domingo, 3 de junho de 2012

VERDADE VERDADEIRA


Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Somos ensinadxs desde bem pequenxs que existe uma verdade. Algumas coisas são verdadeiras e outras são falsas. “Você não deve contar mentiras, diga sempre a verdade” diz aquela vozinha repressora encarnada em tantas figuras adultas diferentes que é até difícil enumerá-las. Nós crescemos num afã de buscar a verdade a todo instante, quase como se ela fosse um objeto mágico e secreto, o pote de ouro no final do arco-íris.

Enquanto somos criança fica bem claro que a verdade não nos pertence, ela é do mudo dos adultos. Mamãe e papai possuem a verdade, se você não sabe alguma coisa, pergunte a eles, os adultos sabem. X professorx da escolinha também possui a verdade, e elx vai compartilhar pequenas porções de verdade com você no seu longo e árduo caminho de adestramento para se tornar um bom adulto possuidor de verdade.

O tempo todo, a verdade paira sobre nossas cabeças, inatingível e imaterial. Apesar de intocável ela parece estar sempre presente.

Quando eu entrei nessa graduação eu já não tinha ilusões. Sendo essa a minha segunda, eu já estava ciente dos egos inchados dxs professorxs doutorxs grandes possuidorxs da verdade. Mas aqui, num curso de humanas, era exatamente esse o conceito que seria tema de todo meu semestre. Logo na primeira semana de aula tive que ouvir a definição da verdade. “Anota no caderno porque cai na prova, tá.”

Definição de verdade... Eu não consigo nem pensar nisso sem esboçar um sorrisinho no canto da boca.

“Verdade é um conceito absoluto.” Opa... “absoluto?” Ousei perguntar... Mas eu já sabia a resposta que me seria dada, ela é sempre a mesma, seja na academia ou fora dela. E o que eu acho mais curioso é que o exemplo que eu ouço para ilustrar o suposto absolutismo da verdade também é sempre o mesmo.

“Claro que a verdade é absoluta. Não pode ser relativa. Se for relativa vira opinião. Você acha isso, eu acho aquilo e quem está certo? No relativismo qualquer coisa é justificada. Então podemos dizer que Hitler estava certo. Era a verdade dele. Não! A verdade é absoluta. Não tem como ser diferente.”

E aí o coleguinha na mesa ao lado ri pra mim e brinca baixinho “sua pós-moderna”...

E eu acho engraçado o exemplo citando Hitler. Sempre o mesmo! É moda por aí as pessoas apontarem o dedo e acharem o máximo as produções hollywoodianas sobre o holocausto. Mas na hora de exercer o fascismo nosso de cada dia, aí tudo muda. A gente vê os Bolsonaros da vida aparecendo aí na mídia todo dia, e muita gente concordando com ele. E a relativista sou eu... aff...

Veja bem, a verdade não pode ser absoluta, simplesmente porque ela é um conceito (apesar de ter ganhado status de entidade). Todo conceito é criado, inventado. Quem definiu o que é verdade? Porque essa definição foi a escolhida e não outra qualquer? Psiu... segredo... porque conceitos são criações que tem finalidade política... oops... contei...

Imagina só se a sociedade ensinasse às crianças que verdade não existe, se elas aprendessem que são livres... Oh! Isso seria anarquia! (rsrs) Como produziríamos adultos capazes de trabalhar resignados produzindo a tal da mais-valia pro patrão? Como produziríamos mulheres quietinhas que seguem enchendo suas barrigas de bebês novinhos em folha, prontos pra receberem seus códigos de barra? Imagina se as pessoas acreditassem que são livres para viverem suas vidas da forma que desejassem, que tudo isso é um grande teatro orquestrado pra encher o bolso de alguns poucos...

