linha branca tão perfeita. Foi até a quina da parede e, com o dedo, escolheu um dos sulcos entre duas fileiras de azulejos. Gostou do toque, frio nas bordas, mas no centro um pouco mais morno. O rejunte não acumulava o frio. E foi assim, um pouco temerosa a princípio, apreciando o toque, para despencar no amor à velocidade. O banheiro, um borrão à sua volta, e um baque: no auge da ousadia, esborrachou-se contra o blindex.

domingo, 23 de setembro de 2012

Cacos de vidro vermelho

Eu queria fazer um verso pra você musicar
eu queria fazer um verso pra eu cantar
eu queria que você tivesse lá pra me ouvir
eu queria que você fosse o primeiro a me aplaudir
eu queria jogar fora o rosto de boneca que você tentou me vestir
eu queria me transformar naquilo que me agrada
naquilo que me faça rir
mas foi impossível
foi impossível
foi impossível
foi impossível

a rima ficou perdida
o falsete se perdeu no ar
as notas da minha voz se perderam em alguma vida passada
alguma vida de merda talvez tão merda quanto essa
o grito rouco e desafinado nunca me pareceu tão melódico
porque é isso o que eu escuto
só isso o que eu escuto
um estrondo rouco, desafinado, melódico
o som, aquele som
aquele som

você nunca tentou compreender
achou que era tudo pessoal
(risos)
talvez fosse mesmo
o que não é pessoal?
se eu tô aqui vivendo, é porque se tornou pessoal
sempre foi pessoal
nós é que levamos tempo demais pra perceber
levamos tempo demais pra entender

eu queria crescer e me transformar em tudo aquilo que você me fazia temer
eu queria crescer pra jogar meu molotov naquele corpo que você me fez usar
eu queria crescer pra lamber o veneno que escorria daquela ferida aberta
eu queria crescer pra quebrar aquele copo vermelho
copo vermelho
copo comprido, vermelho

é que você não entende
não entende a nota que eu canto
não entende o falsete na minha voz
não entende o rasgado nas minhas roupas
não entende a calcinha velha e manchada de menstruação
não entende os óculos sujos e velhos
(risos)
não serei eu a te explicar nada agora

agora tudo ficou pra trás
toda a vontade, todo o desejo
tudo virou raiva
todo o desejo de um dia ver você na primeira fila
se tornou ódio e vontade de te chutar pra fora daqui
vontade de gritar e fazer o amplificador explodir
é que de repente eu entendi
eu entendi que jamais fui daqui
todo o pensamento macabro
toda vontade de suicídio
todo sangue que tive vontade de ver escorrer
todo grito sufocado
todo gozo escondido
tudo legítimo!
Violentamente reprimido!
Violento é você
violento era o rosto de boneca que você queria que usasse
violento era o batom fálico que você queria manchar meus lábios
violento é o corpo enquadrado que você ainda quer que eu vista
violento é essa merda que você chama de amor

eu quero gritar do jeito que eu quiser
quero dizer que já cresci
cresci e me tornei tudo aquilo que você me fazia temer
cresci e jogo um molotov por dia nesse corpo que você queria que eu usasse
cresci e uso minha língua pra lamber
lamber gozos que escorrem de fendas abertas em corpos
corpos bem diferentes daqueles que você queria pra mim
(risos)
minha vida são cacos de vidro vermelhos...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Era uma manhã de sábado, perdida em um março do tempo.


