terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Consentir a enfrentar o machismo nosso de cada dia

Essa coisa de consentimento é realmente tensa. Na minha vida pelo menos, sempre foi. Eu, como a maioria dos seres q veio ao mundo com vagina, útero e ovários, fui educada a sempre consentir. Acho q dispensa maiores explicações. Mas acho q sempre tive uma veia na discórdia. Nunca aceitei engolir coisas q me desagradavam. Me lembro aos 15 anos, um namoradinho de escola me recriminando um dia pq coloquei uma saia curta, disse q eu não iria sair com ele se não trocasse de roupa, ao q eu prontamente assumi q significada sair sem ele... Saí andando e o deixei parado no portão com cara de taxo, ele demorou um pouco pra entender... Sempre fui mto de falar, de deixar tudo mto claro. Quem me conhece sabe q transparência é uma marca minha.

Nesse meus caminhos por feminismos e afins já andei remexendo mta coisa lá no fundo de mim mesma. Mas algumas coisas ainda são meio obscuras, me parecem ainda meio sem resposta... Eu olho e me sinto meio perdida. Como vou lidar com isso agora? E essa do consentimento é uma delas. Eu gosto de me relacionar sexualmente com homens. Não q eu não me sinta atraída por outras formas e outros corpos, veja bem. Mas eu tb gosto de homens, e isso, em mtos momentos me é bastante problemático. Pq essa coisa de homem feminista... olha... sinceramente... eu tô colocando no rol dos seres mitológicos... junto com unicórnios, sereias, centauros, duendes, deuses e diabos... Já andei rodando entre homens anarquistas, veganos, e com mais uma meia duzia de rótulos q faz tudo parecer bonitinho... Ele começa a citar Emma Goldman e eu fico lá achando q talvez ele tenha o discurso da boca pra dentro tb.

"Encare o fato de frente", eu tenho repetido a mim mesma. O mundo é machista! Ponto. Eu sou machista. Todo mundo é machista. O fato é q a grande maioria de nós avança, desconstrói um tanto de coisas, mas ninguém é capaz de fazer tudo... de modificar tudo... e eu fico ali, olhando pros meus escombros, tentando entender o q levantar no lugar. E me lembro de uma frase de uma prof feminista certa vez, q ouvi através de uma prima e amiga q era sua estagiaria. Ela dizia "onde vc guarda o seu machismo?". Nunca me esqueço. É isso mesmo. Temos q encarar q somos todos machistas e seguir na luta pra desconstruir o q ainda resta pra podermos erguer coisas novas no lugar. E eu ando chegando a conclusão mto séria, q esses homens, seres fálicos, penianos, guardam seus machismo no ato sexual!

Já andei tento algumas experiência controversas com esses moçoilos. Mas recentemente teve um q me deixou bolada. Bolada de verdade. Eu conheço o cara faz alguns meses, nos conhecemos aí pelos movimentos sociais da vida. Esse mesmo padrão: anarquista, fala de teoria queer com desenvoltura... a coisa foi se desenvolvendo naturalmente, ninguém precisou apertar nenhum botão pra q um dia a gente chegasse a conclusão de q ia rolar sexo. Logo de cara ele tentou colocar o dedo no meu cu.

NOTA: eu não curto coisas no meu cu! Esse assunto já andou rolando por aqui. Para relembrar vejam: http://coletivocaju.blogspot.com/2011/08/cocozinho.html

Bom, eu deixei claro pra ele q não estava gostando. Ele fez uma cara de quem está levemente desapontado, mas parou e nós seguimos em frente. Ok. Num outro encontro lá vem ele novamente. Eu, naquele momento, parei e disse com todas as letras q não gostava e não queria q ele fizesse novamente. Ele riu meio com ar de quem pede desculpas, eu fiquei levemente bolada, mas acabei deixando passar. E assim começaram pequenas investidas da parte dele, todas em tom de brincadeira... até q um dia, umas 2 semanas depois da gente ter começado a se envolver, lá vai ele novamente com seu dedo. Foi demais. Parei tudo, já puta da vida, e falei "qual foi a parte do eu não gosto disse q vc ainda não entendeu?". Ele me olhou meio sério e perguntou "pq? doeu?"
Eu: não doeu, não sinto dor, simplesmente não tenho prazer
Ele: vc está insegura?
Eu: eu já te expliquei q não me sinto insegura, q só não curto. O q q ta difícil de entender?
Ele: eu acho q vc ta insegura
Eu: vc ta dentro do meu corpo ou da minha cabeça pra saber como eu me sinto?
Ele: não
Eu: então! A única forma q vc tem de saber como eu me sinto é através do q eu te digo q sinto, e eu estou sendo bem clara
Ele: mas é q isso é algo q me da prazer, em mim, no meu cu
Eu: e o seu corpo funciona igual ao meu?
Ele: não
Eu: então pronto! Acho q vc já tem sua resposta, né… ou eu ainda preciso explicar?

Nessa hora ele ficou meio puto e disse q talvez isso inviabilizasse a gente de ficar junto. E eu questionei "o fato de eu não gostar de dar o cu inviabiliza a gente ficar?". Ele disse "talvez". Eu fiquei puta. Aí eu falei q se tinha tanta necessidade de comer cu q o mundo ta cheio de cus q gostam de ser comidos. Pq o meu???

Nessa hora eu entro no retrospecto da minha vida sexual e conto nos dedos de uma mão, e não preenchem todos os dedos, os homens com quem me relacionei q não fizeram pressão pra comer meu cu, mesmo eu já havendo deixado bem claro q NÃO GOSTO!!

E aí entra a nóia de quem foi educada para consentir. A pressão é tão grande q eu acabo entrando numa vibe de me questionar se eu não estou errada de alguma forma. Mas não naquele dia, não depois de tanto q já avancei aqui com as minhas desconstruções. Talvez no passado, talvez com outros caras. Tive um namorado certa vez q TODA vez q tínhamos relação ele insistia, pedia, quase implorava. Certo dia eu bebi demais e lá foi ele. Eu, meio alterada, na hora não contestei, lembro de pensar "sei lá... vai q hj é diferente". Mas não demorou pra voltar aquela sensação de cagar... Eu fiquei ali alguns minutos me convencendo de q eu não estava cagando, não ia sair merda... Até q não deu e pedi pra parar... Mas naquele dia eu já sabia a resposta, já sabia q não era eu quem estava errada, já sabia pra onde ele, pseudo-libertário, tinha varrido seu machismo.

