segunda-feira, 22 de abril de 2013

BUCETAS INSACIÁVEIS: de Sherazade a Valesca, mitos sobre a emancipação da mulher.



As mil e uma noites é um vasto livro que, através da biografia de Sherazade, que todos conhecemos, alinhava uma série de histórias tradicionais num fio contínuo que pretende, ainda que não explicitamente, remontar a fundação da sociedade sobre o controle repressivo de instintos como ganância e insaciabilidade sexual feminina. Dentre as muitas historietas, salta aos olhos a primeira, na qual Shahriar e Shezanã, dois ricos reis, descobrem ser traídos por suas incansáveis mulheres. Arrasados de ódio e humilhação, saem em viagem pelo deserto tentando buscar homem de pior sorte que a sua – isto é, saem em busca de algum que seja ainda mais atormentado pela natureza puramente sexual de sua concubina. Em dada altura, um gênio do mar, criatura maligna de imenso poder, aparece diante deles, que se escondem. À distância, todavia, observam que a criatura tem sob seu poder uma linda e rica caixa, onde guarda... UMA MULHER, sua concubina.
O gênio adormece, e a jovem, deslumbrante, convida-os a fazerem sexo com ela. Cumprida essa etapa, como troféu da sua conquista sexual, a mulher – que não tem nome – confisca um anel a cada príncipe, justificando da seguinte forma o confisco dos objetos:

São anéis de todos os homens a quem concedi meus favores, noventa e oito que conservo como lembrança. Pedi a vossos pela mesma razão, e para completar a centena. Eis, pois, cem amantes que tive desde o dia em que esse monstro me raptou, apesar da sua vigilância e das suas precauções. Pouco me importa que me encerre naquela caixa de vidro e me oculte no fundo do mar, porque nunca deixo de enganá-lo.

                A idéia de mulheres como seres psiquicamente achatados, movidos por uma lascívia exclusivamente heterossexual e simultaneamente invejosa e competitiva, está presente em toda a nossa cultura, moldando certamente a maneira como nos vemos individualmente, bem como a maneira como encaramos a sexualidade feminina. Isto é: a maior parte das narrativas que nos envolvem, que nos embebem, aborda a sexualidade não como um construto cultural regido por interesses políticos e relações de poder, mas como o controle ou administração de uma porção de desejo inata, dirigida para esta ou aquela manifestação sexual. Existe, portanto, uma equivalência entre uma determinada anatomia, uma identidade e um tipo de desejo; e nesta narrativa, a única liberdade possível é a liberdade sexual.
                Nossa grande liberdade: sair à caça. Vingar nossas vovozinhas reprimidas. Vamos armadas de minissaias e cílios postiços, pulando de cama em cama: quantidade se converte em sismógrafo da liberdade. Quantidade de homens: e o ballet da liberdade, tão mais bem executado quanto mais pirotécnica for nossa técnica orgástica. Precisamos desesperadamente deles: precisamos provar que nosso feminismo não é o paroxismo histérico freudiano, e para atender à inspeção masculinista que patologiza qualquer ato de rebeldia como falta de uma boa piroca, nós vamos a elas. É o nosso mantra: abrir a caixa de pandora e inundar o mundo com nossos fluidos corporais.
                Como se vê, o discurso sobre a liberdade sexual como algo que se restringe à variedade de parceiros, mantendo uma performance heteronormativa projetada para o olhar masculino, tem suas bases na antiguidade, e pode ser verificada em muitos outros mitos além de As mil e uma noites; porque o discurso patriarcal nos vê exatamente como essas criaturas cujo elemento é a pura luxúria. Aceitar isso como um dado e buscar liberdade sexual através dessa premissa não é contestar as relações de gênero como violentas, mas na verdade reforçá-las, reiterá-las, retificá-las.
                Quando, por essa semana, me veio aquela notícia já célebre da pós-graduanda que defendia os funks de Valesca Popozuda como feministas, não pude deixar de pensar todas essas coisas. Em primeiro lugar, porque é uma abordagem no mínimo anacrônica: dizer que, hoje em dia, falar de sexo ainda seja um tabu é um tanto deslocado da realidade. Vá às bancas de jornal, aos cinemas, no escritório do seu trabalho, na sala dos professores, é só do que se fala. Constantemente somos inspecionadas: o que, como, com quem estamos fazendo? Estamos tento suficientes orgasmos para validar nossa sanidade? Será que você não é feminista só porque é mal comida? Em segundo lugar: no primeiro volume de A história da sexualidade, Foucault já nos alertava para o fato de que, mesmo no passado, não havia uma proibição generalizada em relação a falar de sexo, mas uma regulação de como, com quem e onde falar dele; como, onde, com quem praticá-lo. Em terceiro lugar, as feministas radicais da década de 1970 (com seus prós e contras), já alertaram para o caráter institucional do ato sexual heterossexual como um lócus de poder, administração de identidade, e para o fato de que, quando procuramos sexo, não se trata da busca abstrata por uma sensação corpórea destituída de sentido mas, pelo contrário, da busca mesmo dos significados instituídos em torno de determinadas performances. E por falar em performance, Judith Butler e Beatriz Preciado já sublinharam o ato sexual como um ato performático, como a repetição reiterada e ritualizada, cristalizada em imagens e discursos, pelos quais determinadas práticas sexuais são construídas como naturais, e outras relegadas à abjeção.
                Digo tudo isso porque a diferença entre “Minha boceta é o poder” e o discurso milenar de As mil e uma noites é zero. A sexualidade é a forma de enganar homens para obter benefícios financeiros: onde está o feminismo? E a maneira de “fisgar” o macho se dá, simultaneamente, pela habilidade específica de fornecer prazer sexual ao homem, satisfazendo sua masculinidade predatória, e tornando-se bonita nos parâmetros racistas e machistas de nossa cultura, que incluem “Coloca silicone/ E faz lipoaspiração/ Implante no cabelo com rostinho de atriz”: isso é feminismo? Corroborar com uma cultura de adultério e medir o desempenho no ato sexual não pelo prazer obtido para si mesma, mas pelo quanto “eu esculacho a tua mina”: isso é feminismo? “Vou comer o seu marido” é questionar a monogamia? Porque me parece (e Beauvoir assina embaixo) que o adultério sempre foi uma parte institucional dos contratos monogâmicos através da história.
                E me parece que, num contexto mais amplo, produzir uma dissertação sobre como o funk de Valesca é feminista é reproduzir, no espaço acadêmico esse mesmo discurso: estou em dia com minha cota de orgasmos, meu pensamento já pode ser considerado ciência?