Sobretudo, despedia-me de seu corpo. Daquelas ondas castanhas que se derramavam sobre os ombros, dos olhos verdes que expressavam sua amável burrice. Seus lábios finos e suas mãos delicadas desenhavam no ar palavras e gestos inúteis que me pediam para ficar, para continuar, para lhe dar uma nova chance. A. erguia-se diante de mim como uma dupla criatura: sua personalidade odiosa, sua teima em que deveria domar-me e conquistar-me, sua certeza inabalável de que seu corpo deveria ser o primeiro e o último de minha vida. Esta era a Letra A. que eu queria matar, a dentadas, cravando garras e dentes em seu frágil pescoço. MAS aqui entrava a segunda letra A., aquela fragilidade tão linda, ossos que eu podia enrolar com o fechar de uma mão, aquela língua com a qual a minha já tanto dançara e tanto mais gostaria de dançar. Porém, era impossível estar com aquele corpo A sem que a pessoa A fizesse parte de minha vida; e entre ser infeliz ao lado de um belo corpo, e tentar a sorte da felicidade na obscura senda da solidão, disse-lhe adeus pelas grades, abraçando o desconhecido. Não tornaria a vê-lA por anos depois deste evento.
Era estranho como seu corpo continuava a habitar notas de música, pedaços de papel. Olhava, encostado à parede, um velho disco de vinil que comprara naquela estranha semana em que nos conhecêramos. Os beijos dados no sábado alimentaram-me até a quarta-feira, e como uma máquina movida a um novo combustível, eu vivia de suspiros, caminhando apenas com os dedos dos pés sobre a freqüência imaterial da paixão. A melhor semana de nosso namoro havia sido aquela primeira, quando A não passava do conjunto das lembranças de uma noite selvagem, quando eu podia sonhar que A era o ente imaginário ao lado do qual eu poderia passar, descansada, o resto de meus dias, sem fazer qualquer esforço para ser feliz. Percebia, olhando o velho vinil um pouco entediado, que a letra A de quem eu sentia tanta falta era aquela que havia, durante oito dias, vivido em minha imaginação, correndo solta pelas páginas dos diários, aquela letra A que eu desenhara, tão sonhadora, no quadro da sala de aula.
Era uma manhã estúpida de sábado, em um março hoje perdido. O Yes desenhava sua psicodelia arco-íris berrante em minha sala, e dos escombros de uma relação que nascera falida brotava, paradoxal, a flor da felicidade. Observava o quintal de maneira desinteressada quando a beleza do mundo me arrebatou, sacudindo-me pelos ombros: a grama era verde, o céu era azul, o cachorro negro e a borboleta amarela. Todas as cores redescobertas dançavam ao vento o som de um rock esquecido; meu rosto, pousado sobre as mãos na janela, olhava imóvel, enquanto meus quadris – independentes! – desenhavam lenta e persistentemente o infinito no ar. Contra todas as hipóteses. Contra tudo o que me disseram. A felicidade forçava sua entrada trazendo pela mão a companhia de todas a mais inusitada: a Solidão. De todos e todas as criaturas do mundo, aquela cuja companhia havia sido terrivelmente amaldiçoada pela Tristeza e pela Loucura, ela se tornara subitamente a mais macia e agradável.
Não fazia muitos dias, comprara um livro de Bakunin. O Anarquismo entrava, brilhante, em minha vida. Não havia um método, não havia um caminho; a liberdade era uma certeza para a qual nossos pés deveriam caminhar com debilidade, debilidade e dor, mas se se conservasse como princípio a premissa de que qualquer poder era abominável, só poderia dar certo. Só se poderia, irremediavelmente, chegar “lá”. Embora Baku não trouxesse em suas linhas qualquer nota sobre feminismo, não me seria difícil diagnosticar o que havia de tão odioso em A: sua vontade de dominar-me, fazendo do amor um cativeiro ideológico, aprisionando meu corpo aos seus desejos. E então, pela primeira vez em 18 anos, pensei e senti coisas que poderiam muito bem não terem sido sentidas e pensadas, se não fosse o acidente cósmico de em minha vida terem entrado um livro, uma música e uma pessoa. Do alto de meu ateísmo, nunca antes mais forte, percebia que meus pensamentos não eram o resultado imediato da leitura de umas 15 páginas, mas a fermentação última de uma reação que começara em minha infância, mas que acontecera dia a dia em minha vida. Manhã após manhã, secretamente, crescera em mim uma estrela, e essa estrela era a certeza brutal de que a felicidade não estava no casamento – fosse com um homem, com uma mulher, com um objeto, com um animal. Eu tentava recobrar exatamente quem e quando me havia dito que eu era apenas a desgarrada contraparte de outro humano; quem me orientara a vagar, a errar em busca de outro, ao lado de quem minha vida poderia ser considerada finda; essa pessoa estava errada.
Começaria aí uma saga. Não sem volta, tampouco certa e linear como parecem os caminhos espirituais que lemos ou que imaginamos, acerca dos santos e dos sábios. Isto, porque não se tratava de um caminho espiritual, mas eu diria que se tratou exatamente do contrário: assim começou meu caminho político. Ele era, ainda é, indiscernível de minha vida pessoal, dos meus amores, dos meus dissabores; eu não poderia ter-me tornado anarquista sem, simultaneamente, tornar-me descrente no amor; nem poderia amar a mim mesma, se naquele momento não tocasse aquela música. A vida é um acidente: se tragédia ou aventura, não se trata da qualidade dos acontecimentos, mas da qualidade de nosso olhar.
Era uma manhã de sábado, perdida em um março do tempo. 

domingo, 1 de julho de 2012

A ERA FARMACOPORNOGRÁFICA

Por Beatriz Preciado. Este é um excerto da obra Testo Yonqui traduzido pelo Coletivo Caju, sem fins lucrativos. TODO PODER AO FEMINISMO!



A ERA FARMACOPORNOGRÁFICA

Nasci em 1970, momento no qual a economia do automóvel, que parecia então estar em seu apogeu, começava a declinar. Meu pai tinha a primeira e mais importante loja de automóveis de Burgos, uma vila gótica de curas (?) e militares na qual Franco havia instalado a nova capital simbólica da Espanha fascista. Ganhasse a guerra Hitler, a nova Europa haver-se-ia assentado em torno desses polos (certamente desiguais), Burgos e Berlin, ou amo menos com isso sonhava o general galego. Na Garaje Central, assim se chamava o florescente negócio de meu pai, situado na General Mola (o militar que havia dirigido o levante contra o regime republicano em 1936), eram guardados os carros mais caros da cidade, os carros dos ricos e chiques. Em minha casa não havia livros, só havia carros. Chryslers de motor Slant Six, vários renaults Gordini, Dauphine e Ondine (“os carros das viúvas”, assim os chamavam na época, porque tinham a fama de acabar, nas curvas, com a vida dos maridos automobilistas), renaults D-S (que os espanhóis chamavam “tubarões”), e alguns Standards trazidos da Inglaterra e reservados (abjudicados?) aos médicos. A esses adicionavam-se a coleção de carros antigos que meu pai vinha comprando: um Mercedes “Lola Flores” negro, um citröen cinza Traction Avant dos anos 1930, um Ford 17 cavalos, um dodge Dart Swinger, um citroën “culo-rana” de 1928 e um cadillac 8 cilindros. Meu pai investiu, naqueles anos, na indústria de ladrilhos, que veio abaixo em 1975 (acidentalmente, como a ditadura) com a crise do petróleo. Ao final teve de vender sua coleção de carros para pagar a quebra da fábrica. Eu chorei por aqueles carros. Entretanto, eu estava crescendo como uma pequena marimacho1. Meu pai choraria por isso.