Certa vez, conversando com minha amiga e companheira de blog, ela discorria sobre a pós-modernidade. Lembro muito bem das suas palavras: “sabe por que a academia não gosta da pós-modernidade? Porque esse é o momento histórico onde as supostas minorias estão invadindo a academia. Negros, mulheres, gays... todo mundo sentando, escrevendo, publicando e dizendo que aquela verdade ali, que foi proferida por milênios pelo homem peniano, ocidental, heterossexual, não nos contempla não... Isso aí que vocês tão falando não tem nada a ver com a minha realidade, e agora é a nossa vez de falar... Então sentem aí e me ouçam... E é claro que a academia não vai sentar e ouvir porra nenhuma! Ninguém quer ouvir preto falar! Ninguém quer ouvir mulher falar! Ninguém quer ouvir viado falar! Ninguém quer ouvir sapatona falar! E se você for tudo isso ao mesmo tempo aí que ninguém quer te ouvir mesmo!”... É Minkah, você tem razão...

Essa verdade de vocês é absoluta única e exclusivamente porque ela é ditatorial. Erga sua voz contra ela e serás penalizado. Aliás, nem precisa tanto, basta questioná-la e já serás penalizado.

Por que meninas não podem gostar de meninas e meninos de meninos? Por que meninos não podem usar roupas de meninas e meninas as de meninos? Aliás, o que são meninas e meninos? Quem disse que ter um pinto ou uma buceta te define? Por que eu tenho que desejar casar e ter filhos? Só por que eu tenho um útero? Eu também tenho o apêndice, eu devia estar fazendo o que com ele? Por que eu preciso comer carne? Preciso mesmo? Eu vou morrer por acaso se deixar de comer animais? Por que temos que fazer testes em animais? É impossível produzir conhecimento médico sem torturar seres sencientes? E a gente precisa desse conhecimento? Aliás, o que é conhecimento? Ah... é outro conceito...

Veja, essas perguntas não são um brain storm aleatório. São perguntas que tem sido feitas justamente no intuito de mostrar a cagada que é apostar nesse sistema que tá aí. E o simples fato de pensar nessas perguntas já é subversivo.

E nessa hora sempre tem um engraçadinho que vai dizer assim “ah, mas a gente pode achar que tem a verdade, quando não temos. Então mudamos a forma de agir e pensar, a cultura é mutável, coisas que já foram consideradas normais hoje não existem mais, como escravidão. Mas isso não significa que verdade não exista, apenas que acreditávamos em algo falso”.

Sabe o que eu escuto? “Eu estou sentado aqui nessa cadeira dourada há milênios conduzindo a humanidade lindamente como fantoches bobalhões me servindo, e agora vem essa galera aí achando que podem me desbancar? Eu não abro mão do meu conceito, então vou usar aqui de todo o meu poder de retórica rebuscada pra convencê-los. Vou jogar aqui um exemplo pra agradá-los... mas claro que todo mundo sabe que escravidão não acabou coisa nenhuma. Ah, mas se alguém perguntar a gente lembra logo da Princesa Izabel que fica tudo certo. Mas meu conceito é MEU! E ninguém tira ele de mim!”

Aí quando eu digo que isso é religião a maluca sou eu... Será possível que ninguém nota a semelhança entre essa discussão de verdade e o pastor esbravejando com a bíblia na mão? Galera, verdade absoluta é o Deus acadêmico!!! Oiii!!! Aloooouuuu!!!! Ninguém nunca poderá ter certeza se atingiu a verdade ou não, mas isso não faz com que ela não exista, nem deixe de ser absoluta. Só falta dizer “mesmo que você não acredite na verdade, ela acredita em você”.

De novo... depois a maluca relativista sou eu... aff...

2 comentários:

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  2. Vou resumir minha opinião numa frase, espero que entendam: " A verdade acadêmica é sempre acompanhada de um diploma de doutorado". cansei de discutir com mestres, vou esperar até ter minha credencias para divulgar minhas "verdades absolutas" aos ventos. "Conhecimento" (este mero conceito) é poder. Bjookkksss

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