domingo, 18 de dezembro de 2011

Onde elas estão?





Desde o começo desse ano, tenho tido com os marxistas uma relação... dialética. Se, por um lado, aprendo, troco muito com eles, por outro eles me deixam uma porção de pulgas atrás da orelha que acho válido de comentar (vou ser sucintx, juro).

Todo marxista sabe que as ciências de que dispomos são burguesas: pensadas por e para uma classe a fim de atender seus interesses específicos. Essa classe, por sua vez, não é um mero conjunto de corpos genéricos que internamente se organizam de maneira horizontal, justa e autogerida, mas que a burguesia tem uma cultura, uma raça, um gênero, uma orientação sexual, e por aí vai. No entanto, tem hora que muito marxista faz ouvido de mercador, e lança mão exatamente das ciências burguesas para validar seus argumentos – e, ao que parece, a História é a menina dos olhos.

Desde março ou abril que não me sai da cabeça aquela oração “a história do Homem é a história da luta de classes”. Do homem, pode até ser: dx negrx, da mulher, ou seja, a história “dos outros” (como o cara pálida tem nos chamado) é uma outra história... Gente, POR FAVOR, chega de confundir HISTÓRIA com PASSADO. Enquanto ciência, a história NARRA o passado, e o faz elencando como protagonistas aqueles que politicamente são eleitos enquanto tal. Igualzinho às fábulas de Esopo, minha gente, a História é só uma narrativa pensada como meio de justificar uma moral.

Da maneira como a história tem sido contada, a mulher só entra em cena quando se envolve em algum evento da luta de classes. Tirando isso, reina um silêncio sepulcral: parece que elas não fizeram nada de interessante nesses anos todos. Que não pensaram, que mal viveram, e que não contribuíram, em absoluto, para que o mundo seja o que é hoje. Parece que fomos, menos que coadjuvantes, o cenário do Épico do Pau.

A lição número um do feminismo é saber que histórias são contadas por pessoas com interesses específicos: esse ponto, aliás, acho que está mais do que batido. Porém, a pergunta que vem a seguir é: o que essas mulheres estavam fazendo, e onde, e como?

O sistema falocrático não diz respeito só à economia, e a prova disso é o silêncio sobre a produção cultural feminina. Artistas talentosas, pensadoras argutas, escritoras férteis de obras profusas... obras que certamente eram “vendáveis” foram engavetadas pelos engravatados críticos e editores: o critério da “qualidade” nunca foi o que regeu a entrada da mulher no mundo das artes ou do pensamento, como querem de nós que acreditemos.

Nesses dias de TPM tenho feito muitos quadrinhos para extravasar. Porque, afinal de contas, o que se passa no mundo mágico do meu útero nada tem a ver com meus amigos e companheiros. Enquanto ninguém provar que folha de papel tem sentimento, e que fica magoada por eu descontar nela todas as minhas angústias, muitos caderninhos inocentes serão torturados. Lá pelo meio dos meus rabiscos, surgiu a pergunta: onde estão AS cartunistas? Decerto existem. Mas ONDE ELAS ESTÃO?

Como diria o ditado, “que las hay, las hay”, e fui com tudo – via tumblr, Google, Wikipédia – atrás delas. E encontrei! A maior parte restrita à produção alternativa, zineira – como moizinha. Algumas com um acúmulo de anos, obras publicadas, personagens... enfim. Inspiração para quem precisa!

Suzy-X (http://seesuzysketch.blogspot.com/) é bem atual, retrata problemas do cotidiano de feminista. Na mesma temática, tem a zineira http://www.juliedoucet.net/. Alison Bechdel escreve quadrinhos protagonizados por dykes, numa tirinha que foi publicada durante anos em diversos jornais, e neste site (http://dykestowatchoutfor.com/) muito simpático encontra-se alguma de sua produção. Também foi publicada em português, http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n10102007_10.cfm.

Elas estão por aí...

domingo, 11 de dezembro de 2011

Para imprimir, para distribuir, para refletir...