Durante essa época, recente e todavia já irrecuperável, que hoje conhecemos como “fordismo”, a indústria do automóvel sintetiza e define um modo específico de produção e de consumo, uma temporalização taylorizante da vida, uma estética polícroma e lisa do objeto inanimado, uma forma de pensar o espaço interior e de habitar a cidade, um agenciamento conflitante do corpo e da máquina, um modo descontínuo de desejar e de resistir. Nos anos que se seguem à crise energética e àqueda das cadeias de montagem, procurar-se-iasm novos setores portadores das transformações da economia global. Se falarão assim das indústrias bioquímicas, eletrônicas, informáticas ou de comunicação como novos suportes industriais do capitalismo... Mas esses discursos seguirão sendo insuficientes para explicar a produção de valor e da vida na sociedade atual.

Todavia, parece possível esquadrinhar a cronologia das transformações da produção industrial do último século do ponto de vista do que se converterá progressivamente no negócio do novo milênio: a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade. Dito de outra forma, resulta hoje filosoficamente pertinente levar a cabo uma análise sexopolítica da economia mundial.

Se do ponto de vista econômico, a transição a um terceiro tipo de capitalismo, depois dos regimes escravista e industrial, se situa habitualmente em torno dos anos setenta, a condução de um novo tipo de “governabilidade do ser vivo” emerge das ruínas urbanas, corporais, psíquicas e ecológicas da Segunda Guerra Mundial – e no caso espanhol, da Guerra Civil.

Mas como o sexo e a sexualidade, vocês se perguntarão, convertem-se no centro da atividade política e econômica? Sigam-me:

Durante o período da Guerra Fria. Os Estados Unidos investem mais dólares na investigação científica sobre o sexo e a sexualidade que nenhum outro país ao longo da história. A mutação do capitalismo a que assistiremos se caracterizará não somente pela transformação do sexo em objeto de gestão política da vida (como já havia intuido Foucault em sua descrição “biopolítica” dos novos sistemas de controle social), como também esta gestão se levará a cabo através de novas dinâmicas do tecnocapitalismo avançado. Pensemos simplesmente que período que se estende do final da Primeira Guerra Mundial à Guerra Fria constitui um momento sem precedente de visibilidade das mulheres no espaço público, assim como de emergência de formas visíveis e politizadas da homossexualidade em lugares tão insuspeitados como, por exemplo, o exército estadunidense. O macartismo ianque nos anos 1950 soma à perseguição patriótica do comunismo a luta contra a homossexualidade como forma de antinacionalismo, ao mesmo tempo em que exalta valores da família, da masculinidade trabalhadora e da maternidade doméstica. Abrem-se durante esse tempo dezenas de centros de investigação sobre a sexualidade ocidental como parte de um programa de saúde pública. Ao mesmo tempo, os doutores George Henry e Robert L Dickinson executam a primeira demografia do “desvio sexual”, um estudo epidemiológico conhecido pelo nome de “Variante Sexual”, ao qual seguir-se-ão, mais tarde, os Relatórios Kinsey sobre a sexualidade e os protocolos de Stoller sobre a feminilidade e a masculinidade. Entretanto, colaboram com o exército estadunidense os arquitetos Ray e Charles Eames para fabricar plaquilhas de identificação dos membros mutilados na guerra a partir de placas de compensado playwood. Poucos anos depois utilizarão o mesmo material para construir os móveis que caracterizarão o design ligeiro e a arquitetura americana modulada. Harry Benjamin põe em marcha e sistematiza a utilização clínica de moléculas hormonais, serão comercializadas as primeiras moléculas naturais de progesterona e estrogêneo obtidos a partir do soro sanguíneo de uma égua (Premarin) e pouco mais tarde sintéticas (Norethindrone). Em 1946 é inventada a primeira pílula antibaby a base de estrógenos sintéticos – o estrogêneo será imediatamente a molécula farmacêutica mais utilizada de toda a história da humanidade. Em 1947, os laboratórios Eli Lily (Indiana, EUA) comercializam a molécula metadona (o mais simples dos opiáceos) como analgésico, convertendo-se nos anos 1970 no tratamento básico de substituição no vício em heroína; neste mesmo ano, o pseudopsiquiatra ianque John Money inventa o termo gênero, diferenciando-o do tradicional “sexo” para nomear o pertencimento de um indivíduo a um grupo culturalmente reconhecido como “masculino” ou “feminino” e afirma que é possível “modificar o gênero de qualquer bebê até seus 18 meses”. Multiplica-se exponencialmente a produção de elementos transurânicos, entre eles os do plutônio, combustível nuclear empregado mitilarmente durante a Segunda Guerra Mundial e que agora se converte em material de uso no setor civil: o nível de toxicidade dos elementos transurânicos sobrepuja o de qualquer outro elemento terrestre, gerando uma nova forma de vulnerabilidade da vida. O lifting facial e diversas intervenções de cirurgia estética se convertem pela primeira vez em técnicas de consumo de massa nos EUA e Europa. Andy Warhol se fotografa durante uma cirurgia de lifting facial, fazendo de seu corpo um dos objetos pop da sociedade de consumo. Frente à ameaça induzida pelo nazismo e pelas retóricas racistas de uma detecção da diferença racial ou religiosa através de signos corporais, a “des-circuncisão”, reconstrução artificial do prepúcio do pênis, converte-se em uma das cirurgias estéticas mais praticadas nos EUA nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. Simultaneamente, generaliza-se o uso do plástico para a fabricação de objetos da vida cotidiana. Este material viscoso e semirrígido, impermeável, isolante elétrico e térmico, produzido a partir da multiplicação artificial de átomos de carbono em largas cadeias moleculares de compostos orgânicos derivados do petróleo e cuja queima é altamente contaminante, definirá as condições materiais de uma transformação ecológica em grande escala: destruição dos recursos energéticos primitivos do planeta, consumo rápido e alta contaminação. Em 1953, o soldado americano George W. Jorgensen se transforma em Christine, tornando-se o primeiro transexual mediatizado; Hugh Hefner cria Playboy, a primeira revista pornô ianque difundida em bancas de jornal, com a fotografia de Marilyn Monroe nua na capa do primeiro número. Na Espanha franquista, a Lei de Vadios e Meliantes de 1954 inclui pela primeira vez homossexuais e sexualidades desviantes. O comandante Antonio Vallejo-Nájera, chefe dos serviços médico-militares, e Juan José López Ibor conduzem sucessivas investigações com o fim de examinar as raízes psico-físicas do marxismo (para descobrir o famoso “gen vermelho”), a homossexualidade e a interssexualidade, preconizando, apesar da escassa tecnificação das instituições médicas durante o franquismo, a lobotomia, as terapias de modificação de conduta, o tratamento mediante eletrochoque e a castração terapêuticos por razões de eugenia; Em 1958 faz-se, na Rússia, a primeira faloplastia (construção de um pênis a partir de um enxerto da pele e dos músculos do braço), como parte de um processo de mudança de sexo de mulher a homem. Em 1960, os laboratórios Eli Lilly comercializam Secobarbital, um barbitúrico com propriedades anestésicas, sedativas e hipnóticas concebido para o tratamento da epilepsia, insônia ou como anestésico para cirurgias breves. Secobarbital, mas conhecido como a “pílula vermelha” ou doll (em inglês. “boneca”, nota da tradutora), torna-se uma das drogas da cultura rock underground dos anos 1960; ao mesmo tempo, Manfred E. Clynes e Nathan S. Kline utilizam pela primeira vez o termo cyborg para referir-se a um organismo tecnicamente suplementado que poderia viver em um meio-ambiente extraterrestre e operar como um “sistema homeostático integrado inconsciente”. Tratava-se de um rato de laboratório à qual se havia implantado uma prótese osmótica que arrastava em forma de cabo cibernético. Em 1966 são inventados os primeiros anti-depressivos que intervêm diretamente na síntese do neurotransmissor serotonina, e que levarão até 1977 à concepção da molécula de Floxetina que será depois comercializada sob diversos nomes, dependendo do laboratório, dos quais o mais conhecido será o Prozac, fabricado por Eli Lilly. Em 1969 cria-se, como parte de um programa de investicação militar estadunidense, arpanet, a primeira “rede de redes” de computadores interconectados capazes de transmitir informação, que dará lugar mais tarde à Internet. A 18 de setembro de 1970 morre Jimi Hendriz, depois de haver ingerido (acidentalmente, suicídio ou assassinato?) um coquetel farmacêutico que continha pelo menos nove pílulas de Secobarbital. Em 1971 o Reino Unido estabelece a Lei de Abuso de Drogas, que regula o consumo e tráfico de substâncias psicotrópicas. A gravidade dos crimes por uso e tráfico vai desde a categoria A (cocaína, metadona, morfina, etc) até a categoria C (cannabis, ketamina, etc). O álcool e o tabaco ficam fora desta classificação. Em 1972 Gerard Damiano realiza, com dinheiro da máfia californiana, Garganta Profunda, uma das primeiras películas pornô comercializadas publicamente nos EUA. Garganta Profunda se converterá em um dos filmes mais vistos de todos os tempos, gerando lucros de mais de seiscentos milhões de dólares. Estoura a partir de então a produção cinematográfica pornô, passando de trinta películas clandestinas em 1950 a dois mil e quinhentas em 1970. Em 1973 retira-se a homossexualidade da lista de enfermidades mentais do DSM (Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais). Em 1974, o soviético Victor Konstantinovich Kalnberz registra a patente do primeiro implante peniano a base de hastes plásticas de polietileno como tratamento para falta de ereção, criando um pênis natural ereto permanentemente. Esses implantes serão abandonados em função de suas variantes químicas por serem “fisicamente incômodos e emocionalmente desconcertantes”. Em 1977, o estado de Oklahoma introduz a primeira injeção letal a base de um composto barbitúrico semelhante à pílula vermelha para aplicar a pena de morte; um método similar havia sido utilizado já no chamado programa Ação T4 de higiene racial na Alemanha nazista, que matara entre setenta e cinco mil e cem mil pessoas com deficiências físicas ou psíquicas, método abandonado depois em função de seu alto custo farmacológico e substituído pela câmara de gás ou simplesmente pela morte por inanição. Em 1983, a transexualidade (“disforia de gênero”) é incluída na lista do DSM como enfermidade mental. Em 1984 Tom F. Lue, Emil ª Tanaghoy e Richard A Schidt colocam pela primeira vez um “marcapasso sexual” no pênis de um paciente, um sistema de eletrodos implantados junto à próstata que permitia desencadear uma ereção por controle remoto. Durante os anos 1980, descobrem-se e comercializam-se novos hormônios como o DHEA ou hormônio do crescimento, assim como numerosas substâncias anabolizantes que serão utilizadas legal e ilegalmente no esporte. Em 1988 aprova-se a utilização farmacêutica de Sildenafil (comercializado como Viagra pelos laboratórios Pfizer) para tratar a “disfunção erétil” do pênis. Trata-se de um vaso-dilatador sem efeito afrodisíaco que induz a produção de óxido nítrico no corpo cavernoso do pênis e o relaxamento muscular. A partir de 1966 os laboratórios ianques se lançam na produção sintética de oxyntomodulina, um hormônio relacionado ao sentido de saciedade, que pdoeria afetar os mecanismos psicofísiológicos reguladores da adicção e ser comercializado para provocar perda de peso. No princípio do novo milênio, quatro milhões de crianças são tratados com Ritalina por hiperatividade e pelo chamado DDA, e mais de dois milhões consomem psicotrópicos destinados a controlar a depressão infantil.