Naquele dia fui dormir puta. No dia seguinte conversamos. Eu disse "vc quer uma coisa q TE dá prazer e eu TENHO q aceitar? pq? pq vc é o homem e seu prazer vale mais?" e ele ficou calado e por fim disse q talvez eu tivesse razão e q ninguém nunca apresentou as coisas pra ele assim. Naquela hora cheguei a ficar sem reação. Como assim ninguém nunca te apresentou as coisas dessa forma?? Como assim vc anda por aí com esse cabelo desgrenhado e essas camisetas com frase de efeito, lendo livros subversivos, e é incapaz de subverter suas próprias relações? Com que tipo de pessoa vc se relacionou até hoje?

Mas a verdade é q eu fui incapaz de fazer todas essas perguntas naquele momento. Essa conversa voltou a tona em outros momentos. E eu cheguei a dizer a ele, com todas as letras, q o q ele estava fazendo chama-se ESTUPRO!! "Não consigo entender como vc é capaz de sentir prazer sabendo q a outra pessoa não está, sabendo q a outra pessoa está bastante desconfortável com a situação. Essa É a lógica do estuprador!!"

Sim! Essa é a lógica do estuprador! Eu repito!

Não estou aqui, de forma alguma, dizendo q mulheres não sejam capaz de abusar. Mas minhas experiencias com mulheres, pelo menos até hoje, sempre foram muito diferentes. Elas parecem mais atentas, mais preocupadas. Não posso falar por todxs, mas eu, pelo menos, não consigo pedir a alguém para fazer algo, mesmo q seja algo q eu goste mto, se sei q a pessoa estará em profundo desagrado. Acho q sou incapaz de sentir prazer nesse tipo de situação.

Uma coisa é você dizer que, mesmo que algumas práticas não se configurem como suas preferidas, elas são válidas para satisfazer x parceirx. Outra é exigir q x parceirx se engaje numa atividade da qual não só não goza como repudia.

É, com algumas pessoas, certas posições e práticas não vão rolar. Não, isso não é um problema. Fique atento: a mídia vende para nós a ideia de liberdade sexual como algo que pode ser medido, tanto pela quantidade de sexo, quanto pela de parceiros ou pelo número de práticas que você topa. Isso não é liberdade, pelo menos não como eu entendo...

O que acontece nessas situações é muito simples: homens brancos revoltados com a perda de um de seus maiores privilégios, que é dispor dos corpos e dos "corações" (por falta de palavra melhor) das mulheres. É muito fácil para o homem se rebelar contra o que quer que seja: o sistema inteiro está dizendo que o mundo é de vocês por direito! Seja o Deus cristão, seja a biologia positivista, vocês estão acostumados a discursos que lhes delegam não só o poder sobre o planeta como sobre a maior parte da espécie humana - tudo que não seja branco, homem e heterossexual é de vocês para dominar, segundo nossa sociedade. Então, esse homem a quem tudo foi legado se vê, por exemplo, numa sociedade de classes em que outros homens (burgueses, por exemplo) lhes negam poder, e então se revoltam contra seus opressores. Fácil se rebelar.

O difícil é superar o paradigma iluminista que estabelece a SUA subjetividade como o parâmetro da razão. Difícil é perceber que SIM, VOCÊS SÃO OPRESSORES. Sua mera existência está implicada em relações de poder: o fato de você poder andar na rua 2 da manhã sem se perguntar se vai ser hoje que você vai ser estuprado e morto já torna a sua visão de mundo radicalmente diferente da minha. NÃO, CARA, VOCÊ NÃO ME ENTENDE. Quer as boas notícias? Para me entender, você vai ter que negar a lógica de poder que te beneficia. Quer a boa notícia? Para você me entender, entender minha opressão, entender minha vida, entender meu corpo, você só tem uma coisinha a fazer: ME OUVIR. Ouvir com alteridade, ouvir com a compreensão de que a sua visão de mundo não é pura nem universal, mas subjetiva e pessoal, e que você tem que ouvir mulheres, gays, lésbicas, trans, negrxs, e outros, para entendê-los.

Negar a lógica do poder, construir um consentimento verdadeiro é OUVIR SEM LANÇAR SOBRE O OUTRO O SEU OLHAR COMO SE FOSSE ISENTO E UNIVERSAL.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sexo biocentrado y otras cositas más

Como muitas reflexões na minha vida, esta começou na cama. Aliás, naquilo que elogiosamente chamávamos de cama, mas não passava de um colchão de casal largado no chão do quarto. Maravilhoso e fedido colchão, brindado de suor, umidade e, quando em vez, água da chuva, posto que tínhamos por companhia uma goteira que minava no exato centro do quarto - o acaso também tem seus caprichos geométricos. A reflexão começou motivada pelo meu ex-namorado F. (quem conhece sabe), com quem eu tinha um sexo genial.

Com ele comecei a achar o sexo algo tosco. Vejam bem, sem a conotação negativa, eu achava sexo algo rudimentar. Achava que não estava explorando todos os recursos e sensações do corpo, ou mesmo que havia outros prazeres mais interessantes no mundo. Sobretudo, comecei a desconfiar dessa definição de sexo como ato, ou atuação, do corpo, ou das genitálias. Beijo não é sexo? Masturbação É sexo? Estupro é sexo? Visita ginecológica é sexo? Por que sim, por que não, por aí vai.

O sexo era bom, bom de verdade. Fazia uma sujeira e tanto, uma bagunça de porra, suor e, às vezes, sangue. Numa noite qualquer, antes de partirmos para a barbárie (o canto indisciplinado dos pássaros) ele me faz a pergunta: "você já fez amor?". Muito prosaica, de uma humildade envergonhada, eu respondi que não - verdade. Em seguida, F. apagou as luzes, lentamente tirou minhas pulseiras, anéis, brincos, um por um. Lentamente. Em dirigível cruzava minha mente carregando uma imensa faixa, na qual se lia "que porra é essa?". Depois de totalmente despida, ele, que não estava totalmente despido, me deitou, e começamos a transar de vagar. O que era uma experiência nova, agradável, mas que eu não conseguia associar com o amor. À qual eu não consegui e não consigo agregar nenhum significado além de "transar de vagar".

Comecei a entender o sexo como performance nesse dia. Comecei a entender que, durante o sexo, não se abrem comportas para acessar nosso lado animalesco, tampouco portas da percepção que coloquem os espíritos em comunhão profunda e maravilhosa. A coreografia do sexo - movimentos, gemidos, maneiras de se tirar a roupa - é tão culturalmente inventada quanto o ballet, embora não pelos mesmos métodos. Assim como recorremos a determinada entonação para implicar um significado a um enunciado qualquer, no sexo quesitos como velocidade, intensidade, força, gemidos, são signos filiados a mensagens; um sem-número de mensagens customizáveis e criativas, mas ainda assim, mensagens.