O texto não está, assim, um primor. Na verdade, se comparado a outros aqui do blog, está mesmo ruim. Mas se eu aprendi uma coisa nesta vida de vegan e feminist, é que a atenção de gente intolerante é rara, e quando a há, é curta. Muitas vezes, quando a pessoa se depara com um texto grande demais e que, logo de início, tende a destruir tudo em que acredita, rejeita-o quase imediatamente. Esse zine (ou flyer, ou whatever...) é uma tentativa de contornar o problema: entregar um zine na mão de alguém, com um texto sucinto, figuras "bonitas" (mas essa é uma questão para depois), às vezes é mais eficiente do que a estratégias tradicionais do bate-boca ou testamento.

Estamos tentando de tudo; estamos fazendo todas as experiências possíveis e necessárias. Não somos dones da verdade, mas onde chegarmos com ela, faremos de tudo para denunciar a falácia histórica de que a única história possível é essa que se vem contando, impondo e destruindo... E contamos com a SUA ajuda ^^

P.S.: Se alguém quiser as imagens em resolução e tamanho próprios para imprimir, basta mandar e-mail para coletivocaju@gmail.com ou (espero que funcione, não estou muito íntimx com isso aqui) 



Boa semana!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um dia normal: entre a mitologia e o gardenal

Hoje eu tive um excelente dia! Sim, pros padrões da normalidade corriqueira eu tive um excelente dia. Acordei de bom humor, depois de uma ótima noite de sono, e fui logo saudada por aquele ser peludo e de rabinho abanando que dorme no meu quarto. A manhã estava agradável, o ônibus não veio lotado, e eu fui sentada confortavelmente até meu destino, lendo meu livrinho que hoje me pareceu mais interessante do que nos outros dias. O dia de trabalho transcorreu com facilidade, fiz mais vendas do que num dia comum, o que significa mais comissão. O pagamento também foi feito hoje, apesar do 5º dia útil ser somente amanha. Mas eu dei a sorte de ter uma patroa legal. É, ela é legal, compreensiva, se preocupa com seus funcionários, sabe... Voltei pra casa pra encontrar novamente aquele serzinho que sempre me espera na porta já com o rabinho em frenesi, pronto pra colocar seu brinquedo preferido aos meus pés e pedir um pouco de atenção.

Sim, hoje foi um ótimo dia. E no entanto a revolta ainda é latente dentro de mim. Revolta no sentido revolucionário mesmo, não que eu esteja de mal humor agora. É que revolta olhar pra esse dia supostamente bom e satisfatório e concluir que ele, na verdade, é uma bosta. Como posso me sentir feliz por ser explorada? Como alguém pode se sentir feliz sabendo que sua mais valia serve pra comprar carros com banco de couro prx patrxo legal e preocupadx? Como posso ficar feliz acordando na selva de pedra e vendo que estre ser tão carinhoso, que lambe minha mão pela manhã, dorme na gaveta de concreto que o aprisiona? Como alguém pode se sentir feliz domesticado e escravizado?

As chateações de verdade do dia perfeito (que obviamente não podia ser 100%, porque isso é vida real, né minha gente) vieram na hora do almoço. Primeiro o momento marmita... Mas esse momento já estou até excluindo da chateação diária, porque a gente se habitua com as desgraças. É uma triste acomodação. Durante o almoço minha marmita é sempre um evento, porque apesar de eu já estar dividindo aquele espaço de trabalho há alguns meses com as mesmas pessoas, é incrível a capacidade que elas tem de continuar chocadas com o fato de eu não ingerir cadáveres. Elas deveria é ficar chocadas com o fato delas ainda ingerirem cadáveres... ora...

E o segundo momento veio quando uma colega anuncia que talvez tenha que pedir as contas porque o marido anda chateado porque ela trabalha aos sábados, “dona de casa não trabalha aos sábados”, disse o pirocudo. Coitada, depois de parir 6 filhos pro filho da puta, finalmente encontrou um emprego que ela gosta e o babaca vem com essa. Nessas horas o machismo puxa nosso tapete, queria dizer pra ela gritar, se revoltar, largar o cara... queria dizer muitas coisas, disse algumas, outras seriam inúteis porque ela não entenderia mesmo... No fim fiquei pensando em todas nós, mulheres, e nas vacas leiteiras. Somos iguais! Eles pensam e agem como se nossos úteros estivessem a serviço deles. Perguntei por que ela teve 6 filhos, e ela me respondeu que o marido queria uma menina, então ela teve 5 meninos e parou quando veio a menina.