Estamos diante de um novo tipo de capitalismo quente, psicotrópico e punk. Essas transformações recentes apontam na direção da articulação de um conjunto de novos dispositivos microprostéticos de controle da subjetividade com novas plataformas técnicas biomoleculares e mediáticas. A nova “economia mundo” não funciona sem o desdobramento simultâneo e interconectado da produção de centos de toneladas de esteróides sintéticos, sem a difusão global de imagens pornográficas, sem a elaboração de novas variedades psicotrópicas sintéticas legais e ilegais (Lexomil, Special K, Viagra, speed, cristal, Prozac, extasi, popper, heroína, Omeoprazol, etc), sem a extensão da totalidade do planeta numa forma de arquitetura urbana difusa na qual mega-cidades miséria se articulam com nós de alta concentração de capital, sem o tratamento informático de signos e da transmissão numérica de comunicação.

Estes são someste alguns dos índices de aparição de um regime pós-industrial, global e mediático que chamarei, a partir de agora, tomando como referência os processos de governo biomolecular (fármaco-) e técnico-semiótico (-pornô) da subjetividade sexual, dos quais a pílula e a Playboy são paradigmáticos, “farmacopornográfico”. Ainda que suas linhas de força fundam suas raízes na sociedade científica e colonial do século XIX, seus vetores econômicos não se farão cisíveis até o final da Segunda Guerra Mundial, ocultos a princípio sob a aparência da economia fordista expondo-se gradativamente ao longo do gradativo desmoronamento desta nos anos 1970.

Durante o século XX, período no qual se leva a cabo a materialização parmacopornográfica, a psicologia, a sexologia, a endocrinologia estabeleceram sua autoridade material transformando os conceitos de psiquismo, libido, consciência, feminilidade e masculinidade, de heterossexualidade e homossexualidade em realidades tangíveis, substâncias químicas, em moléculas comercializáveis, em corpos, em biotipos humanos, em bens de intercâmbio gestionáveis pelas multinacionais farmacêuticas. Se a ciência alcançou o lugar hegemônico como discurso e como prática em nossa cultura, é precisamente graças ao que Ian Hacking, Steve Woolgar e Bruno Latour chamam “sua autoridade material”, isto é, sua capacidade para inventar e produzir artefatos vivos. Por isso a ciência é a nova religião da modernidade. Porque tem a capacidade de criar, e não simplesmente descrever, a realidade. O êxito da tecnologia contemporânea é transformar nossa depressão em Prozac, nossa masculinidade em testosterona, nossa ereção em Viagra, nossa fertilidade/esterilidade em pílula, nossa SIDA em coquetel. Sem que seja possível saber quem vem antes, se a depressão ou o Prozac, se o Viagra ou a ereção, se a testosterona ou a masculinidade, se a pílula ou a maternidade, se o coquetel ou a SIDA. Essa produção em auto-feedback é própria do poder farmacopornográfico.

A sociedade contemporânea está habitada por subjetividades toxicopornográficas: subjetividades que se definem pela substância (ou substâncias) que dominam seus metabolismos, pelas próteses cibernéticas através das quais se tornam agentes, pelos tipos de desejos farmacopornográficos que orientam suas ações. Assim, falaremos de sujeitos Prozac, sujeitos cannabis, sujeitos cocaína, sujeitos álcool, sujeitos ritalina, sujeitos cortisona, sujeitos silicone, sujeitos heterovaginais, sujeitos duplapenetração, sujeitos Viagra, etc.

Não há nada que desvelar na natureza, não há um segredo escondido. Vivemos na hipermodernidade punk: já não se trata de revelar a verdade oculta da natureza, mas é necessário explicitar os processos culturais, políticos, técnicos através dos quais o corpo como artefato adquire estatuto natural. O oncomouse, rato de laboratório criado biotecnológicamente para ser portador de gen cancerígeno, come Heiddeger. Buffy, a vampira mutante televisiva, devora Simone de Beauvoir. O dildo, paradigma de toda prótese de teleprodução de prazer, devora a rola de Rocco Siffredi. Não há nada que desvendar nem na identidade sexual, não há um segredo escondido. A verdade do sexo não é desvelamento, mas sex design.

1Mantive o termo marimacho por não ver necessidade de traduzi-lo.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

POTENTIA GAUDENDI


Por Beatriz Preciado

Para compreender como e por que a sexualidade e o corpo, o corpo excitável, irrompem no centro da ação política até chegar a ser objetos de uma gestão estatal e industrial minuciosa a partir de finais do século XIX, é preciso elaborar um novo conceito filosófico equivalente no domínio farmacopornográfico ao conceito de força de trabalho no domínio da economia clássica. Nomeio a noção de “força orgásmica” como potentia gaudendi: trata-se da potência (atual ou virtual) de excitação (total) de um corpo. Esta potência é uma capacidade indeterminada, não tem gênero, não é feminina ou masculina, nem humana nem animal, nem animada nem inanimada, não se dirige prioritariamente ao masculino ou ao feminino, não conhece a diferença entre heterossexualidade e homossexualidade, não diferencia entre o objeto e o sujeito, não sabe tampouco a diferença entre ser excitado, excitar e excitar-se-com. Não privilegia um órgão sobre outro: o pênis não possui mais força orgásmica que a vagina, o olho ou um dedo do pé. A força orgástica é a soma da potencialidade de excitação inerente a cada molécula viva. A força orgásmica não busca sua resolução imediata, aspira, isto sim, a estender-se no tempo e no espaço, a tudo e a todos, em todo lugar e em todo momento. É força que transforma o mundo em prazer-com. A força orgásmica reúne ao mesmo tempo todas as forças somáticas e psíquicas, põe em jogo todos os recursos bioquímicos e todas as estruturas da alma.