4 comentários:

  1. CARALHO. Muito foda, este texto, cara. Na verdade, ele me lembrou um estudo que fiz sobre bruxaria e inquisição, no qual a sexualidade feminina era indício do "crime": mulheres que se satisfizessem sexualmente (sozinhas ou com homens - dentro e fora do casamento) eram investigadas por conta do excesso de libido, que era perigosa ao homem. Dizia-se, inclusive, que uma bruxa poderia, não só prender um amante para si [falando as palavras de consagração da hóstia na boca do amado durante o ato sexual - hoc est enim corpus meum, ou, em português, este é o meu corpo (palavras que eu tatuei no pulso, por achá-las heréticas e eróticas)], como torná-lo sexualmente incapaz ou, ainda, fazer desaparecer o seu "membro viril".

    Nesta época, transgressão sexual era rebeldia, com pena de morte na fogueira. Hoje, reprodução de estereótipos sexistas.

    Aliás, a relação da mulher com uma sexualidade insaciável está relacionada ao próprio mito cristão da criação da mulher: é Eva quem não resiste à tentação e arrasta o homem com ela.

    O interessante é ver como as sociedades ocidentais conseguiram inverter padrões relativos à mesma postura: a mulher deixa de desejar a castidade como virtude para procurar um aperfeiçoamento do sexo, em prol do prazer masculino, como forma de garantir seu status de livre, feliz e saudável. Também em estudos da época medieval/moderna, dizia-se que os "orgasmos" regulavam a sanidade feminina (sem eles, a mulher tornava-se histérica), que eram, ou regulados pelo sexo hétero-normativo, com seus maridos, ou por meio de "masturbação" em dosagens específicas indicada por médicos - no caso de mulheres solteiras (ultrapassar as doses era indício de pecado de molície e punição inquisitorial). {orgasmos está entre áspas porque se acretitava que o gozo masculino era responsável pelo orgasmo feminino. Isto pode-se ver claramente até em literatura erótica produzida no século XVIII - só para se ter uma ideia de como a independência da satisfação sexual feminina ao homem é algo recente}.

    Anyway (viajo demais quando começo a falar de história, mas, pensei que você poderia achar estes dados interessantes), assim como o capitalismo conseguiu encontrar formas de mudanças estruturais que não abalassem sua essência predatória e desarticular a reação do proletariado, o machismo evoluiu. E evoluiu a ponto de fazer com que mulheres acreditem que a satisfação sexual que elas proporcionam aos homens as garantem liberdade, enquanto declara ao mundo cristão o quanto o feminismo não passa de uma busca insana pela poligamia, o adultério e o fim da família. Assim, eles se fortalecem, tirando o crédito da real luta pela igualdade de gêneros...

    E, este é o verdadeiro ponto que deveria ser estudado nas universidades (sem desmerecer o trabalho da menina, afinal, ela deve ter tido alguma argumentação interessante o suficiente para fazer seu projeto aprovado): as mudanças do machismo e as formas de apropriação do feminismo que estas mudanças usam para reafirmar a dominação masculina nas sociedades ocidentais.

    Mas, isto é só o que eu penso.

    Beijo.

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  2. P.S.: desculpe pelo texto desorganizado, baby. Tô meio bêbada, mas, não pude deixar de comentar...

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  3. Muito bom o texto, é bom trazer esse tema à tona porque muita gente realmente acha que a valesca popozuda (e outras) é feminismo, porque prega a 'liberdade sexual'.

    Mas, estava lendo aqui uma notícia sobre a menina que fez o mestrado sobre a valesca popozuda, e não me parece que ela ache que ela é feminista.

    Aqui: http://literatortura.com/2013/04/19/aluna-passa-em-2o-lugar-em-mestrado-com-projeto-sobre-valesca-popozuda-e-ai-qual-o-pobrema/, aparece

    "Entre os objetivos do projeto está a desconstrução da ideia de que o funk seria o último grito do feminismo através das músicas de Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, entre outras."

    Nesse sentido, acho que pdoe ser um trabalho bem bacana.

    abraços, e parabéns pelo texto!

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