Se eu fosse dessas que leva mitologia a serio eu levantaria os braços e perguntaria “Por que Deus? Por quê?”. Mas como eu sou dessas que acha mitologia interessante mas não a leva a serio eu apenas ouço a resposta que não vem do além “Porque o kapital está a serviço do grande falo, minha filha... você ainda não sabia?”... É... eu sabia sim voz...

Eu comecei a desenhar esse texto na minha mente, dentro do ônibus voltando pra casa. E naquele momento fiquei pensando em frases tentando criar um titulo... E foi quase inevitável lembrar daquele jargão idiota que diz que “a ignorância é uma benção”. A ignorância é a chave mestra que mantem as engrenagens do mundo de opressão funcionando. O grande problema nisso tudo não está no fato de SER ignorante, mas de QUERER PERMANECER ignorante. Ignorar o problema, fingir que ele não existe, não o faz desaparecer, mas em muitos casos o afasta da nossa visão.

O que estou tentando dizer com esse texto é que considero realmente impossível ser feliz quando se decide seguir pelos caminhos de luta. Não dá pra sentir felicidade tendo consciência da sua opressão diária, da opressão das pessoas e dos seres a sua volta, da natureza... Estamos todxs enjauladxs, acorrentadxs, amordaçadxs, sendo diariamente estrupradxs, tendo nossxs úteros usados pra finalidades sujas. Nossas crianças já nascem marcadas a ferro, são arrancadas de nós e já estão condenadas... Somos todxs condenadxs.

É preciso deslocar o eixo de lugar, quebrar esse velho relógio. A felicidade jaz na luta voraz pela mudança. Olhar-se no espelho e constatar a beleza que é trazer um pouco de sangue nos olhos... Desejo e esperança... esse é o eixo...

E a voz mitológica que não vem do além insiste mais um pouco: “Não se preocupe não minha filha... O que Eles querem é isso mesmo, querem que todos vocês, ovelinhas, acreditem que a felicidade lhes pertencem. Porque só assim é possível etiquetá-la. Você não sabia? Em última análise toma aquele remedinho tarja preta... custa caro, viu... Mas promete felicidade!”

Foi mal aí dona voz... Mas eu prefiro manter a mente limpa e os olhos abertos. Ambos sedentos... sempre!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Desaparecidxs

Vamos tentar ser humanxs hoje. For a change.

Meu companheiro foi embora hoje. É, ele é um daqueles homens com coisas entre as pernas e que se pensam homens. Estou explicando - e ele está entendendo - que as coisas não são tão preto-no-branco, que ele não é tão homem quanto pensa, e que não ser homem é ótimo! E que se ele se acha heterossexual, bem, temos um problema: se eu não sou mulher, ele não é tão hetero assim...

Deixou já um incômodo, ele ter ido embora. Não é bem saudade-carrapato-melacueca, mas uma coisa muito simples, muito direta: é bom estar lado a lado com um militante tantas horas seguidas!!! Acordar do lado de uma pessoa para quem você não tem que explicar tudo-de-novo, do zero, todos os dias... que não acha um absurdo que eu fale, com todas as letrinhas, que o mundo humano gira em torno de grandes caralhos dourados e voadores, e nós, não homens, somos os alvos desses mísseis de porra. (Adorei essa história de mísseis de porra, gente, que máximo!). Não só isso, mas uma pessoa que aprende. Aprende todos os dias um pouco mais, cheio de dúvidas, dificuldades, mas cheio de vontade de passar por cima disso tudo. Aham, demora pra entender. Nunca estive nesse lugar de fala, mas quando se é branco, com pênis, heterossexual, deve ser difícil entender um bocado de coisas. Mas até agora tudo vale a pena, tudo.