No capitalismo farmacopornográfico, a força de trabalho revelou seu verdadeiro substrato: força orgásmica, potentia gaudendi. O que o capitalismo atual poé a trabalhar é a potência de correr-se como tal (?), seja em sua forma farmacológica (molécula digerível que se ativará no corpo do consumidor), seja em sua representação pornográfica (como signo técnico-semiótico1 conversível em dado numérico e transferível a suportes informáticos, televisuais e telefônicos) ou em sua forma de serviço sexual (como entidade farmacopornográfica viva cuja força orgásmica e cujo volume afetivo são postos a serviço de um consumidor por um determinado tempo sob um contrato mais ou menos formal de venda de serviços sexuais).

O que caracteriza a potentia gaudendi não é somente seu caráter não permanente e altamente maleável, mas também, sobretudo, sua impossibilidade de ser possuída e conservada. A potentia gaudendi, como fundamento energético do farmacopornismo, não se deixa reduzir a objeto nem pode ser transformada em propriedade privada. Não so não posso possuir nem conservar a potentia gaudendi de outro, como não posso possuir e conservar aquela que aparece como minha. A potentia gaudendi existe unicamente como evento, relação prática, devir.

A força orgásmica é ao mesmo tempo a mais abstrata e a mais material de todas as forças de trabalho, inextricavelmente carnal e numérica, viscosa e digitalizável. Ah, glória fantasmática ou molecular transformável em capital!

O corpo polissexual vivo é o substrato da força orgásmica. Este corpo não se reduz a um corpo pré-discursivo, nem tem seus limites no invólucro carnal que a pele delimita. Esta vida não pode ser entendida como um substrato biológico fora dos entremeios da produção e cultivo próprios da tecno-ciência. Este corpo é uma entidade tecnoviva multiconectada que incorpora tecnologia. Nem organismo, nem máquina: tecnocorpo. Nos anos 1950, MacLuhan, BuckMister Fuller e Wiener já o haviam percebido: as tecnologias de comunicação funcionavam como extensões do corpo. Hoje a situação parece muito mais complexa: o corpo individual funciona como uma extensão das tecnologias globais de comunicação. Dito como a feminista Donna Haraway, o corpo do século XXI é uma plataforma tecnoviva, o resultado de uma implosão irreversível de sujeito e objeto, do natural e do artificial. Daí, a noção própria de “vida” resulta arcaica para identidicar os atores desta nova tecnologia. Portanto, Donna Haraway prefere a noção de “tecnobiopoder” à foucaultiana “biopoder”, posto que já não se trata de poder sobre a vida, de poder de gerir e maximizar a vida, como queria Foucault, mas poder e controle sobre um todo tecnovivo conectado.

No circuito de tecnoprodução de excitação não há corpos vivos ou mortos, mas conectores presentes ou ausentes, atuais ou virtuais. A imagens, os virus, os programas informáticos, os internautas, as vozes que respondem aos telefones rosas, os fármacos, e os animais de laboratório nos quais estes são testados, os embriões congelados, as células tronco, as moléculas de alcaloides ativos... não apresentam na atual economia global um valor em termos de “vivos” ou “mortos”, mas em termos de integráveis ou não na bioeletrônica da excitação global. Haraway nos lembra de que “as figuras do cyborg, assim como la semilla (?), o chip, o gen, o banco de dados, a bomba, o feto, a raça, o cérebro e o ecossistema, descendem de implosões de sujeitos e objetos, do natural e do artificial”. Neste sentido, todo corpo, incluindo aqui o corpo “morto”, pode suscitar força orgásmica, e portanto pode ser portador de potência de produção de capital sexual. Esta força que se deixa converter em capital não reside no bios-, tal como se entende desde Aristóteles a Darwin, senão como tecnoeros, no corpo tecnovivo encantado e sua cibernética amorosa. Disto, conclui-se: tanto biopolítica (política de controle e produção da vida) como tanatopolítica (política de controle e gestão da morte) funcionam como farmacopornopolíticas, gestões planetárias da potentia gaudendi.

O sexo, os órgãos sexuais, o pensamento, a atração, deslocam-se para o centro da gestão tecnopolítica na medida em que está em jogo a possibilidade de se tirar proveito da força orgásmica. Se os teóricos do pós-fordismo se interessam pelo trabalho imaterial, pelo “trabalho não-objetividade”, pelo “trabalho afetivo”, aos teóricos do capitalismo farmacopornográfico nos interessa o trabalho sexual como processo de subjetivação, abrindo a possibilidade de fazer do sujeito uma reserva interminável de corrida planetária conversível em capital, em abstração, em dígito.

Não devemos ler esta teoria da “força orgásmica” através do prisma hegeliano paranóico ou rousseauniano utópico/distópico: o mercado não é um poder exterior que vem a expropriar, reprimir e controlar os instintos sexuais do indivíduo. Enfrentamo-nos, pelo contrário, com a mais difícil das situações políticas: o corpo não conhece sua forma orgásmica até que a coloca em ação.

A força orgásmica enquanto força de trabalho tem sido progressivamente regulada por um estrito controle tecnobiopolítico. A mesma relação de compra-venda e de dependência que unia o capitalista ao trabalhador regia, até pouco tempo, a relação entre os gêneros como a relação entre o ejaculador e o facilitador da ejaculação. De aquí la definición (?): o feminino, longe de ser uma natureza, é uma qualidade que cobra sua força orgásmica quando pode ser convertida em mercadoria, em objeto de intercâmbio econômico, ou seja, em trabalho. Evidentemente um corpo masculino pode ocupar (de fato já ocupa) no mercado de trabalho sexual uma posição de gênero feminino, quer dizer, pode ver sua potência orgásmica reduzida a capacidade de trabalho.