Pensei nisso tudo outra vez quando vi o filme Crash, do David Cronemberg, neste fim de semana. Rapidinha sobre o filme: após um acidente de carro, James Ballard tem sua perna severamente danificada, e passa algumas semanas em um hospital. Sua perna comprometida passa esse tempo cravejada de pinos a parafusos que mantém os ossos no lugar durante a cicatrização. Neste mesmo período, conhece Dra Helen, em cujo carro batera, e também o exótico Vaughan - disparado, o melhor personagem do filme. Vaughan tem profunda atração sexual por pessoas acidentadas, pinos, parafusos, cicatrizes, bem como pelos próprios carros, pelas batidas em si. James, o protagonista, entra em uma espécie de submundo sexual de pessoas com preferências muito parecidas, e que envolvem sempre corpos humanos modificados pelos acidentes.

Digo modificados não por eufemismo, mas por conta das minhas reflexões. Em primeiro lugar, somos todos corpos modificados, aqui. Somos todos corpos antropomorfizados naquilo que o ocidente concebe como humano: cortamos as unhas e os cabelos, tingimo-los, depilamos nosso púbis em formas geométricas aleatórias (não é?)... Tatuagens, piercings, silicone e botox são apenas aqueles que nossa sociedade elencou como "modificações" no intuito de encobrir que, na real, o corpo reivindicado pela nossa biologia positivista também é um investimento cultural. E os corpos acidentados, a quem "faltam" uma perna, um braço, um determinado movimento, ou que "portam" cicatrizes, não são incompletos, aleijados, nem em nenhum grau menos humanos que os demais.

Vaughan, o tarado (no melhor sentido!) em acidentes, afirma que vê os acidentes de carro como atos sexuais nos quais não só os envolvidos, mas toda a espécie humana está sendo modificada. Estamos sendo transformados pelas máquinas, ele diz, e acho que não poderia haver uma iconoclastia maior ao sexo bio-centrado. As máquinas não são o suporte do sexo (o carro como motel ambulante) tampouco são coisas "envolvidas no sexo",mas são partes ativas de um corpo humano que sempre foi tecno-simbolicamente investido. Acho que a cena mais famosa (inclusive citada por esse site como uma das mais broxantes da história) acontece quando Gabrielle, uma pessoa severamente modificada por um acidente de carro, seduz James, o protagonista. Fica claro que os aparelhos que usa na locomoção são parte da sedução, bem como as cicatrizes, que geralmente fazem parte do léxico do grotesco, são turn ons para o ato sexual. Os utensílios e as cicatrizes participam do sexo, porque não se tratam de "coisas que pertencem a Gabrielle", mas "coisas que compõem, que são a própria Gabrielle".

O sexo biocentrado tem uma função importante na fabricação do gênero; visto que a identidade não é categoria, mas devir, visto a identidade não como particularidade emanativa, mas atividade na qual um ser-humano se engaja (conscientemente ou não, o que já é outra história), apagar a fronteira bio-cêntrica do corpo é mexer diretamente com a dicotomia homem/mulher. Em um exemplo 100% hipotético: se eu nasci com útero, vagina e ovários, mas me identifico como homem, e se me sinto bem usando um dildo durante o sexo, então meu dildo de plástico, fabricado em série, é meu pênis. Organicamente pode ser que ele não participe do meu corpo; porém, subjetivamente, ele me integra. Percebo-o como parte de mim, ao menos no sexo. O que, diga-se de passagem, ainda é levemente bio-centrado, já que o dildo imita a forma do bio-pênis. Mas digamos que, por algum motivo esdrúxulo, eu só consiga transar de luvas... ou melhor ainda, se eu só consigo transar virtualmente, isto é, se só consigo manter relações via internet nas quais os corpos não se tocam. Isso ainda é sexo? Estou fazendo sexo com a outra pessoa ou estou sozinha? Ou estou trepando com o computador?

Por fim, assim como a coreografia sexual é simbolicamente investida, conotada, as modificações corporais também são. Relembrando a polêmica dos pêlos, todas as modificações corporais nada mais são que a adição de signos ao corpo: signos de gênero, de classe, de orientação sexual, de raça, etc. Ausência de pêlos, no momento, é signo de feminilidade, bem como envernizar as unhas com cores aberrantes, ou redesenhar os lábios com tinta oleosa. E todas são modificações tecnológicas, por mais simples que essas tecnologias nos pareçam. Acho que muita gente que se incomoda com travestis e transexuais está, na real, abalada em sua fé em um corpo natural, "biológico", na medida em que são confrontadas com a possibilidade de fabricar corpos masculinos ou femininos a partir de corpos a que, culturalmente, esses gêneros não são atribuídos. As mesmas tecnologias que (hoje) me tornam mulher estão ao alcance de uma pessoa XY, com um pênis e uma bolsa escrotal "saudáveis".

Mas aí eu acho melhor parar... e quem sabe chamar a Dorothy para dar uns pitacos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pentelhos para quem precisa...

Postar imagens é apostar em uma nova maneira de usar o blog. Francamente, ao postar a imagem abaixo, eu não esperava nenhuma grande repercussão... e qual não foi a minha surpresa diante da polêmica gerada, não aqui, mas no facebook, onde o link foi divulgado. Então, aproveitando esse novo "formato", organizei este post em imagens que, acreditem, deu muito MUITO trabalho.

Em primeiro lugar, recadinho aos moços que se manifestaram: muito me surpreende que os senhores, ao "prestarem contas" do que fazem com seus pentelhos (são pentelhos, não são?), se coloquem em pé de igualdade com as mulheres, como se sofressem as mesmas pressões em nossa sociedade. Novidade para vocês: mulheres (pessoas com útero, ovários, ou com XX em seus cromossomos) são 50% da população, 70% da classe trabalhadora e, ainda assim, detêm apenas 1% da riqueza do mundo. Nós somos mais estupradas, nós somos, em alguns lugares do globo, trocadas por vacas e cabras, o tráfico de seres humanos trafica principalmente corpos como os nossos e gira em torno da exploração sexual desses corpos. Nós, mulheres, ainda temos dificuldade em chegar a cargos de chefia, somos mais de 50% das pessoas ao ingressar na graduação e bem menos de 50% a realizarem mestrados, doutorados e outros estudos especializados. Portanto, amigos, não venham falar dos seus pêlos, ou do que quer que seja, como se vocês estivessem sofrendo uma pressão sequer parecida com a que sofremos. Sério, parem com isso.