Não posso falar pelas duas pessoas desse blog, e como não tem essa de quem-é-quem... enfim, tenho entrado de cabeça no feminismo. Escrito muito coisas que não sei bem onde enfiar, o que fazer com elas... resolvi sair do armário e entrar no meu lugar de fala. Isso aí. Fiz uma opção política, acadêmica, e um projeto de vida que eu deveria ter feito muitos anos atrás: ver o mundo através da minha opressão. Largar dessa porra de tentar ver pelos olhos dos outros, da teoria dos outros, da opressão dos outros. Cansei. Não vou dizer aqui que meu lugar de fala é a coisa mais constante do mundo. Posso largar tudo e virar freira. Em 10 minutos. Ordem das carmelitas descalças. Não garanto muita coisa do meu futuro, mas garanto que, a partir da minha escolha, ficou tudo bastante claro. Agora uso a teoria que convém para os fins políticos que escolhi: e jogo fora o que não presta, o que não me interessa. Sou feminista, até onde sei, e isso me deixa muito feliz.

Só que me deixa muito solitária. E ser feminista é lidar com coisas muito sérias. O mundo é hostil e não foi feito para nós não-homens. Esse Homem, por sua vez, é uma fatia muito fina do bolo da humanidade: os brancos, heterossexuais, de direita, enfim... Vejam bem, era para ser o contrário! Se o homem, essa coisa aí que eu acho bom de ser combatida, é a menor fatia, eu deveria estar feliz! O resto do bolo inteirinho me pertence... né? E nós somos a maioria, então é só a gente se juntar, colocar ordem na casa e viver feliz para sempre, num paraíso vegan-queer... né?

Não é... é tanta coisa pra explicar, pra desconstruir... Ouvir diariamente que "vocês mulheres/negrxs/minorias-em-geral já têm tudo, o que MAIS vocês querem?"... Ou, pior ainda, falar com as mulheres (elas não têm culpa, eu sei) que dizem "mas eu GOSTO de me sentir bonita, ninguém está me obrigando"... Mostrar diariamente para as pessoas, como uma mãe a uma criança, que a arquitetura, que a tecnologia, que toda a produção humana tem um discurso simples: "Pertence ao caralho". O caralho dourado, voador, grandão, viril, branco, europeu/estadunidense e assim por diante.

Pura coincidência que 10 mulheres morram por dia assassinadas por seus maridos, que 2 sejam agredidas por minuto, que o Brasil seja responsável por quase 50% das mortes de transsexuais no mundo... E é como eu sempre digo, o mais difícil é explicar as coisas fáceis. Essas é que dão trabalho. Essas é que dão uma puta canseira, e eu estou cansada, triste, desgastada, tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

Tenho uns planos delinquentes, delirantes, de que as coisas que ando escrevendo aqui no conforto ronronante do meu PC ajudem pessoas a não sofrerem tanto por causa dessa merda de falocentrismo. Elas virão à tona, tudo em tempo; mas por enquanto, estou aproveitando as férias que me dei do querido-blog. Quem milita conhece o desgaste, espero estar perdoadx no coração dos escassos leitores.

Não sei quando volto, mas espero voltar. Enquanto isso, boa noite a todxs!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cansadxs e sem tempo, mas ainda respirando...

Umas coisas pra pensar:


FEMINAZI: porque exigir que seu gênero seja tratado com dignidade é a mesma coisa que invadir a Polônia...


Hum, interessante! Deixe-me registrar isso na minha listinha de "coisas para as quais estou pouco me fodendo".




 Você tem o direito de ter sua opinião e eu tenho o direito de dizer quão idiota ela é!





Comece uma revolução, pare de odiar o seu corpo.

domingo, 4 de setembro de 2011

Utópico

COMO eu queria um mundo sem machismo, sem especismo, em que eu não tivesse que militar.
em que eu pudesse só escutar as minhas músicas preferidas e andar a esmo, sem nenhum compromisso de chegar a algum lugar, dizer onde estive, sem nenhum risco de me estuprarem, sem risco de me roubarem. um mundo em que cada casa pudesse servir de abrigo, em que cada pessoa fosse anfitriã, onde não fosse necessário documento, em que as pessoas fossem ingênuas e virgens e não conseguissem sequer
imaginar o que significa "medo".
um mundo em que eu me vestisse só pra espantar o mosquito e o frio.
em que eu tivesse que correr só pra me divertir.
em que eu tivesse que escrever só pra me lembrar do que é bom.
em que eu não tivesse que ler o rótulo pra saber se o produto é feito à custa da exploração de um outro ser vivo.
aliás, um mundo sem embalagens. onde eu pudesse ver através dos rostos.
um mundo com um balanço pendurado em uma arvore, pra balançar a tarde toda tentando ver o outro lado do horizonte.
um mundo cheio de pássaros debandando para o sul.