Mas o controle da potência orgásmica não define unicamente a diferença entre os gêneros, a dicotomia masculino/feminino: define também, e de modo mais geral, a diferença tecnobiopolítica entre heterossexualidade e homossexualidade. A patologização da masturbação e da homossexualidade no século XIX acompanha a constituição de um regime do qual a força orgásmica coletiva é posta a serviço da reprodução heterossexual da espécie. Tal situação será drasticamente transformada com a possibilidade de tirar benefícios da masturbação através do dispositivo pornográfico e de controlar tecnicamente a reprodução sexual através da pílula e da inseminação artificial.

Se pensarmos, seguindo Marx, que “a força de trabalho não é o trabalho de fato realizado, e sim a simples potência de trabalhar”, então teremos de admitie que qualquer corpo, humano ou animal, real ou virtual, feminino ou masculino, possui esta potência masturbatória, potência de fazer ejacular, potentia gaudendi, portanto, potência produtora de capital fixo – posto que participa do processo produtivo sem consumir-se no próprio processo. Até então conhecemos uma relação direta entre pornificação do corpo e grau de opressão. Assim, os corpos historicamente mais pornificados têm sido o corpo da mulher, o corpo infantil, o corpo racializado do escravo, o corpo do jovem trabalhador, o corpo homossexual. Porém, não há uma relação ontológica entre anatomia e potentia gaudendi. Corresponde ao escritor francês Miches Houellebecq o mérito de haver sabido desenhar uma formulação distópica deste novo poder do capitalismo global para fabricar a megafurcia (?) e o megapollón (?): em tal contexto, o novo sujeito hegemônico é um corpo (aos poucos codificado como masculino, branco, heterossexual) farmacopornograficamente suplementado (pelo viagra, pela cocaína, pela pornografia, etc), consumidor de serviços sexuais pauperizados (pouco a pocuco exercidos por corpos codificados como femininos, infantis, racializados):

[…] Quando pode, o ocidental trabalha; seu trabalho suele enfastiá-lo e exasperá-lo, mas ele finge que lhe interessa. Aos cinquenta anos, cansado do magistério, das matemáticas e de todo o mais, decidi descobrir o mundo. Acabava de divorciar-me pela terceira vez; no âmbito sexual, não esperava nada em particular. Primeiro viajei a Tailândia; imediatamente depois fui a Madagascar. Desde então não voltei a foder com uma branca; nem sequer voltei a ter vontade de fazê-lo. Acredite-me – digo, tocando com firmeza o braço de Lionel – , já não encontrará na branca a buceta suave, dócil, flexível e musculosa, tudo isso desapareceu por completo.

Aqui a potência não se encontra simplesmente no corpo (“feminino” ou “infantil”) como espaço tradicionalmente imaginado como prediscursivo e natural, mas em um conjunto de representações que o transformam em sexual e desejável. Trata-se em todo caso de um corpo sempre farmacopornográfico, um corpo efeito de um amplo dispositivo de representação e produção cultural.

Revelar nossa condição de trabalhadores/consumidores farmacopornográficos é a condição de possibilidade de toda teoria crítica contemporânea. Se a atual teoria da feminização do trabalho esconde um cum-shot, a ejaculação videográfica diante da tela da comunicação cooperante, é talvez porque os filósofos da biopolítica, diferentemente de Houellebecq, preferem não revelar sua qualidade de clientes do farmacopornomercado global.

No primeiro tomo de Homo Sacer, Giorgio Agamben retoma o conceito de “vida nua” de Walter Benjamin para designar o estatuto biopolítico do sujeito depois de Auschwitz, cujo paradigma seriam o interno do campo de concentração ou o imigrante ilegal retido em um centro de permanência temporal: ser reduzido a existência física, despojado de todo estatuto político ou de cidadania. Poderíamos acrescentar a esta noção de vida nua a de “vida farmacopornográfica”, pois o próprio do corpo despojado de todo estatuto legal ou político em nossas sociedades pós-industriais é servir como fonte de produção de potentia gaudendiNeste sentido, o que caracterizaria aqueles que, segundo Agamben, se vêem reduzidos a “vida nua” tanto nas sociedades democráticas como nos regimes fascistas é precisamente poder ser objeto de uma exloração farmacopornográfica máxima. Por isso não é de estranhar que códigos similares de representação pornográfica dominem as imagens dos prisioneiros de Abu Ghraib ou Guantánamo, a representação erotizada dos adolescentes tailandeses e as páginas da Hot Magazine. Todos estes corpos funcionam já, e de maneira inagotable (?), como fontes carnais e numéricas de capital ejaculante. A distorção aristotélica entre zoe e bios, vida animal desprovida de toda intencionalidade frente a vida digna, vida dotada de sentido, de autodeterminação e substrato de governo biopolítico, teria de ser substituída hoje pela distinção entre raw e bio-tech, entre cru e biotecnoculturalmente produzido, sendo esta última a condição da vida na era farmacopornista. A realidade biotecnológica desprovida de toda condição cívica (o corpo do imigrante, do deportado, do colonizado, da atriz e do ator pornô, da trabalhadora sexual, do animal de laboratório, etc) é a de corpus (já não homo) pornograficus, cuja vida (condição técnica mais que puramente biológica), desprovida de direitos e cidadania, autor e trabalho, está exposta a é construída por aparatos de autovigilância, publicização e mediatização globais. E por tudo isso em nossas democracias pós-industriais, não tanto sob o modelo distópico do campo de concentração ou de extermínio, facilmente denunciáveis como dispositivos de controle, mas formando parte de um bordel-laboratório global integrado multimídia, no qual o controle dos fluxos e dos afetos se levam a cabo através da forma pop da excitação-frustração.

1Preciado escreve técnico-semiótico, inverti a ordem por razão puramente estética.

terça-feira, 19 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Homens, saiam da minha teoria


Um update pessoal...