Esta foi a imagem da polêmica. A maior parte dos comentários girava em torno da questão da higiene: que pêlos suam, acumulam sujeira e seriam, de alguma forma, uma ameaça à saúde. Duas coisinhas: 1) Eu tenho pêlos nas axilas e até agora não passei por nenhuma doença ocasionada pela sua presença; 2) Nunca ouvi ninguém alegando que cabelos na cabeça são anti-higiênicos...

Bom, comecei a pensar, muito em virtude dos comentários masculinos, o que os homens são orientados a fazer com os seus. Fui Às revistas masculinas do meu irmão (Alfa, Playboy, Sexy) e, em mais de 30 revistas, não encontrei NENHUMA axila, NENHUMA orientação quanto ao que vocês, mocinhos, devem ou não fazer com elas... E sabem por que, rapazes? Mui simples: as axilas de vocês são assunto DE VOCÊS, da ordem privada e pessoal. Não, a nossa cultura não está interessada na administração dos SEUS pêlos. Deal with it, meus queridos, a opressão que nós sofremos, muitas vezes por pressões estéticas (sim) de VOCÊS, não tem mão dupla NÃO.

E veio aquela dúvida: então, como é que as pessoas vendem desodorante para homens? Como são as axilas dos homens dos anúncios impressos (foi onde pesquisei)? Simples: comerciais de desodorantes masculinos NÃO TÊM HOMENS!!! Vejam só:


Neste anúncio de Axe, o produto usa como suporte de vendas a imagem da mulher. Se você feder a Axe, prometemos a você que será capaz de comer esta linda mulher, quer você, homem, tenha pêlos nas axilas, quer não.

Agora, que tal darmos uma olhadinha em um anúncio de antitranspirante para mulheres?


Quanto à mulher, o anti-transpirante precisa DEIXAR que saiamos de casa. Veja bem, até um produto de "higiene" tem o poder de legislar e decidir por nós. E qual é a condição para podermos sair de casa? Temos que estar assim:

Axilas maravilhosas = axilas nuas. Aliás, reflitamos um pouquinho de nada sobre a frase "axilas maravilhosas mesmo após a depilação"; quem se depila ou depilou SABE que é um processo doloroso e violento, seguido de vermelhidão, irritação, e sabe-se mais o que. Mas, UFA, Dove está aqui para resolver esse problema.

A questão dos pêlos, pelo que estou entendendo, está diretamente relacionada ao trânsito do corpo "feminino" no espaço público. Ao que parece, o avanço da mulher em campos histórica e culturalmente assinalados como masculinos faz com que tenhamos que fabricar a diferença dos gêneros sobre os nossos corpos, reafirmando a fronteira "homem/mulher". O que nos leva à reflexão: se nós somos naturalmente lisinhas e macias, por que existe uma bilhonária indústria cosmética que manipula nosso corpo para que sejamos assim? Até que ponto existem sexos como definidos na biologia, e até que ponto nós fabricamos, nós "sexuamos" esses corpos?

Muito bem, para quem está cansado de falar de sovaco: eu estou também! Falemos de pernas, então:


Nunca ouvi falar de homem raspando a perna, e muito menos que pernas cabeludas são anti-higiênicas (vale o comentário, as minhas são muito limpinhas). Neste anúncio lemos "do banho para a festa", ou seja: a condição para ir a público é ter pernas bem macias e lisinhas, à custa de um instrumento cortante.

Muita gente já notou que lâminas cortam, machucam, pinicam, enfim, que lâminas agridem o nosso corpo. Boas notícias, galera: os empresários notaram também. E sabe qual é a solução? CERA! CERA NAS MENINAS!



"Se lâmina fosse uma coisa delicada, os homens não usariam para fazer a barba"... hum, e cera é uma coisa, assim, MUITO delicada, né? Então, a agressão no corpo do homem é um signo de virilidade enquanto, no corpo da mulher é um agente feminilizante? Eita, cultura coerente!

Os anúncios são abundantes, esse post ficaria maior ainda se eu colocasse todos aqui. Então vou encurtar a conversa logo para os finalmentes: você pode estar pensando em argumentar que essas mulheres só estão lindas e depiladas porque são anúncios de produtos voltados para esse fim. Mas eu desafio você a encontrar um anúncio de WHATEVER em que uma mulher esteja com seus pêlos no lugar.

Enquanto isso, no mundo mágico e maravilhoso dos homens, o que nós vemos é:


Tirei essa foto de uma CARAS... um socialite exibindo pêlos na cara, pêlos nos braços, e grandes e grossas pernas cabeludas bem em primeiro plano! Agora vai lá, e procura se aquelas moças cheias de botox e silicone têm ALGUM pêlo na superfície corporal, além é claro de grandessíssimos, alisadíssimos e louríssimos cabelos no alto da cabeça.

E vem falar pra mim que a opressão é igual? AFFFFFF

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sonhos infantis

“Aquela menina
tão pequenina
quer ser bailarina [...]”

Quando foi que começaram a me moldar mesmo? Não consigo mais recordar quando eu era ainda forma e quando já tinha barro, quando secou... nem sei dizer se cheguei a ir ao forno por assim dizer. De repente me deparei com essa escultura já meio pronta, sem saber direito em qual prateleira caber.

Quando forço um pouco lembro dos flashs de tinta fresca dando os retoques finais. Que cores eu queria ser? Que brilho eu queria ter? Acho que ainda mal havia entendido que podia ser pintada quando já me haviam coberto toda a superfícies com traços que nunca foram meus.

Mas eram esses traços, essas cores, essa forma que me definiam, não é mesmo. Afinal, era minha imagem, era quem eu era, era como todos me viam. E eu seguia caminhando pela prateleira meio apertada, apinhada, seguia me perguntando por que me sentia tão mal acabada? De quem teriam sido as mãos que me fizeram? De onde viera sua inspiração?

Eu já não queria mais somente existir para o deleite alheio. Deleite mais estranho esse o de possuir. Mais estranho ainda acho que só mesmo esse de achar que seres animados são inanimados quando assim o convém. Eu já não queria mais a prateleira, mas insistiam que era ali o meu lugar, afinal era pra isso que havia sido moldada.

É estranho olhar pra trás e constatar o quanto de fato me esforcei para desejar estar na prateleira, o quanto me esforcei para desejar ser a escultura mais bonita de todas, o quanto me esforcei para desejar ser possuída por aquele mestre mais importante de todos e ser seu mais caprichoso deleite. É estranho olhar pra trás e constatar o quanto desejei me tornar inanimadamente animada, um fantoche a ser possuídos por mãos que eu nunca seria capaz de enxergar.