Um mundo tão perfeito quanto uma música mal executada ao piano. Onde os erros, acidentais, não ferem os ouvidos. Antes, o erro fortuito de um dedo brincalhão adverte-nos para o fato de que a música nunca se repete: cada execução é única, e é única em suas imperfeições, em seus erros.

Um mundo onde eu não tenha que lutar, em que eu viva apenas e apenas para mim mesma. E assim, sem dever nada ao mundo, que eu finalmente me conheça. Onde meu desejo não seja moldado nas formas da opressão que eu vivi. Que meu desejo não seja podado pelas lâminas da violência simbólica.

Um mundo em que, todos iguais, fossem todos igualmente amigos. Iguais, igualmente amantes. Iguais, igualmente irmãos. Iguais, pouco importaria se hoje é a última vez que nos vemos na vida: seu rosto refletir-se-ia em todos os demais, e meus braços, iguais a todos os outros, nunca deixariam saudades. E cada vez que você a alguém abraçasse, humano ou não humano, eu sentiria na brisa a carícia da sua lembrança. Simples assim. Na brisa do balanço que sobe e desce, enquanto procuro perscrutar o horizonte.

domingo, 28 de agosto de 2011

Seus cabelos azuis

Foi de pé, no meio do outono, tomando sorvete de casquinha. Velho hábito esse meu, tomar sorvete no frio. Mamãe, médica, diz que o corpo humano, mui primitivo, pede gordura para proteger-se, mal sabendo que bem ali, nas Lojas Americanas ou na Leader da esquina, há casacos. Pedia sorvete, eu tomava o sorvete de pé, erguida contra o vento frio como um obelisco inabalável, como um obelisco erguido por reis do passado, quando animais falavam. Um obelisco que atravessava todos os tempos, uma estátua de uma certa liberdade. Quis lhe dizer tudo isso, mas você não estava a meu lado, e pela primeira vez senti saudades de você. Eu quis lhe contar alguma coisa sobre como aquela tarde trazia ventos do Sul, eu quis lhe dizer como havia asas de fadas transparentes naquele ar gelado, e também quis com você rir de algum sátiro que passou pulando na rua. Porém, tínhamos crescido, saído da escola, você agora morava em outra cidade e eu não tinha como lhe dizer absolutamente nada. Pois além de saber que você estava em Minas Gerais, eu não sabia mais nada; minha amiga agora representava um vago conhecimento de geografia.

Quando meses depois fui te ver, você tinha lindos cabelos azuis. Lindos cabelos de anis, que dava vontade de enfiar inteiro na boca, e chupar essa cor de arco-íris até a última gota, até que o cabelo descolorido como palha aparecesse sob a tintura. Nunca achei que fosse de mentira aquele azul, não acredito que haja de fato coisas de mentira. Se não foi a natureza, se foi a farmácia que te tingiu a cabeça de céu, não é menos verdade, por não ser menos você. Tivesse cabelos vermelhos, laranjas, saía de você esse bando de cores, do seu sorriso, e eu tive certeza de que meu lugar era ao seu lado. Que não fosse físico, esse lado, eu também sabia, conquanto tivesse o conforto das suas palavras, conquanto você pudesse me abraçar com a alma, conquanto pudéssemos tomar sorvetes contra o outono em cidades diferentes, sabendo que estávamos unidas pelo tempo.

E naquele dia de ressaca, quando acordamos lado a lado, eu acordei primeiro, e a primeira coisa que vi foi aquela cascata azul manchando o travesseiro, enquanto uma nesga de sol rasgava o quarto em dois. Eu sabia que era aquele ali meu lugar, ao lado do seu azul.