Para ser sincera, eu sou uma pessoa desinformada: isso não é nada bom. Por saber que a mídia burguesa é, como qualquer conglomerado empresarial, um cartel de entidades político-econômicas comprometidas com o lucro via entretenimento alienado e alienante, poupo-me de ver televisão e não leio revistas ou jornais de grande circulação. É um misto de comodismo com um esforço sincero de não ser agredida em meus ideais sexo-políticos – do ponto de vista simbólico, qualquer emissora que veicule comerciais de produtos de limpeza abusa profundamente da minha assignação bio-política, e acaba por me agredir. Mas não, não está certo, embora, por hoje, seja o que está dentro das minhas capacidades.

Acabo me atualizando por outros blogs e por outras feministas. A quem pense que “assim você já está recebendo a notícia pelo viés político”, a “forma notícia” também não é uma forma de pensar politicamente um acontecimento? Na medida em que o recorte primeiro desta forma de narrar é “deixai à porta da mídia todas as marcas discursivas de sua opinião”, a notícia não é o mecanismo pelo qual uma visão política se traveste de evidência? Para mim, assim o é, de forma que receber as notícias por um olhar feminista muito me agrada.

Para me atualizar, o blog que leio é o da Lola. Com todas as críticas que se fazem dela, uma coisa é certa: o fato de postar todos os dias faz com que seja um método eficiente para me manter atualizada. E o contato com feministas de outras partes do mundo dá uma dimensão importante na luta contra o machismo, no sentido de termos noção das especificidades das lutas pelo mundo afora. Enfim, o post que eu gostaria de comentar é o bom e velho post sobre “homexplicar”: embora a maior parte de mis amigues já tenha lido sobre o assunto, do blog da Lola ou de fontes outras, acho que eu preciso ver essas palavras saindo de mim mesma, como a mais ateia e desiludida das preces. Para entender, preciso fazer essas palavras passarem pelas minhas vísceras neurais, torná-las parte do meu corpo e da minha identidade. E eu o faço através da escrita.

E vamos ao que interessa

Parafraseando uma blogueira estadunidense (aconselho que vocês leiam o post da Lola também), a autora diz:

 “Homexplicanismo não é apenas o ato de um macho se explicar; muitos homens conseguem explicar coisas todos os dias sem serem minimamente ofensivos a suas interlocutoras. Homexplicanismo é quando um cara explica a você, mulher, como fazer algo que você já sabe fazer, ou como você está errada a respeito de algo que você de fato está certa, ou apresentar 'fatos' variados e incorretos sobre algo que você conhece muito melhor que ele. Pontos extras se ele te explicar como você está errada sobre algo ser sexista!

No caso da Lola, ela está visivelmente preocupada com o average man, a pessoa comum, o que, tendo em vista estarmos numa sociedade hetero-capitalista, acaba resultando no indivíduo com inclinações políticas liberais. Minha preocupação, contudo, é outra. Meu buraco é mais à esquerda.

Vivo, atualmente, cercada de pessoas que assim se reivindicam. Isso é excelente! Vivo em contato intenso com marxistas, anarquistas, enfim, pessoas comprometidas com o fim do capitalismo, cada uma a seu jeito, e que parecem entender perfeitamente o problema da opressão à mulher. São pessoas que, pelo menos em suas performances narrativas, se mostram não só simpáticas (hoje acredito que toda forma de simpatia é na verdade uma maneira disfarçada de apatia), mas solidárias, e sobretudo engajadas. Não se tratam de pessoas limitadas àquele tapinha nas costas, àquele go girl, ou à máxima “o mundo precisa de pessoas como você”. São pessoas que lêem, que estão do seu lado no dia-a-dia, que são o ombro no qual você chora ao final daquela discussão que você teve com a pessoa mais machista do mundo. Pessoas que citam trechos inteiros de uma Butler (uma? Será mulher?), Beauvoir ou Kollontai, que em assembléias e plenárias pegam do microfone para defender você com unhas e dentes.

E no entanto, se você pergunta para eles (sim, homens), onde está o problema, o problema está em todo lugar: é o capitalismo, é o machismo, é a exterioridade absoluta que nunca tem nada a ver com suas identidades. E aí você pega a galera na curva da contradição: são homens, isto é, corpos bio-politicamente assinalados a uma identidade de gênero relacionada com uma estrutura que os empodera, mas que em hipótese alguma consideram que a relação de poder passe por suas identidades, ainda que não parta delas individualmente. Pessoas que se comprometem a relações monogâmicas sem a menor pretensão de cumpri-las, enredando suas parceiras em relações instrumentais das quais visam a obter apenas uma confortável e perene fonte de sexo e afeto. Homens que gritam GOL e afirmam que estamos numa pátria de chuteiras, diante de uma indústria pseudo-esportiva que vive de alimentar (e ser alimentada) por um modelo violento de masculinidade (aliás, existe modelo não-violento de masculinidade?).

E o que acontece quando você coloca os machos na parede e cobra respostas coerentes sobre o disparate deste comportamento é o mais fenomenal homexplicanismo: eles vêm com o caminhãozinho das mais diversas citações feministas e jogam na sua cabeça fazendo tudo soar com um incrível ineditismo! Eles se apropriam daquelas que são as suas armas para lutar contra a opressão à qual desde a ultrassonografia você está assinalada, usando este arsenal teórico, que é seu, contra você. Para manter todos os privilégios relacionados à sorte cósmica de terem nascido geneticamente com um cromossomo Y.

A esses homens, peço que me dêem licença e saiam da minha teoria. Ou antes, talvez esteja mais do que na hora de repensarmos esta miscelânia de gente que é a esquerda: que ela deixe de ser o signo da luta do homem branco pela liberdade de sua etnia, sua orientação sexual e sua identidade de gênero, e passe a ser o signo da luta contra toda e qualquer opressão. Para mim, se você não é feminista, simplesmente não é de esquerda. Fim de papo.