As vezes acho que esse mundo feito de prateleiras e esculturas é essencialmente parnasiano. Afinal, por que haveriam de ter tantas esculturas? Será que não podemos compor outras formas, ou outras não-formas? Talvez eu quisesse ser uma música ou uma ferramenta útil. Talvez eu quisesse ser algo impossível de se possuir... como uma brisa fresca num fim de tarde quente!

Isso! Eu queria ser essa brisa! Essa brisa que tanto deleite provoca, mas um deleite desprendido, desses que só são capazes de surgir no momento inesperado. Uma brisa que vem acariciar seu rosto e bagunçar seus cabelos, dessas que faz uma cócega meio corrida no pescoço e vai embora só pra voltar daqui a pouco.

Eu não queria essa beleza parnasiana, essa beleza de forma industrial. Essa beleza nunca foi bela. Como pode haver beleza na produção em série? Todas as esculturas iguais, feitas da mesma forma, encaixadas na mesma prateleira, disputando a possessão que as algemas. Eu queria ser a beleza que não se vê. Eu queria ser uma dança, dessas que te dão vontade de gargalhar. Não consegues ver tamanha beleza no som dessa gargalhada?

Eu queria ser o meu deleite! Queria provocar deleite e que me provocassem também. Mas não essa coisa equivocada e parnasiana. Queria que você voltasse porque assim o deseja, e queria eu também voltar desejando. E quando deixassemos de desejar voltar, não haveria problema, bastaria seguir em frente.

Tudo isso foi ficando claro como água na fonte. Mas o espelho continuava mostrando a forma saída de uma forma industrial de produção em série. Eu tinha que quebrar a escultura!

Foram muitos gritos apavorados. Muitos tinham medo, alguns até pena... veja só... O mais difícil acho que foi constatar que enquanto eu passei grande parte da existência desejando desejar ser aquela forma, a maioria a minha volta simplesmente desejava. E quando você cai intencionalmente da prateleira, quando ouve o trincar da sua escultura, e quando constata que nada disso nunca foi real, você ainda ouve as pessoas repetindo que aquele desejo é real... talvez o seja... vai saber...

Do alto da prateleira eu ouvia a caixinha de musica, alguém a observava tão intensamente. Mas aqui de baixo é possível ver a bailarina que vive lá dentro. Ela roda roda sem nunca sair do lugar, ela roda roda na ponta de um pé só, ela roda roda sem parar. Ela era tão pequenina e, por isso a fizeram crer que era tão frágil e indefesa. Será que ela também deseja ter uma forma? Será que já contaram a ela que aqueles dedos que se sustentam no ar nunca foram frágeis? Será que ela sofre por ser um deleite inanimado?

Eu sigo achando que é um deleite muito estranho esse o de possuir... acho que mais estranho ainda só mesmo o deleite de ser possuído...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Boneco de pauzinho

Minha mãe sempre foi uma dessas mulheres arrojadas, pragmáticas e funcionais, que vivem sobretudo para o trabalho. Durante toda a minha infância só vi minha mãe de calças, que ela propagandeava (e eu discordo totalmente) como a roupa da praticidade. Quanto aos cabelos, sempre curtos, era também porque cabelos longos "só davam trabalho". Em suma, minha mãe e meu pai, ambos médicos, usavam ambos jalecos e calças, o que aprendi a ler imediatamente como "roupa de adulto", em contraposição aos vestidos e bermudas, "roupa de criança".

O resultado foi que, durante muito tempo, eu achava que os banheiros se dividiam não em masculino e feminino, mas em banheiro de adulto e banheiro de criança. Eu sabia que o meu era o da bonequinha de saia, e "o outro bonequinho", como eu passei a chamá-lo, era o banheiro dos adultos.

Até que um dia, no clube, fiquei com vontade de fazer xixi. A tentação de me aliviar na piscina, como as outras crianças, era muito grande; afinal de contas, ninguém ia saber mesmo... mas por algum motivo, naquele dia eu estava me sentindo uma boa menina e pedi ao garçom a informação. "Onde fica o banheiro das crianças?". Ele me olhou cheio de dúvidas e vazio de paciência. "Não tem disso aqui não, minha filha". Então eu entendi que as crianças faziam xixi na piscina porque afinal não tinha banheiro para nós.

Naquela mesma tarde eu pedi à minha mãe a mesma explicação, ao que ela respondeu também sem muita paciência que os banheiros do mundo se dividiam em "masculino" e "feminino". O feminino era o da bonequinha, que usava saia e tinha Às vezes cabelos longos, e o masculino era representado pelo "outro bonequinho". As dúvidas multiplicaram-se: mas por que o bonequinho é careca? O bonequinho está nu? Se o bonequinho está pelado, onde está o "piu-piu" dele? Minha mãe disse que era feio desenhar o "piu-piu" das pessoas e eu ganhei um sorvete.

Essa dúvida às vezes me visitava na escola. Por que o "bonequinho puro", o bonequinho não-assinalado, era o menino, e o bonequinho de saia era a menina? Tinha muitos problemas envolvidos aí: em primeiro lugar, minha mãe não era homem (ainda não é...), usava cabelo curto e calças, e mesmo assim era representada pelo "bonequinho de saia". Em segundo lugar, se o bonequinho não tinha "piu-piu" nem "pepeca", como a gente saberia em qual banheiro entrar? Um menino de saias podia entrar no banheiro feminino? Uma menina de calças podia entrar no banheiro masculino? Para que servia a divisão "biossexual" do banheiro, se na minha casa eu e meu irmão tomávamos banho na mesma banheira? Ao que tudo indicava, o único "piu-piu" que eu estava autorizada a ver era o do meu irmão...

Mulher é essa coisa na qual transformam a gente, que tem buceta. Mulher também pode ser alguma coisa na qual uma pessoa se transforma porque quer. Porém, a sociedade está cheia de dispositivos que não cessam de nos ensinar o que devemos fazer com o nosso corpo. Podem parecer coisas banais, como "pessoas com pênis, dirijam-se a este aposento para aliviar suas funções fisiológicas" - no caso do banheiro. A questão é que o processo nunca está acabado, e a sociedade permanece vigilante. Ser lembrado de qual é o seu banheiro também é ser lembrado de qual é o seu papel, não só por conta do anúncio na porta, mas por conta de toda uma "cultura do banheiro": lembro de suscitar muitas desconfianças no banheiro da escola, já adolescente. Enquanto todas as meninas se aproximavam do espelho para retocar a maquiagem, enquanto muitas iam ao banheiro para ter suas mais íntimas conversas - era o único ambiente 100% à prova de meninos - eu entrava, mijava, e saía de preferência correndo. Não sem antes receber um olhar duvidoso daquelas que apenas viam meu reflexo no espelho - será que ela é?