Eu nunca tinha tido 13 anos de relacionamento, muito menos tinha me visto querendo terminar tal feito. Porque, veja bem, de fato não ligo para as histórias das coisas, se o presente me machuca. Mas com você, com você é tão diferente! Com você eu só podia lembrar daqueles lindos cabelos azuis. Daquele banho de chuva que levou embora um pé das minhas havaianas. Mesmo que a Você do presente me machucasse, e eu tenho certeza, certeza, de que te machuquei também: nas manhãs de outono que vieram antes do fim, não havia um dia sequer em que eu não pensasse em reaver aqueles seus cabelos azuis. E aquele sorriso que irradiava todas as cores. E as histórias de todos os mundos que inventamos na esquina da sua casa, antes mesmo de você se mudar para aquele distante continente de Minas Gerais. Não havia um dia em que eu não tentasse reaver aquela menina com quem eu queria encontrar liberdade dos pais e avós assassinos de sonhos, com quem eu queria salvar o mundo do capitalismo, e do machismo, e do racismo, e do especismo... Não... terminar com você não era apenas dar por encerrada uma história, mas fechar as cortinas de um futuro que desenhamos juntas, lá no quadro de giz da nossa infância.

Então, uma manhã de verão derreteu o nosso sorvete de uma vez por todas, uma ligação de telefone, e burocráticas como duas stalinistas, estava por terra o nosso portentoso castelo de cartas. E pensar que jamais enxerguei a fragilidade de nossa arquitetura de papel, cheguei a apostar certas feitas que era inabalável, enquanto cá e lá já as traças invisíveis comiam nosso alicerce. Subestimamos o poder das pequenas mágoas e das pequenas feridas, enquanto estávamos ambas concentradas em problemas maiores. E não vimos. Mal vimos. Que a poeira assentou no seu cabelo azul e a miopia se assentou nos seus olhos. Agora não sei, já não sei, se a garota que tinha aqueles lindos cabelos ainda existe. Por último, vale dizer, que os cabelos eram tão mais lindos na medida em que eram seus...

domingo, 21 de agosto de 2011

De um outro lugar...


Bom, gente, hoje o POST vai ser um tanto quanto diferente. Em vez de ficarmos matraqueando para vocês ouvirem, vamos dar lugar, mais uma vez, a um@ amig@ querid@, a Dorothy, que para além de leitora assídua – ao que parece – deste humilde blog, tem opiniões e posicionamentos que nós achamos MUITÍSSIMO RELEVANTES. Ela aqui faz uma crítica pós-moderna e pós-estruturalista ao nosso “No seu cu... que tal?”. O texto pode ser lido nos comentários do nosso post, mas achamos que ela merece mais visibilidade (aliás... uma mulher-trans-pós-identitária sempre merece mais visibilidade!) e cedemos o honrado post de domingo para suas palavras.

Nós, é claro, elaboramos uma réplica, mas invertendo os papéis, nossa resposta pode ser encontrada nos comentários.

"O problema do feminismo estaria na questão importantíssima levantada por varios autores, entre eles a socióloga Berenice Bento: "qual afinal é o sujeito político do feminismo?"
Se é o personagem social "mulher", na minha opinião, o feminismo continua sendo sexista.

E por "sexismo" ,entendo a divisão binaria de papéis de acordo com genitalias e supostas "identidades de gênero" naturais e biolõgicas. Não é possivel se revindicar o feminismo sem acatar convenções que imponham que há um ser (a mulher) que é históricamente oprimida por outro (o homem) e neste processo se reproduzir uma forma de opressão que começa ainda antes de nascermos"
 

"E ao Diogo:

Bão são os homens que têm "implicância" com o feminismo. Pelo que entendi do texto, a autora parece perceber algo que venho notando a muito tempo: se o sujeito do feminsimo é a "mulher-vagina", são os homens que não têm o referencial subjetivo ou objetivo para compreende-lo.

Eu como "mulher-trans-pós-identitária", por não ter vivido varias das experiencias "femininas" na inha vida (não saber o que é menstruar, não ter acesso a uma vagina, não ter tido uma educação de "menina" quando criança) não poderia nunca me revindicar como "feminista". Desconheço a profundidade da experiencia feminina.

Pelo mesmo motivo não posso concordar com uma luta contra o "machismo" sem antes me aprofundar na luta e na opressão do homem. Em suma, não concordo com ideais maniqueístas do tipo "burguesia X proletariado", "feminismo X machismo", "bem X mal", pq isso na pratica desumaniza e nao apresenta soluções,apenas busca apontar supostos "culpados".