Até hoje me impressiona essa universalidade do banheiro. Em qualquer lugar do mundo ocidental você não precisa ter dúvidas do papel que reservam ao seu corpo mediante o seu órgão sexual. A identidade de gênero, ao que parece, é esse lugar imaginário onde sua alma está ancorada para sempre, como se você nascesse com um gênero ou como se, uma vez ele sendo adquirido, seja para a vida toda. Você não pode querer ser homem ou mulher, ou ser os dois, ou não ser coisa alguma. Eu gostaria de uma sociedade onde a identidade, em vez de destino, fosse um imenso jogo onde tivéssemos a autonomia de fluir de um banheiro para outro sem maiores explicações. Ou onde, melhor ainda!, os banheiros fossem assinalados por gosto musical, ou que os banheiros não fossem assinalados em absoluto. Claro que isso tudo está muito distante: por mim, me contentaria com um mundo em que o bonequinho "puro" suscitasse mais dúvidas do que certeza: quem é essa pessoa careca e pelada que, todavia, me impede de (ou me obriga a) passar por esta porta? 

domingo, 22 de janeiro de 2012

FILOSOFIA DE BOTEQUIM

A vida moderna é mundialmente conhecida como uma máquina que ordenha tempo do rebanho humano. Quase tudo é absolvido sob a alegação de que “falta tempo”, inclusive, senão sobretudo, o pensamento. Sempre falta tempo para pensar, mas é impressionante como há tempo para novela, futebol, Crepúsculo e fofoca; alguns pensamentos foram relegados aos filósofos, às pessoas importantes e à academia, enquanto outros, “inofensivos”, “despretensiosos”, “menos complexos”, correm frouxos na língua do povo, sob a alcunha depreciativa de “filosofia de botequim”.

O problema dessa alcunha, para mim, é que não há nada “de botequim” no que se fala nos espaços informais da nossa sociedade. Quando você fala em “filosofia de botequim”, o que na verdade está dizendo é que sua ideia tem um raio de ação limitado, que ela não vai a lugar algum; não oferece perigo e pode ser dita livremente. Em última instância é uma espécie de piada que não teve (impressionante como nunca tem) intenção de ofender ou lesar ninguém, e se você se sente ofendido, pois bem, é provável que você seja uma dessas pessoas de esquerda radical, sem nenhum senso de humor.

Estou com o filósofo Foucault quando, na Ordem do Discurso, questiona o conceito de autoria. Ainda pensamos o indivíduo muito como ele foi pensado dos séculos XVIII e XIX: em primeiro lugar, pensamos nele no gênero masculino. Quando queremos discursar sobre a Humanidade como um conjunto, dizemos O Homem, e quando queremos reduzir a escala de nossa análise, dizemos O Indivíduo; diz-se A Pessoa, ou A Humanidade com muito menos frequência, e isso aponta para o fato triste, muito triste, de que o gênero masculino ainda é visto por nossa cultura como a única fração plenamente humana da humanidade.

Em segundo lugar, a ideia de que dentro de nós, em algum lugar, existe um “eu verdadeiro”, uma chama que brilha e nos torna quem “realmente somos”, um núcleo duro, uma essência imutável, continua amplamente acalentada pela nossa cultura, enquanto a profunda discussão que questiona esse paradigma é rotulada como “filosófica” e engavetada imediatamente. Gostaria de, de dentro das minhas possibilidades enquanto escritora, plantar dentro do leitor senão a dúvida quanto a essa essência tão sólida que mora, digamos, em nosso coração, pelo menos plantar o questionamento sobre por que essa premissa é tão sagrada, tão cara para tantos de nós.

Em terceiro lugar, e agora sim voltando à questão da autoria, queria apenas lembrar aos entusiastas da filosofia de botequim, pessoas geralmente do gênero masculino que têm o hábito de pensar que elaboraram muita coisa por conta própria absolutamente do nada: mesmo o pretensioso Deus cristão “no início era o verbo”. A língua não é uma ferramenta neutra, nem o conjunto de rótulos de coisas que estão ou acontecem fora dela: a língua é ideologicamente impregnada. Vejamos o caso do gênero: a língua portuguesa tem dois, e a maior parte esmagadora dos substantivos está em um ou outro. É-nos muito fácil, falantes de português, imaginar que a cadeira seja feminina e o ônibus masculino, quando para um anglófono, que possui o pronome a-generificado “it”, seja totalmente absurdo atribuir gênero a objetos inanimados fora de um contexto literário. Se pensarmos a língua como um acervo de conceitos que surgem e são lapidados no interior de uma cultura por práticas que acontecem ao longo da história, no interior de operações ideológicas complexas muitas vezes intencionais e politicamente orientadas, até que ponto somos donos ou autores do que pensamos e até que ponto, na realidade, fomos antes de tudo pensados dentro da língua?

Somos, não só atravessados, mas profundamente “formatados” pelos discursos que nos cercam. Contam-nos, por exemplo, se somos ou não homens, e em seguida nos dão tarefas específicas segundo a resposta. Contam-nos que somos brasileiros e contam-nos que gostamos, ou que deveríamos gostar, de futebol... Contam-nos que a luz branca é um feixe que pode ser dividido em espectros segundo a velocidade com que chegam em nossos olhos... Todo discurso que elaboramos, e que tão legitimamente sentimos e acreditamos vir de dentro de nós, de algum lugar íntimo, reservado, “só nosso”, apóia-se na verdade em um conjunto muito mais amplo de crenças, narrativas e práticas, que podemos grosseiramente chamar de cultura; que nos cerca, que nos precede, que se estende diante de nós depois de nossa morte, que nos abraça. Não conseguimos pensar sem ou fora dela, bem como não podemos NOS pensar sem ela.

O Botequim, pois, não é a ilha da revelação onde o álcool vem nos abençoar com conhecimentos que estão além da nossa imaginação. Muito pelo contrário, o botequim historicamente construído como lugar que fica “à margem”,é o lugar onde está socialmente autorizado um conjunto de práticas que, no cotidiano, são consideradas imorais. Não há, portanto, nada de profundamente questionador no botequim ou nos hábitos que são ali proporcionados mas, muito pelo contrário, é um nicho necessário à nossa sociedade para que ideologias profundamente conservadoras continuem a perpetuar-se sob o véu do humor, onde tudo é jocoso, onde nada é “de verdade”.

Falo isso porque, na minha vida de universitária, já bebi muito em botequim. Com amigos, com estranhos. A TV sempre ligada no futebol, algumas pessoas vociferando nos fliperamas, o som das vozes formando uma massa compacta e difícil de distinguir. Ficava impressionada com como as mesas sempre acabavam organizadas de maneira bastante uniforme e ordeira em torno de uma figura masculina, que volta e meia é engraçada e carismática, mas sempre tem alguma coisa a dizer. A figura que causa silêncio quando abre a boca, a figura de quem se espera que, por sob as piadinhas, haja um pedaço de filosofia com o qual sonharemos brevemente antes de dormir e acordar amnésicos no dia seguinte. E sempre que isso acontece, sempre que surge o clima “sermão da montanha” na mesa, eu aproveito para dar uma mijada porque, sinceramente, não tenho paciência. Sério, não tenho.

E nessa longa estrada de botequim, a gente se acostuma com a condição miserável que é o banheiro feminino. A gente dá graças a Deus e acha super legal se tem papel, quando o papel é a condição mínima para a nossa higiene, especialmente em uma situação etílica, que implica muito xixi. No início da minha vida alcoólica havia uma sensação gostosa de ser a estrangeira num lugar marginal que aparentemente não era feito para mim; havia algo de questionador, de transgressor, e o banheiro fétido compunha todo um panorama de marginalidade no qual eu achava estar muito inserida. Porém o tempo foi passando, e fui começando a achar profundamente desrespeitoso, comigo e com as outras meninas, que eu tivesse que urinar e me higienizar em semelhantes condições. E num belo dia de TPM, em que qualquer insatisfação parece fardo por demais pesado e precisa ser compartilhado com imediatez, eu fui num bar tão ruim, mas tão ruim, que uma menina em desespero tinha defecado na lixeira. O banheiro fedia demais e, ainda por cima, para coroar a situação de descaso, não havia papel.

Aquilo era mais do que eu podia suportar; fui ao balcão e pedi para falar diretamente com o dono do bar, pessoa que eu conhecia havia 3 ou 4 anos. Reclamei. Ele não moveu um músculo, do corpo ou da face, em solidariedade à minha causa. Concluiu friamente: bar não é lugar de mulher.

Machismo: filosofia de botequim...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

BBB12, natureza humana e cultura do estupro

                Durante muitos anos, a natureza humana foi uma preocupação central da filosofia ocidental. Parecia uma obviedade ululante de que existia; não se sabia se era boa ou ruim, se dizia respeito a nossas necessidades animais por sobrevivência ou se era fruto de uma força imaterial, maior e desconhecida – alma, espírito, vontade divina. Era consenso, também, que o Homem era, dentro da espécie, aquele que melhor a representava: as mulheres e crianças eram por demais aparentadas com o mundo animal, e não serviam de parâmetro para tais julgamentos. E, acreditasse alguém na maldade intrínseca, acreditasse na intrínseca bondade, parecia consensual que a vida em sociedade, com suas regras e moral, jamais seria o ambiente em que veríamos aflorar no Homem a sua natureza mais pura, mais selvagem.
                Sejamos francos, o debate nunca foi de todo abandonado, mas desde o século XIX a idéia de uma natureza, boa ou ruim, ficou um tanto quanto descreditada. Foram grandes contribuintes para isso as idéias de Freud, a hipótese de um inconsciente que se constrói na interação com o ambiente, e não um núcleo puro e essencial que viria conosco do nascimento; as idéias de Marx, que enfatizava o ser humano como uma construção histórica... mas nada foi mais contundente do que a antropologia, aliada à arqueologia. Da combinação das duas vimos que nossa espécie nem sempre foi como está: já comemos outras coisas; já moramos em casas diferentes, e inclusive houve épocas em que sequer moramos em casas; já nos estratificamos em diferentes hierarquias e já vivemos livres delas. E entre as culturas existentes tal é a variedade que eu, se advogasse da tese da “natureza humana”, teria tremendo constrangimento em me expressar sobre ela.
                O programa Big Brother, franquia internacional, é o laboratório antropológico da mídia. Partindo da tese de que a natureza humana existe e aflora longe das patrulhas morais, o “show” confina pouco mais que uma dezena de participantes em uma casa suntuosa, longe de jornais, revistas e TV, cercados por câmeras, e espera que a natureza emerja dos prisioneiros. O programa promete verdade, realidade e “animalidade". Para mim, as pessoas ali apenas simbolizam, por meio de estereótipos, aquilo que aprenderam, durante suas vidas, em nossa cultura.
                E a nossa, é uma cultura do estupro.
                Falando assim, muita gente acha que “cultura do estupro” quer dizer que, a cada esquina, há um homem com sérias perturbações de ordem psiquiátrica, pronto para atacar. E aqui já fica evidente o trabalho que a mídia faz: ao construir esse estereótipo de estuprador, cria a ilusão de que o estupro é um problema individual de cada criminoso, comportamento descolado da realidade sócio-cultural de onde vive o sujeito. Porém, a realidade é que vivemos numa cultura que nos diz que a mulher está a serviço do homem, instrumentalmente: devemos estar belas para que nos vejam, cheirosas para que nos cheirem, e gostosas, ora pois!, para que nos comam. Simples assim. E o Big Brother entra nessa lógica provendo um harém de mulheres desejáveis que podem ser livremente olhadas; que estão ali para isso, e nada mais; que são incentivadas a se perceberem e se comportarem como objetos de desejo e não como seres plenos em suas capacidades de pensar, desejar, amar e escolher com quem fazer sexo.
                Todo mundo já sabe o que aconteceu com Monique, e não vou me repetir aqui. O mais impressionante, aquilo que estou achando realmente digno de nota, é a repercussão, especialmente online, que o caso tem tido, e o fato de que há pessoas que ainda acham plausível culpar a vítima. Conheço inúmeros homens que bebem até cair, regularmente; ao final da noite, são socorridos por seus amigos ou por suas companheiras; recebem cuidado, carinho, têm suas roupas trocadas e seus corpos lavados sem que ninguém sequer imagine violar seu corpo e sua integridade. Mas uma mulher desacordada, ao que parece, perde o direito sobre seu próprio corpo e se torna subitamente objeto (objeto!) de desfrute de quem quiser “passar a régua”.
                Daí entra a natureza humana em jogo: homem é assim mesmo! Se prestarmos real atenção, sempre perceberemos que discursos sobre a mitológica natureza do homem são o porto seguro do senso comum quando o homem faz merda, isto é, para quando um indivíduo do sexo masculino transgride a moral vigente de uma sociedade, geralmente em crimes que ofendem os oprimidos: mulheres, negros, homossexuais, índios, e por aí vai. E as mulheres, que foram educadas a servir, muitas vezes nem se dão conta de que estão sendo abusadas por esse discurso. Quando um homem na internet diz que a mulher mereceu ser estuprada porque “deu mole” o que ele esta dizendo é que você está propensa ao mesmo risco. O estupro é uma espécie de sórdida lição: não seja uma puta, não beba. De preferência, não se divirta, e aliás, se possível, não saia de casa e fique na cozinha (ou na cama) que é o seu lugar.
                Digo e repito: o programa Big Brother é um programa que cultiva a mentalidade do estupro: que mulheres servem para ser olhadas, tocadas, violadas, usufruídas e que servem, também, para prestar serviços que otimizem a vida e o conforto do homem. E os homens que assistem, não me venham com aquela baboseira de que estão “vendo o jogo”: o Big Brother Brasil é o horário nacional e unificado da masturbação, quando milhares de televisores são ligados para ver bundas e peitos destituídos de qualquer humanidade. Quanto ao Daniel, é um estuprador, criminoso, e enquanto tal deve ser preso; contudo, o problema não é só o Daniel. O problema não é só o bbb12, nem o BB Brasil, mas um formato de programa que endossa a cultura do estupro. Que, aliás, faz com que pessoas pensem que um estupro não é um ato de violência, mas um triunfo da razão, na qual um “homem espert”o tira proveito de “uma garota burra” que “mereceu”. Sério, pensem nisso.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Onde elas estão?