O grande mérito deste texto, foi perceber que imaginar que a esquerda "libertária", é capaz de compreender o sofrimento das mulheres simplesmente por ser "libertária" e sem compreender que a idéia de "libertarianismo" numa sociedade neo-liberal não é a mesma de 30 anos atrás. "ITS A TRAP!" A esquerda tem menos capacidade de compreenção exatamente pq acredita que as opressões são fruto de questões objetivas, quando pelo contrário, o problema está na subjetividade, "IT'S A TRAP TOO!!!"

Bom, pelo menos esta é minha opinião."

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Você e eu


O despertador tocou cedo, você se espreguiçou do meu lado. Sua visão me reconfortou e, apesar do imenso sono que ainda me acometia, juntei forças para me levantar. Comemos nosso desjejum juntos, e ainda trocamos caricias e olhares. Caminhamos lado a lado, nós dois sabiamos o dia que nos aguardava mas, naquele momento, tinhamos apenas um ao outro e o asfalto sob nossos pés.

Saí pra trabalhar ainda pensando em você. Você ficou em casa, enquanto eu fui ganhar o pão. Lembrei do pão que você mais gosta. Desejei que o dia passasse rápido para voltar pra casa e te rever.

Passei o dia numa mesa telefônica com um computador lento a minha frente. Me irritei levemente quando a voz, do outro lado da linha, disse que eu era paga para repetir coisas como um robô. Me indaguei sobre aqueles que, verdadeiramente, não trabalham como robôs. É que o capitalismo tem esse poder sobre nós, mesmo quando somos competentes e exercemos a função que nos foi designada, nós a repetimos tantas vezes que tudo fica meio robótico mesmo. Não importa o quão letrado ou iletrado você seja, somos todos robozinhos programados.

Eu não sou uma máquina, e não gostei quando aquela voz me comparou a uma. Eu sei de todo o meu potencial intelectual e me senti, com aquela comparação, presa dentro de um cubo de gelo. Mas a verdade é que, naquele momento, eu estava apenas cumprindo a função que foi assinada na minha carteira, e eu era apenas mais um robozinho programado.

Lembrei de você ao desligar o telefone. O que será que você estaria fazendo? Aquela hora do dia minha irmã estava em casa, então sabia que você não estava sozinho. Me preocupei com a sua rotina e, na hora do meu almoço, liguei pra casa.

Depois de encerrar o ponto, ainda tinha que enfrentar aquelas aulas cansativas e lotadas de piadinhas que já me cansavam antes mesmo de ouvi-las. E eu pensei em jogar tudo na primeira lixeira e ir pra casa ficar com você. Enfrentei bravamente, não sem engolir um café amargo que serviu pra manter meus olhos abertos.

Saí dali desejando chegar em casa. E o ônibus que levou alguns minutos para sair, mas que pareceram horas. E você? A essa altura já estaria sozinho em casa. Minha irmã trabalha a noite. Será que você estaria comportado? Será que estaria com fome?

Abri a porta, os olhos correndo a sua procura. E lá estava você, deitado na sua caminha, levantou se espreguiçando, com o rabo balançando e vindo na minha direção. Ajoelhei para te cumprimentar, senti seu pelo macio nos meus dedos. E já fui logo apanhando a coleira, era hora do passeio da noite, para o xixi antes de dormir.

Decidi descer mais uma quadra até o parque. Chegando lá, você era só felicidade! Te libertei da coleira e imediatamente você começou a correr, descrevendo grandes circulos a minha volta. E a medida que eu fui caminhando pelo parque você veio correndo sempre descrevendo raios a minha volta. Ali a diante alguém também passeava com um cachorro, e você brincou com ele.

Eu fiquei ali, durante quase meia hora, sentindo sono e apreciando você e a sua “liberdade”. Porque livre você não é, mas ali você podia sentir aquele gostinho lá no final da língua.

E de repente me dei conta do que você havia feito no meu coração. Nós somos iguais! Dois escravos fabricados, tentando viver da melhor maneira que podemos. Desejamos a liberdade, desejamos viver a vida plenamente. Mas essa vida já não é desse mundo, nem sei se um dia já foi. A vida lá fora só nos machuca.