Desde o começo desse ano, tenho tido com os marxistas uma relação... dialética. Se, por um lado, aprendo, troco muito com eles, por outro eles me deixam uma porção de pulgas atrás da orelha que acho válido de comentar (vou ser sucintx, juro).

Todo marxista sabe que as ciências de que dispomos são burguesas: pensadas por e para uma classe a fim de atender seus interesses específicos. Essa classe, por sua vez, não é um mero conjunto de corpos genéricos que internamente se organizam de maneira horizontal, justa e autogerida, mas que a burguesia tem uma cultura, uma raça, um gênero, uma orientação sexual, e por aí vai. No entanto, tem hora que muito marxista faz ouvido de mercador, e lança mão exatamente das ciências burguesas para validar seus argumentos – e, ao que parece, a História é a menina dos olhos.

Desde março ou abril que não me sai da cabeça aquela oração “a história do Homem é a história da luta de classes”. Do homem, pode até ser: dx negrx, da mulher, ou seja, a história “dos outros” (como o cara pálida tem nos chamado) é uma outra história... Gente, POR FAVOR, chega de confundir HISTÓRIA com PASSADO. Enquanto ciência, a história NARRA o passado, e o faz elencando como protagonistas aqueles que politicamente são eleitos enquanto tal. Igualzinho às fábulas de Esopo, minha gente, a História é só uma narrativa pensada como meio de justificar uma moral.

Da maneira como a história tem sido contada, a mulher só entra em cena quando se envolve em algum evento da luta de classes. Tirando isso, reina um silêncio sepulcral: parece que elas não fizeram nada de interessante nesses anos todos. Que não pensaram, que mal viveram, e que não contribuíram, em absoluto, para que o mundo seja o que é hoje. Parece que fomos, menos que coadjuvantes, o cenário do Épico do Pau.

A lição número um do feminismo é saber que histórias são contadas por pessoas com interesses específicos: esse ponto, aliás, acho que está mais do que batido. Porém, a pergunta que vem a seguir é: o que essas mulheres estavam fazendo, e onde, e como?

O sistema falocrático não diz respeito só à economia, e a prova disso é o silêncio sobre a produção cultural feminina. Artistas talentosas, pensadoras argutas, escritoras férteis de obras profusas... obras que certamente eram “vendáveis” foram engavetadas pelos engravatados críticos e editores: o critério da “qualidade” nunca foi o que regeu a entrada da mulher no mundo das artes ou do pensamento, como querem de nós que acreditemos.

Nesses dias de TPM tenho feito muitos quadrinhos para extravasar. Porque, afinal de contas, o que se passa no mundo mágico do meu útero nada tem a ver com meus amigos e companheiros. Enquanto ninguém provar que folha de papel tem sentimento, e que fica magoada por eu descontar nela todas as minhas angústias, muitos caderninhos inocentes serão torturados. Lá pelo meio dos meus rabiscos, surgiu a pergunta: onde estão AS cartunistas? Decerto existem. Mas ONDE ELAS ESTÃO?

Como diria o ditado, “que las hay, las hay”, e fui com tudo – via tumblr, Google, Wikipédia – atrás delas. E encontrei! A maior parte restrita à produção alternativa, zineira – como moizinha. Algumas com um acúmulo de anos, obras publicadas, personagens... enfim. Inspiração para quem precisa!

Suzy-X (http://seesuzysketch.blogspot.com/) é bem atual, retrata problemas do cotidiano de feminista. Na mesma temática, tem a zineira http://www.juliedoucet.net/. Alison Bechdel escreve quadrinhos protagonizados por dykes, numa tirinha que foi publicada durante anos em diversos jornais, e neste site (http://dykestowatchoutfor.com/) muito simpático encontra-se alguma de sua produção. Também foi publicada em português, http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n10102007_10.cfm.

Elas estão por aí...

domingo, 11 de dezembro de 2011

Para imprimir, para distribuir, para refletir...



O texto não está, assim, um primor. Na verdade, se comparado a outros aqui do blog, está mesmo ruim. Mas se eu aprendi uma coisa nesta vida de vegan e feminist, é que a atenção de gente intolerante é rara, e quando a há, é curta. Muitas vezes, quando a pessoa se depara com um texto grande demais e que, logo de início, tende a destruir tudo em que acredita, rejeita-o quase imediatamente. Esse zine (ou flyer, ou whatever...) é uma tentativa de contornar o problema: entregar um zine na mão de alguém, com um texto sucinto, figuras "bonitas" (mas essa é uma questão para depois), às vezes é mais eficiente do que a estratégias tradicionais do bate-boca ou testamento.

Estamos tentando de tudo; estamos fazendo todas as experiências possíveis e necessárias. Não somos dones da verdade, mas onde chegarmos com ela, faremos de tudo para denunciar a falácia histórica de que a única história possível é essa que se vem contando, impondo e destruindo... E contamos com a SUA ajuda ^^

P.S.: Se alguém quiser as imagens em resolução e tamanho próprios para imprimir, basta mandar e-mail para coletivocaju@gmail.com ou (espero que funcione, não estou muito íntimx com isso aqui) 



Boa semana!