Você sabia que voltar para casa comigo era sua melhor opção e, na hora de ir embora, me esticou o pescoço resignado. E nós dois voltamos lado a lado, pensando e desejando um mundo em que nós dois pudessemos ser livres. Um mundo em que eu não precisasse ser um robozinho programado e você nunca fosse pra casa comigo.

E nós voltamos e, ao entrar em casa, eu liguei a TV, e você deitou nos meus pés... e suspirou... e eu também...

domingo, 14 de agosto de 2011

Cocozinho


Hoje a temática é o cu de novo... O último texto, escrito pela minha amiga e companheira de blog, me fez pensar e relembrar muita coisa. E também foi um texto que gerou certa repercussão por aqui. Então decidi levar o assunto a frente e, mais uma vez, mostrar como o machismo anda na nossa cola diariamente.

Eu nunca fui chegada nessa história de cu. Essa coisa de prazer anal sempre foi assunto estranho pra mim. Quando perdi a virgindade, meu namorado da época também era virgem. O clima entre a gente foi esquentando aos poucos e, na verdade, foi tudo muito legal. É legal viver esse momento de descoberta juntos, sem pressa, explorando as novas sensações. E lá pelas tantas do nosso namoro, já sem meu precioso cabacinho, o assunto do anal veio à tona. Eu tinha curiosidade. Resolvemos tentar.

Péssimo! Sério, não consigo entender de onde vem o tal do prazer anal. Pra mim a sensação é igualzinha a de estar cagando. O cara tava lá, metendo, todo feliz, e eu só conseguia pensar que estava cagando. Comecei a entrar numa nóia louca, de achar que ele ia tirar e a pica dele ia estar toda cagada, que a cama ia ficar toda cagada... enfim, não me diverti nem um pouco.

Mas acontece que homem parece que tem fetiche em comer cu! Que merda! Eu disse ao meu namorado que já não queria fazer de novo. Ele foi tranquilo em relação a isso. Mas todos os caras com quem me envolvi dali pra frente não. Será que é assim tão difícil compreender que nem toda mulher gosta de dar a porra do cu?

E o pior é que a gente vai se sentindo pressionada a dar a rosca. Eles pedem tanto, insistem tanto. E já fazia tanto tempo que as vezes eu ficava pensando que talvez pudesse ser bom, vai ver eu não tava sabendo aproveitar... Vai saber... E lá fui eu empinar a rabeta pra outra piroca. Mesma merma. Mesma vontade de cagar, coisa mais estranha.

Quando eu falo isso pras pessoas eu recebo respostas muito loucas. Tem gente que diz que eu tô viajando, que sexo anal não tem nada a ver com cagar. Mas já ouvi “ah, mas cagar é tão gostoso”. E uma amiga me contou que o namorado dela ficava de pau duro quando ia cagar. Sei lá cara... Talvez isso tudo seja meio Freudiano, talvez não. Eu espero que não. A única coisa que sei é que sentir tesão em cagar, realmente não é a minha. Fica você aí com seu cocozinho...

Ultimamente a vida anda meio parada no quesito sexual. É que de repente ficou muito complicado me relacionar com homens. São tantos os questionamentos, são tantas as coisas que já não engulo mais, que a verdade é que a minha pica ficou maior que a deles, e agora são eles que estão pedindo por favor pra eu não meter no cuzinho deles.

Olha... nada contra quem tem tesão em cu. Se te faz feliz, vai na fé! Mas esse buraco é muito mais complexo. Há um tempo atras, numa discussão sobre homofobia, um cara (homofóbico, claro) me solta a pérola via twitter “mulher também tem cu”. É, só falta eles entenderem que homem também tem!!! Nessa hora eu lembrei de uma cabeleireira onde eu cortava meu cabelo, uma vez dizendo que fica bolada quando tem um namorado que fica enchendo o saco pra comer o cu dela, ela tinha medo dele ser viado. As duas caras de uma mesma moeda.

Eu cansei das piadinhas, eu cansei da pressão, eu cansei do cocozinho... E o papo tem que ser bem reto, bem como terminou minha amiga “E NO SEU CU??”. Mulher também tem cu, cocozinho, mas homem também tem. Empina a rosquinha bem gostoso pra mim, vai... Isso... Agora geme!!!